o segredo da serpente emplumada armando torres

A linhagem dos Ticis

Havia na parede do quarto de cura da casa de dona Silvia uma moldura com a imagem da coluna vertebral, na qual se podia apreciar as descrições anatômicas conhecidas. Além disso, ao lado de cada vértebra estava escrita à mão uma correlação enigmática com nomes correspondentes na língua indígena. Esses sinais eram uma espécie de segredo entre eles.

Ela se referiu ao diagrama como “a escada para o céu”. Ela me disse que representava os graus de sua linhagem. Ao não revelar os significados, criaram um mistério insuportável que me fazia roer as unhas da curiosidade.

Durante meu tempo como assistente, fui apresentado à coluna como o centro da saúde de uma pessoa. De fato, eles me instruíram na arte do curanderismo, com base nas trinta e três degraus de saúde e bem-estar do ser humano. De acordo com a tradição dos ticis, que era como eram chamados os médicos em tempos antigos, os degraus correspondem às vértebras, cada um com suas próprias lições e testes aos quais são submetidos os assistentes de curanderismo durante a aprendizagem.

Eu tinha que conhecer e aprender sobre cada uma deles. Primeiro, eles me ensinaram anatomia como é ensinada nas escolas. Anos mais tarde, quando eu já tinha avançado o suficiente no culto da serpente com plumas, os ensinamentos ocultos da coluna me foram revelados.

Em uma ocasião, Don Melchor, referindo-se ao desenho da coluna, disse que osticis usavam o esquema da escada para mover energia de um centro para outro, e que esse era o regulamento para eles.

– De acordo com os videntes, temos oito centros principais. A regra diz que é preciso começar de baixo, do primeiro centro, passando pelo segundo e assim em diante, até chegar ao último degrau. É assim que se consegue desbloquear a vidência. A energia escala pela coluna vertebral, pum!, pum!, centro a centro, até que se alcance todo o potencial ao qual estamos destinados como seres luminosos.

– Para onde movem a energia? – perguntou um dos companheiros.

– Como vimos anteriormente – ele respondeu -, para os humanos existe apenas a energia sexual. Essa energia pode ser gasta como fazem normalmente as pessoas mundanas, ou pode ser acumulada e transmutada para outros níveis. O desafio consiste em transformar essa energia, movê-la de um centro para o outro, até completar o circuito. Essa era a meta dos antigos ticis. Quando não conseguiram a integração, tentaram completar o circuito em pares. Essa é a razão pela qual os ticis sempre vêm em pares.

– Como a energia pode ser movida de um lugar para outro? – perguntei.

– A maneira de conseguir isso é realizando o treinamento dos ticis. Entre outras coisas, há o exercício de visualizar como a energia vai progredindo de um centro ao outro. Essas etapas podem levar anos para serem concluídas, embora haja casos de guerreiros cujos centros tenham sido abertos muito rapidamente.

Acontece que, para os crentes, a tentativa de alcançar a consciência de Quetzalcoatl ou à consciência da serpente emplumada é, como eu disse, um movimento especializado do ponto de encaix, mediante o qual o guerreiro, por meio do seu intento inflexível, leva seu ponto mais além dos limites do ovo luminoso. Esse esforço faz com que a luminosidade da pessoa se estique e se transforme em uma fina linha de luz com o ponta de encaixe em uma das extremidades, como se fosse a cabeça de uma cobra. Para um observador externo, essa visão se assemelha a uma cobra luminosa que flutua no céu.

O povo serpente, como eles são, por vezes chamados, foram guerreiros que realizaram essa manobra, e quer sozinhos, em pares ou grupos, conseguiram esticar o ovo luminoso até que se tornou uma linha de luz virou. Eles são brujos que alcançaram o nível das serpentes emplumadas e viajam eternamente no oceano da consciência, uma comunidade de exploradores que um dia foram humanos como nós.

O objetivo desses guerreiros era unir suas extremidades, “morder o próprio rabo” para formar um círculo; mas, por mais que tentassem, nunca alcançaram esse propósito. No entanto, surgiram novas gerações de videntes que, continuando com essa tradição, acabaram experimentando fazer isso em pares. Nesse intento de brujos, “um mordia a cauda do outro”, formando assim um enorme círculo de energia, um enorme ponto de encaixe. De forma que, desta vez sim, eles obtiveram êxito. Essa manobra permitiu que aumentassem o nível de consciência dos participantes à níveis impensáveis.

Esse é o grande segredo da linhagem dos ticis. A linhagem dos curandeiros, de certa maneira, seguiu essa tradição ancestral, embora de forma modificada, porque, nos dias de hoje, eles não mais se tornam linhas de luz. No entanto, mantiveram a tradição da forma circular.

O regulamento para grupos circulares

Em certa ocasião, acompanhei Don Melchor em uma viagem à capital. Fomos levar um saco de uma erva medicinal muito rara que lhe havia sido encomendada por um amigo dele que era comerciante no mercado de Sonora.

De lá, fomos caminhando pelas ruas do centro para visitar a Pirâmide de Tlaloc, o deus das chuva e dos vendavais, que está localizada dentro de uma estação do metrô. No meio de um rio agitado de pessoas que fluíam em ondas, caminhamos até o lugar sagrado dos antigos. Ali ele me mostrou sinais no monumento que eu nunca teria notado sem sua ajuda, e me explicou que o que observávamos era apenas o topo da pirâmide. Acrescentou que o corpo da estrutura permanecia enterrado.

– Que significa isso? – perguntei.

– A serpente que circunda a pirâmide corresponde ao elemento água – ele me respondeu -; a pirâmide de quatro pontas significa o elemento terra; a estrutura redonda que está no topo corresponde ao ar, e o teto, que geralmente era uma estrutura frágil construída de paus e palha, está relacionado ao elemento fogo.

Naquele lugar, no meio daquela multidão, ele explicou que apenas o topo dessa pirâmide era redondo. Respondendo a uma pergunta que lhe fiz, disse que, no momento, havia poucas pirâmides redondas, mas que ainda haviam brujos que seguiam essa prática. De lá, percorremos um longo túnel com seu mercado de livros até chegarmos ao zócalo, onde fomos visitar a escultura da Coyolxauhqui. Ele disse que essa pedra era o símbolo da morte, que acima dela donzelas eram desmembradas.

Não sei se era verdade ou não, mas senti o pânico daquelas garotas na boca do estômago; Na minha imaginação, pude ver o que aconteceu. Disse a ele que gostaria de sair de lá. Ele concordou, disse que eu já estava suficientemente aberto para o que viria a seguir.

Queria saber a que ele se referia. Colocou um dedo nos lábios para indicar que mantivesse o silêncio. Do lado de fora, me indicou algo no céu, bem acima da catedral. No começo eu não vi nada, mas então algo se ajustou e meus olhos viram o que ele apontava. Era uma sombra negra, como um globo gigantesco, com uma aparência deformada e sinistra, flutuando acima dos edifícios.

Imediatamente agarrei o braço de Don Melchor. Ele me pediu para me acalmar e não demonstrar medo ou surpresa. Chamou aquilo de “a sombra”, mas eu sabia o que era que estava vendo: aquela “sombra” a que ele se referia não era nada mais e nada menos do que os voladores sobre os quais Carlos Castaneda falava.

Essa foi a primeira vez que os vi. Eu tremia da cabeça aos pés, me senti mal e tive que regurgitar. Don Melchor me tratou gentilmente e disse que eu ainda não estava pronto.

– Pronto para o quê? – perguntei-lhe.

– Para o que vem mais adiante – ele respondeu, e riu como se tivesse ganho de mim em um jogo.

Depois me disse:

– Cada linhagem está procurando por sua própria passagem para a liberdade, esse é o propósito real. Para conseguir isso, o nagual usa todos os recursos possíveis. Se não fosse por importância pessoal. seguir o nagual deveria ser brincadeira de criança; O que é realmente necessário é o amor pela liberdade e estar disposto a fazer de tudo para alcançá-la.

Passou-se um longo tempo desde aquela visita à pirâmide, até que, em outra ocasião, me levou para a pirâmide Cuicuilco, que também está no D.F, perto da cidade universitária. Enquanto caminhávamos por aquele magnífico monumento – uma das poucas pirâmides circulares existentes -, disse-me:

– A intenção desta pirâmide é dedicada aos guerreiros do grupo da serpente emplumada.

Ele me disse que eu seguira fielmente o ensinamento e que, finalmente, minha hora tinha chegado, que estava pronta para o que estava por vir.

– E o que vem a seguir, Don Melchor?

– O que vem é o conhecimento – ele respondeu – e conhecimento é poder. Se você conseguir fluir com o significado do que eu digo, o poder vai levá-lo e pode ser que você continue a fluir com ele, talvez para sempre. Desta forma, é possível até que você embarque para sua última viagem.

Disse que aquele o lugar era por excelência o mais sagrado para os curadores. Perguntei por que era assim.

– Porque é aqui que se concentra o intento dos nossos antepassados. Este lugar é o símbolo da nossa cultura, aqui se encontra acumulado o intento de milhares de brujos que seguiram o caminho da serpente com plumas.

“Este é, portanto, o lugar ideal para te passar o conhecimento que você tanto esperava. De fato, todos os curadores da tradição da serpente vêm a este lugar para receber e transmitir esse conhecimento. É possível que, algum dia, você mesmo venha a este lugar para comunicá-lo a outra pessoa. Se você quiser, pode chamar isso de tradição acadêmica.

“Para alcançar seus objetivos, os guerreiros acatam o regulamento do nagual, que não são leis criadas, mas estruturas de poder tiradas da vidência”.

– Quando o regulamento começou? Quem descobriu isso?

– Os videntes da antiguidade, procurando estabelecer uma ordem no caos do que viam, concordaram que era necessário organizar os grupos de guerreiros de acordo com as ordens que formavam a estrutura do próprio Universo.

“Através da vidência, examinaram a estrutura que mantém o Universo e descobriram que os padrões energéticos das emanações geram formas geométricas que se aglomeram espontaneamente para formar ramos, os quais integram todos os elementos que percebemos como nosso mundo conhecido. Esses agrupamentos de energia são exatamente isso: aglomerados de energia que, após um longo processo de desnate, percebemos como o mundo físico.

Eles então copiaram o desenho das estruturas que viam e assim criaram grupos de guerreiros baseados em suas visões. Devido à sua solidez, a estrutura piramidal foi escolhida para os grupos de guerreiros que, a partir de então, adotaram o caminho das quatro direções.

Com essa organização, eles sobreviveram por muitos milhares de anos. “Como já expliquei, em paralelo ao intento dos grupos piramidais, havia os grupos de videntes que optaram pela formação circular.

“Nossa tradição diz que os videntes da antiguidade viram que, originalmente, a estrutura do Universo é circular ou, melhor, uma esfera que mantém sua estrutura graças aos padrões piramidais, de tal forma que todo o Universo com seus bilhões de galáxias estão contidos dentro de uma única e gigantesca bolha que é atravessada por miríades de raios de luz. Esses raios se cruzam e formam infinitos padrões piramidais.

“Depois de analisar suas visões, o grupo de ticis decidiu copiar, não a estrutura básica da pirâmide, mas a estrutura global que permite a existência de todas as outras estruturas. Foi assim que nasceram os primeiros intentos de organizar os grupos circulares. Atualmente, são grupos esféricos já que, ao se unirem o conglomerado de guerreiros com o casal nagual no centro, esses grupos se assemelham mais com bolhas de consciência flutuando na eternidade.

“A intenção inicial dos antigos guerreiros era a união dos extremos. Esses grupos tornaram-se um mistério até para os brujos das pirâmides, que se interessavam cada vez mais pelo domínio temporal de seus semelhantes do que pela busca da liberdade “.

– Como esses grupos são formados?

– A estrutura fundamental do regulamento para grupos circulares diz que o número mínimo é de dois, um masculino e um feminino, que são, por assim dizer, a cabeça da serpente.

“O tamanho da serpente é relativo ao poder dos naguais. À medida que o número de membros aumenta, mais anéis são adicionados ao corpo da serpente. Estes conformam cada uma das partes restantes: coração, barriga e cauda, e, dependendo do poder dos naguais, são adicionadas até os chocalhos.

“A verdade é que o grupo é formado apenas pelo par de naguais, os outros são agregados mantidos pela energia dos dois. Essa é a base da criação, a essência de tudo: masculino e feminino para sempre. Não há outro desenho evolutivo, é a regra “.

– Quantos guerreiros compoem esses grupos?

– Como eu disse, o número mínimo é dois. Teoricamente, não há limite máximo de participantes, isso depende do poder dos naguais. No entanto, os agregados devem sempre vir em pares.

– E como funciona esse tipo de grupo?

– A formação da serpente é dividida em duas metades longitudinais, a metade da direita é masculina e a da esquerda é feminina. Essa organização é flexível, funciona de maneira muito natural. Para os tipos de grupo, não há regras fixas, como no caso de outras estruturas; aí tudo é governado por meio de presságios.

Ele juntou o polegar e o indicador de ambas as mãos, dando-lhes o formato de um círculo, mas depois trocou os dedos, dando movimento ao círculo, que acabou delineando um símbolo do infinito. Enquanto movia os dedos, disse:

– Cada um contribui com sua energia; Desta forma, ajuda a estabilizar o grupo, adicionando suas qualidades ao crescimento dos outros.

A força de seu gesto, somada à entonação que ele deu às palavras, me fez sentir o que ele estava dizendo.

Continuando com sua explicação, acrescentou:

– A medida que se reproduziam, os antigos guerreiros serpente formaram novos grupos de poder, seguindo a mesma estrutura da qual eles descenderam. Os participantes do corpo da serpente eram chamados de famílias. Cada família era uma geração de brujos e, como um todo, uma linhagem de poder.

Perguntei se qualquer pessoa em busca de conhecimento poderia participar do grupo do nagual. Respondeu-me:

“Foi assim que surgiu o regulamento para as pirâmides circulares, também chamado de regulamento da serpente.

“A quintessência da união entre gêneros não é de origem sexual, mas é a tentativa de formar um anel perceptual puro, onde as energias masculina e feminina se unem e se complementam.

“De acordo com esse regulamento, o par de naguais em seu ato final se enroscam um no outro, formando o círculo eterno. Nesse momento, os guerreiros que tinham se unido ao destino do casal nagual se juntam ao círculo de energia. Desta forma, o grupo desaparece definitivamente deste mundo, criando em sua partida uma força que arrasta tudo ao redor.

A medida que aprendia os detalhes do culto da serpente emplumada, Don Melchor explicou em várias ocasiões aspectos do regulamento concernente à essa linhagem de guerreiros:

– É muito importante que você entenda a base de nossas crenças, se você vai adentrar nelas – disse, em certa ocasião.

Respondi que me sentia pronto para seguir em frente com o aprendizado. Ele sorriu e disse que só o espírito poderia dizer se eu estava realmente preparado ou não.

– Você deve entender que essa tradição é governada pelo regulamento ancestral, que os participantes chamam de teia de aranha cósmica. De acordo com isso, é obrigação de cada guerreiro entrar em contato com o regulamento e aprender seus pormenores.

“Como você pode imaginar, ao longo do tempo foram formadas comunidades de guerreiros que perseguiram o objetivo de” morder a cauda “. Eles se tornaram linhagens e adotaram o círculo como regulamento de seus grupos, chegando até mesmo a construir pirâmides redondas para expressar seu intento.

“Para eles, essa é uma maneira de se proporcionar uma oportunidade para intentar o salto evolucionário. O regulamento, como um mapa, é um intrincado conjunto de instruções e procedimentos que aumentam as chances de sucesso na busca pela liberdade.

“O regulamento universal é aquele que as linhagens estabelecidas seguem. A interpretação dos detalhes do regulamento de cada grupo, ou o regulamento pessoal de um guerreiro, são atos de vidência acumulados ao longo da vida de cada participante. Depois de adotar o regulamento, o guerreiro começa a fazer suas próprias explorações, validando e aumentando este mesmo regulamento. Os guerreiros geralmente coletam e compartilham com os outros aspectos do regulamento que eles próprios verificaram.

A parte maciça do regulamento para os grupos é o consenso entre os participantes. Para fazer parte de um grupo é necessário, em primeiro lugar, ter uma intento comum. Portanto, é obrigatório que cada participante tenha contatado previamente o regulamento e aceito suas propostas. Quem não aceita está fora, é simples assim”.

Um dia, confrontei Don Melchor com os detalhes do regulamento descritos nos livros de Carlos:

– O que você pode me dizer sobre esses grupos? Eu perguntei curiosamente. Me lembrava de que Carlos tinha sido muito breve com essa informação. Ele esclareceu:

– Em uma tentativa de desobedecer a ordem da águia, que diz que todos os seres vivos, sem exceção, devem morrer, os videntes organizaram grupos de exploradores e examinaram todas as possibilidades ao seu alcance. Viram que esta era uma ordem inapelável. Mas, ao explorar mais o assunto, perceberam que morrer é o estágio de transição entre este mundo e o outro, antes da completa desintegração do eu em sua união com o todo.

“Em investigações subseqüentes, eles descobriram que é possível enganar a morte, mantendo a consciência intacta. A recapitulação ajuda a atingir esse objetivo, estimulando a memória.

“Como você sabe, o Universo é em si uma enorme memória coletiva que contém a totalidade de tudo o que foi, é e será. Somos como seus neurônios, ou talvez menos que isso; talvez eu deva dizer uma partícula girando em torno de algum núcleo. O fato é que esse eletroncito, ou seja o que for, de repente toma consciência de si mesmo e, conhecendo seu lugar dentro do grande esquema, cumpre sua função de maneira tão impecável que alcança a liberdade “.

Ele riu de sua analogia e disse que, realmente, a coisa mais importante que alguém pode fazer é participar da tarefa de recapitulação, porque é isso que garante a sobrevivência da consciência depois que o nosso tempo orgânico termina.

Sempre me maravilhara com os conhecimentos dele; De fato, os curandeiros eram pessoas muito bem informadas de todos os avanços, don Gabinito até recebia revistas de atualização científica.

Com relação aos grupos tradicionais, perguntei:

– Você poderia me falar mais sobre o regulamento geral?

– O regulamento se manifesta em tudo o que existe: as cores, som, ciência, matemática, geometria, astronomia, genética, em tudo! Chamamos os cientistas modernos de ‘descobridores do regulamento’ , porque é isso que a ciência moderna faz: descobrir aspectos do regulamento universal.

“O Regulamento do Nagual tem partes diferentes – e passou a enumerar as diferentes áreas em que a regra se aplica, no caso específico dos grupos -. Existem para cada guerreiro individual, de acordo com sua direção ou tendência. Nós já discutimos o regulamento para naguais, mas há também normatividades para planetas de ensonhadores e espreitadores, há para o grupo, para a linhagem … No final das contas, o regulamento está presente nos menores aspectos do processo, desde a formação dos grupos. Existem até regulamentos para o comportamento dos guerreiros.

Quais são esses regulamentos de comportamento?

– Ser impecável

Disse, num tom de queixa, que isso não explicava nada; Eu esperava uma lista de coisas que poderiam e não poderiam ser feitas.

– Ah, mas é claro que explica! – ele respondeu -. Impecabilidade é como uma multiferramenta que funciona para qualquer ocasião. Por exemplo, entre bom e excelente, o guerreiro escolhe sempre o mais e o melhor, e quando se tem que escolher entre o ruim e o pior, escolhe-se estrategicamente, o que cause o menor dano possível.

Ele riu de suas próprias palavras e acrescentou:

– Impecabilidade é sempre dar o melhor de si, o tempo todo, em tudo que você faz, mesmo quando às vezes a situação não é a mais favorável.

Pedi para me dar mais detalhes, mas ele me disse que eu iria descobrir por mim mesmo com o passar do tempo, já que a minha associação com eles me obrigava a observar todas as facetas do regulamento.

– O que pensam os curandeiros sobre a questão dos naguais de três pontas? – perguntei-lhe.

Don Melchor respondeu:

– Os naguais de três pontas são uma anomalia necessária dentro do ciclo dos naguais da santa cruz. Só aparecem raramente, mas quando aparecem é porque o ciclo de um grupo está prestes a cumprir seu destino.

– A que se refere?

– Bem, de acordo com a regra, todos os grupos têm o seu enigma. Assim como cada guerreiro recebe uma tarefa para cumprir como parte de seu caminho individual para a liberdade, cada grupo, incluindo cada linhagem, também tem seus próprios enigmas para cumprir. Os enigmas de um guerreiro devem ser resolvidos em sua vida, ou ele perecerá tentando. O mesmo vale para um grupo de guerreiros: a oportunidade que eles têm de decifrar o enigma de sua existência é o tempo deles na Terra.

“Um grupo de guerreiros só obtém sucesso total como um grupo se cada um de seus membros tiver conseguido decifrar seus próprios enigmas.

“Já em questões de decifração do enigma de uma linhagem, o período é de cinquenta e duas gerações ou grupos de guerreiros. No entanto, uma linhagem só chega a se consagrar se todos os grupos que a compuseram tiverem atingido o objetivo; caso contrário, a corrente seria quebrada e eles seriam forçados a recomeçar. Assim que, quando uma linhagem está próxima de alcançar o seu máximo, aparece um nagual de três pontas, não como um continuador, como ocorre normalmente, mas como um solvente que encerra um capítulo para abrir um novo.

“Durante esse processo, o ensino é massificado. No passado, esse foi um processo extremamente perigoso, os naguais e seus grupos eram caçados e mortos. Atualmente, no entanto, as circunstâncias são diferentes. Com a massificação, é possível que surjam novas linhagens que iniciem o processo novamente. “

(O Segredo da Serpente Emplumada, Armando Torres)

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