Essas observações são resultado de ter intermitentemente tido a ganja como aliada por mais de dez anos.

Não é uma recomendação pra fumar.

É absolutamente possível chegar à totalidade de si e restabelecer uma conexão com o duplo sem o auxílio das plantas.

São só observações e dicas compartilhadas com quem já fuma.
Com quem se pergunta o quanto o hábito está, de fato, ajudando ou atrapalhando no caminho.

A primeira coisa, é que sem espreita, sem disciplina, ou seja, quando nos entregamos,
a ganja, e qualquer substãncia de poder, deixa de ser uma aliada,
e a relação passa a ser de desgaste energético e dependência estéril.

Se não houver algo em nós observando ativamente, se não houver um intento firme de aprender,
o deslocamento do ponto de encaixe induzido por uma planta oferece pouco ou nenhum auxílio pra caminhada.

Pra uma planta poder ser uma aliada do tonal,
é preciso ter energia / atenção disponível.

Se não, o intento de aprender vai ser engolido pelo intensidade da planta,
e se converter numa mera dependência das ondas cada vez menores de intensidade e bem estar que ela induz.

A ganja pode se tornar uma verdadeira aliada quando um guerreiro
consegue manter seu tonal de forma equilibrada durante a experiência.
Quer dizer, flexível o bastante pra que o ponto de encaixe se mova,
e presente o bastante pra observar e aprender com a mudança de ponto de encaixe.

É uma questão de ter disciplina de estar com a sua atenção disponível pra experiência,
presente e atento às mudanças no seu espaço interno,
pra fazer observações que podem ser úteis pra caminhada
depois que o ponto de encaixe voltar à posição inicial.

Quando alguém fuma enquanto faz outras coisas, e está com a sua atenção nessas outras coisas,
a planta se torna somente um prazer, ou pode até provocar mudanças de ponto de encaixe que sejam confusas,
como no caso de estar assistindo filmes ou ouvindo músicas com sugestões de confusão, medo, autoimportância e autopiedade.
Ou, às vezes, o tonal pode ficar tão agarrado ao mundo, que pode nem mesmo haver qualquer consciência de alteração na percepção.

Caso um guerreiro já saiba ver, continuar fumando a planta pode até ser uma predileção sem importância,
como parte da sua loucura controlada, mesmo que ela deixe de ser uma aliada.

A ganja pode ser uma aliada poderosa quando é fumada com espaçamento suficiente entre uma consagração e outra.
Ela pode induzir deslocamentos intensos do ponto de encaixe para estados ainda mais profundos e intensos de silêncio.

Nesse sentido, ela proporciona como um “insight” do que o guerreiro pode ainda (e deve normalmente) atingir, naturalmente, num momento futuro da caminhada,
como resultado de um relaxamento ainda maior do tonal.

A ganja pode ser uma aliada quando é fumada regularmente, também.
Ela pode ensinar um guerreiro a relaxar totalmente o corpo, e consequentemente, a mente.

Pra isso, o mais favorável é fumar em pequeníssimas doses (“meia tragada”).
Isso afeta menos a energia, favorecendo a observação, e ajuda com que o intento de aprender não seja sobrepujado pela letargia ou dispersão de umas superdosagem.

Nessas condições, o guerreiro pode se beneficiar, se conscientizando das tensões do seu corpo,
ao observar o contraste entre as tensões automáticas habituais do seu corpo,
e a sensação que tem quando essas diferentes partes começam a relaxar após fumar.

Ele pode perceber que é possível relaxar essas tensões, mesmo sem a planta.
E assim, pode aprender progressivamente a replicar o intento de relaxamento dessas partes do corpo,
mesmo quando está em seu estado habitual de consciência.

Esse é um caminho que permite aprender a entrar no estado de consciência temporariamente expandida – de maneira intencional.
E isso por sua vez prepara o terreno pra eventual entrada no estado de consciência permanentemente expandida.

Quando um guerreiro adquire esse equilíbrio delicado, sem que a dosagem afete a atenção e disciplina,
é possível convidar a aliada a participar em situações desafiadoras do dia a dia,
pra ver como é vivenciá-las numa posição diferente do ponto de encaixe,
e, observando, adquirir a memória dessas novas possibilidades.

Com o tempo, a ganja, como aliada, ensina o guerreiro a reajustar sua vida pra um ritmo
mais equilibrado em relação à energia do lado esquerdo.

A transformar ou abandonar hábitos que o deixavam totalmente à mercê da mente voladora,
alimentados a base da tensão e pressa.
E a ter um dia a dia mais com o bem estar do corpo e da mente.

É altamente desafiador ter uma relação com a ganja como aliada quando se
fuma com regularidade e em altas dosagens. A tendência é se “entregar”, entregar o próprio intento à planta,
e sem a atenção presente, a pessoa requer dosagens cada vez maiores pra ter prazer na mesma intensidade.
O prazer da energia provocada pelo deslocamento inicial do ponto de encaixe se torna cada vez mais efêmero,
e em paralelo, o tonal vai aprendendo a manter o controle em dosagens mais elevadas.
Chegando ao ponto em que oscila entre estar tenso quando não fuma, ou nocauteado por ter fumado demais.

A ganja também tende a afetar a lembrança dos sonhos da noite.
Isso acontece especialmente quando ela é fumada perto do momento de dormir, pelo que pude observar.
A lembrança e lucidez nos sonhos depende que o tonal esteja minimamente presente,
e quando vamos dormir logo após ter fumado, especialmente em altas dosagens,
a tendência é que ele esteja totalmente ou quase totalmente desligado, e nenhuma memória se mantenha no tonal.

Quando o intento pela totalidade de si está realmente fortalecido,
quer dizer, quando essa é a prioridade inflexível da vida de um guerreiro,
ele poderá até mesmo fumar em altas quantidades e extrair benefício disso.

Porque a cada instante, não importa seu nível de energia/atenção, ou onde seu ponto de encaixe esteja,
seu intento de aprender com a experiência – de se espreitar a si mesmo – se mantém.

Quando alguém enfim aprende a Ver, é possível fumar sem ter sua consciência afetada em nada,
ainda que efeitos sejam sentidos no corpo e na mente.

— J Cristopher
Ilustração: Alex Grey

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