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O que é o nagualismo?

“É chegada a hora de falarmos sobre a espinha-dorsal que permeia toda obra de Castaneda. Um elemento praticamente ignorado tanto pelo grande público quanto por aqueles que se dizem praticantes da tradição Tolteca.

Afinal de contas, no que constitui o nagualismo?

De uma maneira geral, podemos dizer que a obra de Castañeda, em essência, não se trata de um estudo antropológico ou mesmo literatura, mas sim de um grande Tratado de Toltequidade (Toltecáyotl). Para tanto, falar de Castaneda é penetrar na essência e significado de uma antiga tradição: o Nauallotl!

O nagualismo (Nauallotl) constitui uma tradição pré-colombiana que se perde na linha do tempo e transcende qualquer registro histórico que se tenha notícias. Para fins didáticos, todavia, pode-se afirmar que a presente tradição nasceu no México central entre os séculos X e XII, no período clássico. Esse mar desconhecido é a Toltequidade, o Nagualismo, o toltecáyotl, o Nauallotl, a força dos toltecas, expresso no seu conhecimento e nas suas práticas. A palavra “Nagualismo” já aparece no primeiro dicionário da língua náhuatl, o vocabulário Nahuatl-Castellano, feito em 1571, pelo Padre Molina que define toltecáyotl como “a arte de viver”, algo muito próximo do significado do termo “tolteca” que pode ser traduzido como “artista”, “artesão”, um mestre na “arte da vida”.

O nagualismo não deve ser confundido com religião, nunca foi e nunca será. O nagualismo perde sua força e suas características essenciais quando é assim tratado. O náhuatl foi a língua de “Cem Ânáhuac”, o nome utilizado pelos Astecas para se referir ao seu mundo, e foi também falado pelos Toltecas, entendidos estes como homens de conhecimento, os seguidores do toltecáyotl, o nagualismo, em qualquer uma das muitas civilizações pré-hispânicas

O nagualismo é uma prática real, efetiva e original, criada por colaboração de várias culturas americanas; visa à qualidade e à criação e uma vida superior, à libertação de elementos baixos do ‘ethos’ humano e também à evolução tanto do indivíduo quanto da espécie. O nagualismo constitui um dos primeiros e mais fortes fenômenos pan-americanos sendo praticado ao longo de todo o continente que um dia viria a se chamar América. De uma maneira geral, Castaneda penetra no cerne de uma tradição de conhecimento que perpassa milênios!

Alguns estudiosos afirmam que o Nagualismo tem suas raízes em alguns conhecimentos pré-tibetanos e siberianos, ou pode mesmo ter começado muito antes destes, durante a travessia transcontinental dos xamãs há 40.000 anos!

Trata-se de uma tradição de conhecimento tão sofisticado quanto as realizações cientificas de nossa civilização, tanto em termos de conhecimento cosmológico quanto em matéria de compreensão da essência da natureza humana. As ruinas da cidade de Tula, ao sul do México, com suas pirâmides e resquício arquitetônico dos assim chamados “atlantes” constitui apenas uma herança visível dessa cultura e “parque de diversão” interpretativo dos arqueólogos. Aliás, a essência da Toltequidade é percepção, não interpretação.

Neste sentido, o Nagualismo também pode ser entendido como o nome atribuído pelos velhos bruxos do México pré-hispânico a seu sistema de crenças. De acordo com a história, aqueles homens estavam tão profundamente interessados em suas relações com o universo a tal grau que se deram a tarefa de investigar os limites da percepção através do uso de plantas alucinógenas que lhe permitiam mudar os níveis de consciência. Depois de praticar durante varias gerações, alguns deles aprenderam a “ver”, ou melhor, a perceber o mundo, não como uma interpretação, mas como um fluxo constante de energia.

Ao contrário do que muitos pensam, a necessidade de corroborar não é exclusiva da cultura ocidental, é também um imperativo na tradição tolteca. É importante frisar que nagualismo, como sistema ideológico, não se baseia em dogmas, e sim, na experiência pessoal de gerações de praticantes. Castaneda afirma que seria absurdo considerar que todas essas pessoas, durante milhares de anos, teriam depositado sua confiança em simples patranhas. Como seu ponto de partida é a experimentação, pode-se dizer que o nagualismo não é uma forma de crença, e sim uma ciência.

O nagualismo consiste em um conjunto de técnicas desenhadas para alterar a percepção cotidiana, produzindo fenômenos psíquicos e físicos de extraordinário interesse. Por exemplo, a tradição mexicana afirma que um Nagual é alguém capaz de transformar-se em um animal, pois conseguiu aprender a sonhar a si mesmo em uma forma diferente da forma de um ser humano através do movimento de seu ponto de aglutinação para outras regiões do “casulo humano”. Atrás desta crença popular esta o fato de que os bruxos exploram o seu subconsciente com o propósito de lançar luz sobre aquele âmbito desconhecido de nosso ser.

O nagualismo foi durante milhares de anos uma pratica socialmente aceitável, tal como entre nos é a religião ou a ciência. Com o tempo, seus postulados ganharam em abstração e síntese, convertendo-se em uma espécie de proposta filosófica cujos praticantes levaram o nome de toltecas. Os toltecas não eram o que conhecemos comumente como bruxos, ou seja, indivíduos que usam forças sobrenaturais para causar mal a outras pessoas, mas homens e mulheres extremamente disciplinados e interessados em complexos aspectos do fato de estar consciente.

O nagualismo como sistema total de práticas, se divide em castas ou ciclos. Desde que começou a aventura do homem em busca do espírito até hoje, houve, de acordo com Don Juan, ao menos três castas de bruxos: os dos primeiros tempos, os antigos videntes e os novos videntes. A extinção da auto-importância constitui a condição básica do nagualismo, pois libera para nosso uso um excedente de energia para coloca-la em prática na realização de manobras da consciência. Além do mais, sem esta precaução, o caminho do guerreiro, de acordo com os videntes, poderia nos converter em verdadeiras aberrações humanas.

Castaneda afirmava que “o nagualismo é como alguém que herdou uma história e um mapa sobre um tesouro, mas não acredita nele, embora te transfira um grande segredo. E você é tão esperto ou tão ingênuo que toma a história por certa e se aplica em decifrar o mapa. Mas o mapa está codificado com diversas chaves, o qual te leva a aprender várias línguas, a ir a lugares difíceis, a escavar a terra, escalar montanhas, descer barrancos e mergulhar em águas profundas. Ao final, depois de anos de busca, chegas ao lugar onde deveria estar o tesouro e, oh decepção! Apenas encontras um espelho. Era uma mentira? Bem, você se vê saudável, forte, culto, cheio de aventuras e com uma grande experiência. Na verdade, havia um tesouro ali”!

Referências:
– Encontros com o Nagual (Armando Torres)
– A Fresta Entre Os Mundos: Vislumbres Da Filosofia Aanahuacah no século XXI ( LuizCarlos De Morais Junior)
– Border Crossings : A Psychological Perspective On Carlos Castaneda’s Path of Knowledge Studies in Jungian Psychology ( Williams, Donald Lee).
– Carlos Castaneda (todas as obras).

(Felipe Matus)

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