“— Para ser inteligente em meu mundo — explicou Clara —, você deve ser capaz de concentrar-se, de fixar sua atenção em qualquer coisa concreta, bem como em qualquer manifestação abstrata.

— De que tipo de manifestação abstrata você está falando, Clara? — indaguei.

— Uma abertura no campo energético que nos cerca é uma manifestação abstrata — disse ela. — Mas não espere senti-la ou vê-la da mesma maneira como sente e vê o mundo concreto. Algo mais acontece.

Clara insistiu em que, para fixarmos nossa atenção em qualquer manifestação abstrata, precisamos fundir o que é conhecido e o que é desconhecido em uma mistura espontânea. Desse modo, podemos concentrar nosso raciocínio e ao mesmo tempo ser indiferente a ele.

Clara pediu-me então para ficar de pé e caminhar.

— Agora que está escuro, tente andar sem olhar para o chão — sugeriu ela. — Não como um exercício consciente, mas como uma feitiçaria não-fazendo.

Queria pedir-lhe para explicar o que ela estava querendo dizer com uma feitiçaria não-fazendo, mas sabia que, se ela explicasse, eu estaria pensando conscientemente sobre sua explicação e avaliando meu desempenho de acordo com este novo conceito, ainda que sem saber ao certo o que significava.

Lembrei-me, contudo, de que ela usara o termo “não-fazendo” antes e, não obstante minha relutância em fazer perguntas, continuei tentando lembrar do que ela havia dito a esse respeito. Para mim, o conhecimento, ainda que mínimo e falho, era melhor do que nada, pois me proporcionava uma sensação de controle, enquanto que a ausência de conhecimento fazia com que eu me sentisse inteiramente vulnerável.

— Não-fazendo é uma expressão que nós recebemos de nossa tradição da feitiçaria — prosseguiu Clara, obviamente consciente de minha necessidade de explicações. — Refere-se a tudo que não está incluído no inventário que nos foi impingido. Quando nos enredamos com algum item de nosso inventário imposto, estamos fazendo; tudo que não é parte desse inventário é não-fazendo.”

(A Travessia das Feiticeiras, Taisha Abelar)

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