“O Silêncio é a passagem entre os mundos. Ao calar a nossa mente, emergem aspectos imponderáveis de nosso ser. A partir desse momento, a pessoa se torna um veículo do Intento, e todos os seus atos começam a se revestir de poder. 

Durante minha aprendizagem, meu benfeitor me mostrou prodígios inexplicáveis que me espantavam,mas, ao mesmo tempo, despertavam minha ambição. Eu também queria ser poderoso quanto dom Juan! Frequentemente me perguntava como poderia aprender seus truques, mas ele colocava o dedos sobre meus lábios e ficava me fitando. Foi apenas muitos anos mais tarde que eu pude apreciar completamente a magnífica lição de sua resposta. A chave dos bruxos para a consciência é o Silêncio. 

Silêncio não é definível. Quando você o pratica, você o sente e percebe. Se o tenta entender, você o bloqueia. Não o veja como algo difícil ou complexo, porque não é nada do outro mundo; é simplesmente silenciar a mente.

Poderia dizer-lhes que o silêncio é como um porto onde chegam os navios; se o porto está ocupado não cabe nada de novo. Tal é a minha visão do assunto, mas, verdadeiramente, eu não sei como falar disso. 

Entendam: silêncio não é somente a ausência de pensamentos. Realmente, trata-se de suspender juízos, testemunhar sem interpretar.Sustento que entrar em silêncio pode ser referido, ao modo contraditório dos bruxos, como ´aprender a pensar sem palavras´. 

Para muitos de vocês o que estou dizendo não faz sentido, porque estão acostumados a consultar tudo com a mente. O irônico é que, para começar, os pensamentos nem mesmo são nossos. Os pensamentos soam através de nós, o que é diferente. E, como nos acossam desde que temos feito uso da razão, nós terminamos nos acostumando com esta ruminação. Entretanto, se querem ter uma oportunidade de ser por inteiro, só lhes resta uma saída: desconectem a mente! A liberdade passa ao largo do pensamento. 

Eu conheço pessoas que conseguiram parar o diálogo interno e já não interpretam, são pura percepção; nunca se desiludem ou se arrependem,pois tudo o que se envolvem parte do centro-da-decisão. Eles aprenderam a manejar a mente em termos de autoridade e vivem no mais autêntico estado de liberdade. 

Silêncio é nossa condição natural. Nós nascemos no silêncio e pra lá voltaremos. O que nos contamina são as ideias supérfluas que se infiltraram em nós a partir de nossa forma coletiva de viver. Os costumes sociais arraigados dos primatas de diminuir os níveis de tensão dentro do grupo permanecem geneticamente em nós, sendo transmutados em intercâmbio de palavras. Cada vez que temos oportunidade, nós nos tranquilizamos uns aos outros conversando sobre qualquer coisa. Depois de milênios de coexistência, temos interiorizado esses intercâmbios ao ponto de, estando dormindo ou acordados, nossa mente não ficar quieta e ficar falando sempre consigo mesma. 

Dom Juan afirmava que somos animais predadores que, à força de nos amansarmos, acabamos nos transformando em ruminantes. Passamos a vida regurgitando uma lista interminável de opiniões sobre tudo. Os pensamentos nos chegam em torrentes e se encaixam um ao outro até encher o espaço da mente. Esse barulho todo não tem nenhuma utilidade porque praticamente em sua totalidade é dirigido ao engrandecimento do ego.

Devido ao fato de que vai contra tudo o que nos foi ensinado desde crianças, o silêncio deve ser intentado com ânimo de combate. No momento, vocês tem uma grande vantagem: a experiência dos espreitadores. Os bruxos agora pretendem passar pelo mundo sem chamar a atenção, tratando a todos equanimemente. Um guerreiro espreitador é o dono da situação, para o bem ou para o mal, porque há algo terrivelmente efetivo em atuar sem interferência da mente. 

Se me perguntarem sobre exercícios pra alcançar o silêncio, respondo que é um assunto muito privado, porque as molas do diálogo interno se nutrem de nossa história pessoal. Mas, através de milênios de práticas, os videntes viram que, no fundo, somos muito parecidos, e há situações que tem o efeito de silenciar igualmente a todos. 

Dom Juan me transmitiu diversas técnicas para me silenciar que, bem entendidas, se reduzem a uma; Intento! O silêncio se intenta cruamente através da dedicação. É coisa de insistir um e outro momento, mas não significaria que devamos reprimir os pensamentos, mas que aprendamos a que nos obedeça. 

O silêncio começa com uma ordem, uma ato de vontade que se converte em ´comando da Águia´. Porém, nós temos que lembrar que no momento que nos impomos ´silêncio´ nunca estaremos verdadeiramente ali, mas na imposição. É necessário que a vontade se transforme em Intento. 

O silêncio é tranquilo, é um abandonar-se, um deixar-se ir. Produz uma sensação de ausência, como a de um menino teria ao ficar sozinho com o fogo. O silêncio é a condição natural do caminho. Eu passei longos anos batalhando para alcançá-lo, e tudo o que alcancei foi me enrolar com minha própria tentativa. Além da conversa habitual que sempre tinha lugar em minha mente, eu comecei a me recriminar por não poder entender o que era que dom Juan esperava de mim. Tudo mudou um dia quando estava contemplando distraidamente árvores: o silêncio saltou delas como um animal selvagem, parando meu mundo e me lançando num estado paradoxal, para algo novo e ao mesmo tempo já conhecido. 

A técnica de observar, quero dizer, contemplar o mundo sem ideias preconcebidas, funciona muito bem com os elementos. Por exemplo, com as chamas, as quedas d´água, as nuvens ou um pôr de sol. Os novos videntes chamam ´enganar a máquina´, porque consiste, em essência, em aprender a intentar uma nova descrição. 

O combatente tem de lutar corajosamente para alcançar esta condição, mas, depois que ocorre, o novo estado de consciência se sustenta por si mesmo. É como por o pé na porta; já que está aberta, é questão de acumular energia suficiente para passar ao outro lado. 

O importante é que a intenção seja inteligente. De nada vale nos esforçarmos para chegar ao silêncio se primeiro não criarmos condições favoráveis para que se sustente. Portanto, além de treinar na observação dos elementos, um guerreiro é obrigado a se comportar de modo simples mas muito difícil: por em ordenação sua vida pessoal.

Todos vivemos numa cadeia de intensidade a qual chamamos ´tempo´. Como não alcançamos sua fonte, tampouco nos dedicamos para sentir o fim de tudo, quando somos jovens nos sentimos eternos e, quando envelhecemos, só nos resta nos queixarmos pelo ´tempo perdido´. Mas isso é ilusão, e o tempo não se perde, somos nós que nos perdemos a nós próprios!

A ilusão de que temos tempo é um engodo que nos leva a desperdiçar energia com todo tipo de compromissos. Quando um homem se conecta com o silêncio interno, reavalia o tempo dele. Assim, uma outra forma de definir isto, é dizer que o silêncio é uma aguda consciência do presente!

Um método infalível para conseguir o silêncio é através do ´não-fazer´, uma atividade que nós programamos com nosso desejo no início, mas que tem a virtude de temperar a vontade e silenciar a mente, uma vez que é perseguido. Dom Juan chamava esse tipo de técnica com seu senso pragmático de ´tirar um espinho com outro´, 

Como exemplo de não-fazer, temos o ´escutar a escuridão´, trocando a prioridade de nossos sentidos, e o comando que nos força a dormir assim que fechamos os olhos. Também ´conversar com plantas´, postura de ponta-cabeça, caminhar pra trás, observar sombras, observar a distância e os espaços entre as folhas de árvores. 

Todas essas atividades são das mais efetivas para silenciar nosso diálogo interno, mas elas tem também um defeito: não as podemos sustentar durante tempo suficiente, e então somos forçados a recuperar nossas rotinas. Um não-fazer que é exagerado, automaticamente perde o poder e cai dentro do fazer mental. 

Se o que queremos é acumular silêncio profundo, de efeitos duradouros, o melhor não-fazer é a Solidão. Junto com a economia de energia e o abandono desses que nos dão por conhecidos e previsíveis. Aprender a estar só é o terceiro princípio prático do caminho. Estar só requer um grande desafio, porque nós ainda não aprendemos a superar o comando genético da socialização. No princípio o aprendiz deve ser forçado a isto pelo seu benfeitor, através de armadilhas se necessário. Mas com o tempo aprende a desfrutar-se o silêncio da solidão. é normal que os guerreiros busquem o silêncio de lugares isolados e que vivam sozinhos por longos períodos. No mundo dos viajantes-videntes o máximo que alcançamos é compartilhar o caminho com aqueles que a ele se dedicam. 

Uma das ironias da vida moderna é que, quanto mais aumentam as comunicações, mas solitários nos sentimos. A existência do homem comum é de uma desolação horripilante. Procura companhia, mas não se encontra a si mesmo. O amor foi deturpado, seu sonho é pura fantasia de ego-narcismo. Sua curiosidade natural se tornou um interesse egoísta e pessoal, e só lhe restam apegos. Horroroso não é a solidão, e sim chegar-se a velhice como infantis chorões. 

Por outro lado, a solidão do guerreiro é como retiro dos enamorados, desses que procuram um nicho remoto para escrever poemas. Seu amor está em todos os lugares, porque esta terra que por tão pouco tempo veio caminhar. Assim onde quer que vá, o guerreiro se entrega a seu romance. É natural que evite lidar com o mundo; o silêncio interior é solitário, e se comunica com ele em múltiplos canais. 

Os videntes antigos abusavam de plantas de poder pra parar o diálogo interno. Mas podemos alcançar os mesmos resultados se nos colocamos contra a parede. Ao enfrentar situações limite, perigo, medo, saturação sensorial e agressão, algo em nós reage e toma o controle. A mente se põe em alerta e suspende a tagarelice automaticamente. Colocar-se a si mesmo deliberadamente nestas condições se chama ´espreita´. 

Porem, o método favorito dos bruxos da liberdade é a Recapitulação. A recapitulação pára a mente de um modo natural. O principal combustível de nossos pensamentos são os assuntos pendentes, as expectativas e defesas do ego. É muito difícil de achar uma pessoa cujo diálogo interno seja sincero; o comum é que nós dissimulemos nossas frustrações indo até o extremo oposto. Deste modo, o conteúdo de nossa mente se torna uma ode ao eu. 

Recapitular com assiduidade acaba com tudo isso. Depois de um tempo de dedicação continuada, algo cristaliza aí dentro. O diálogo habitual fica incoerente, incômodo; não existe outro remédio senão estacioná-lo. 

É normal que um aprendiz nesta fase se depare com um fogo cruzado. Por um lado, está a homogenização do seu ponto de aglutinação da percepção; e por outro, enormes parênteses de silêncio que se metem em sua mente, fragmentando sua continuidade.

Quando se esgota a inércia do diálogo interno, o mundo se refaz novamente. A onda de energia se sente como um insuportável vazio que se abre debaixo dos pés,.Por tal motivo, o guerreiro pode passar anos de instabilidade mental. A única coisa que o conforta em tal situação é manter claro o propósito do seu caminho e não perder, de nenhuma maneira, sua perspectiva de liberdade e libertação. Um guerreiro,por princípio, jamais perde a sensatez mesmo na extrema loucura.

Outro fator crucial é que o silêncio interno induz deslocamentos do ponto de aglutinação, que são acumulativos. Uma vez alcançado certo umbral, o silêncio pode por si mesmo mover o ponto a grande distância, mas não antes. Vencer a inércia do consenso coletivo, a resistência da descrição do mundo, as categorias do tonal enfim, por meio de um intento continuado é o que os videntes-viajantes chamam de ´chegar ao limiar do silêncio´. Muitos videntes-bruxos vão cada vez mais longe e podem entrar de forma definitiva em outro mundo. Uma ruptura que se sente fisicamente como um ruído na base do crânio ou som de um gongo. A partir daí, é uma questão de quanta força foi liberada e focada. 

Apesar de ser indefinível, podemos medir o silêncio pelos seus resultados. Seu efeito final, o que os guerreiros da liberdade buscam com intensidade, é que ele nos sintoniza com uma dimensão magnífica de nosso ser, onde temos acesso a um conhecimento instantâneo e total que não é composto de razões, mas direto das unidades fundamentais chamadas emanações. Velhas tradições descrevem este estado como o ´reino dos céus´, mas os videntes preferem um nome menos comprometido: o ´conhecimento silencioso´. 

Pode-se dizer que um guerreiro que domina o silêncio conseguiu limpar seu vínculo com o espírito, e o poder desce caudalosamente sobre ele. Dom Juan se referia a este estado como ´cambalhota mortal do pensamento´, porque começamos no mundo cotidiano e nunca mais votamos a cair nele novamente. 

Dom Juan sempre incitava aqueles que o rodeavam a sustentar um romance com o Conhecimento. O puro desejo de saber o que o espírito vem lhe contar no silêncio interior, sem esperar nada disto. Só sustentando um apaixonado romance com o conhecimento que podemos obter força necessária para não esmorecermos diante de tanta resistência e medo ao desconhecido. Quando seu caminho já não corresponde a suas expectativas razoáveis, quando o leva a situações que desafiam a razão, então se pode dizer que um guerreiro estabeleceu uma relação íntima com o conhecimento. Então terá que se ajustar à sua mensagem, de forma que sua vida seja a vida estratégica de um combatente a cada momento. Então, seu trabalho consistirá em cultivar um vínculo honesto e limpo com o Infinito. ”

(Encontros com o Nagual, Armando Torres.
Compilação: Vicente Medrano, Nagualismo do Novo Ciclo Holístico/Criatividade.)

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