“— A atenção sob a mesa é a chave para tudo o que fazem os feiticeiros — continuou ela. — A fim de alcançar essa atenção, o Nagual e Genaro nos ensinaram a sonhar e a você ensinaram as plantas do poder. Não sei o que lhe fizeram para ensinar-lhe a sonhar; o Nagual nos ensinou a contemplar. Ele nunca nos dizia o que estava realmente fazendo conosco. Apenas ensinou-nos a contemplar. Nunca soubemos que contemplar era o meio de prender a nossa segunda atenção. Os sonhadores têm de ser contempladores antes de poderem prender sua segunda atenção.

“A primeira coisa que o Nagual fez foi pôr uma folha seca no solo e mandar que eu olhasse para ela durante horas. Todos os dias ele me trazia uma folha seca e a colocava na minha frente. A princípio, pensei que fosse a mesma folha que ele guardava de um dia para outro, mas depois notei que as folhas são diferentes. O Nagual disse que, quando compreendemos isso, não estamos mais olhando, e sim contemplando”.

Depois ele pôs montes de folhas na minha frente, Disse-me que as misturasse com a mão esquerda e as sentisse, enquanto as contemplava. Um sonhador move as folhas em espiral, contempla-as e depois sonha com os desenhos feitos pelas folhas. O Nagual disse que os sonhadores podem considerar que dominaram a arte de contemplar as folhas quando primeiro sonham com os desenhos das folhas e depois encontram esses mesmos desenhos no dia seguinte em seu monte de folhas secas.

“O Nagual disse que contemplar as folhas fortalece a segunda atenção, Se você contemplar um monte de folhas durante horas, como ele costumava mandar-me fazer, os seus pensamentos se aquietam. Sem pensamentos a atenção do tonal se enfraquece e de repente a sua segunda atenção agarrarse às folhas e elas se tornam outra coisa. O Nagual dizia que o momento em que a segunda atenção se agarra a alguma coisa era ‘parar o mundo’. E isso é certo, o mundo pára. Por esse motivo deve sempre haver alguém por perto, quando você contempla. Nunca sabemos as esquisitices que tem a nossa segunda atenção. Como nunca a usamos, temos de familiarizar-nos com ela antes de podermos aventurar-nos a contemplar sozinhos”.

“Essa dificuldade em contemplar á aprender a aquietar os pensamentos. O Nagual disse que ele preferia ensinar-nos a fazer isso com um monte de folhas porque podíamos ter todas as folhas que quiséssemos a qualquer momento em que quiséssemos contemplar. Mas qualquer outra coisa serviria”.

— Desde que você consiga parar o mundo, você é um contemplador. E como o único meio de fazer parar o mundo é tentar fazê-lo, o Nagual fez com que todos contemplássemos as folhas secas durante anos e anos. Acho que é o melhor meio de alcançar a nossa segunda atenção.

“Ele combinava contemplar as folhas secas e procurar as nossas mãos no sonhar. Levei cerca de um ano para encontrar minhas mãos, e quatro anos para fazer parar o mundo. O Nagual disse que depois que você prender a sua segunda atenção com as folhas secas, você faz contemplação e sonhar para expandi-la. E é só isso, contemplar”.

— Você faz tudo parecer tão simples, Gorda,

— Tudo o que os toltecas fazem é simples. O Nagual disse que para prender a nossa segunda atenção bastava tentar e tentar. Todas nós paramos o mundo contemplando as folhas secas, Você e Elígio eram diferentes. Você mesmo o fez com as plantas do poder, mas eu não sabia que caminho o Nagual seguiu com Elígio. Ele nunca quis me dizer. Contou-me a seu respeito porque temos o mesmo trabalho.

Eu disse que tinha escrito em minhas notas que só tivera a primeira noção completa de ter feito parar o mundo dois dias antes. Ela riu.

— Você fez parar o mundo antes de qualquer de nós — disse ela. — O que você pensa que fez, quando tomou todas aquelas plantas do poder? Você nunca o fez contemplando, como nós, é só isso.

— O monte de folhas secas foi a única coisa que o Nagual mandava vocês contemplarem?

— Depois que os sonhadores aprendem a fazer parar o mundo, podem contemplar outras coisas; e, finalmente, quando os sonhadores perdem totalmente sua forma, podem contemplar qualquer coisa. Eu faço isso. Posso entrar em qualquer coisa. Mas ele nos fez obedecer a uma certa ordem na contemplação.

Primeiro contemplamos as plantinhas. O Nagual nos preveniu de que as plantinhas são muito perigosas. Seu poder é concentrado; têm uma luz muito intensa e sentem quando os sonhadores as estão contemplando.

“Imediatamente movem sua luz e a dirigem para o contemplador. Os sonhadores têm de escolher um tipo de planta para contemplarem”.

“Depois contemplamos as árvores. Os sonhadores também têm um tipo especial de árvore para contemplar. Nesse particular, você e eu somos iguais; nós dois somos contempladores de eucaliptos”.

Pela minha expressão, ela deve ter adivinhado a minha pergunta seguinte.

— O Nagual disse que com o fumo dele você podia facilmente fazer funcionar a sua segunda atenção — continuou ela. — Você focalizou a sua atenção muitas e muitas vezes nos prediletos do Nagual, os corvos. Ele disse que uma vez a sua segunda atenção focalizou-se tão perfeitamente num corvo que ela voou, como voa um corvo, para o único pé de eucalipto que havia nas redondezas.

Durante anos eu tinha pensado naquela experiência. Não podia pensar nela de nenhum outro modo a não ser um estado hipnótico incrivelmente complexo, provocado pelos cogumelos psicotrópicos contidos na mistura de fumo de Dom Juan em combinação com sua perícia como manipulador do comportamento. Ele sugeriu uma catarse perpétua em mim, a de virar corvo e perceber o mundo como corvo. O resultado era que eu percebia o mundo de uma maneira que não podia ter sido parte de meu inventário de experiências passadas. De algum modo a explicação da Gorda tinha simplificado tudo. Ela disse que o Nagual depois as fez contemplar criaturas vivas, em movimento. Ele lhes contou que os pequenos insetos eram, de longe, os melhores objetos de observação. Sua mobilidade os tornava inócuos ao contemplador, o oposto das plantas que tiravam sua luz diretamente da terra.

O passo seguinte foi contemplar as pedras. Ela disse que as rochas eram muito velhas e poderosas e tinham uma luz específica, meio esverdeada, em contraste com a luz branca das plantas e a luz amarelada de seres vivos e móveis. As pedras não se abriam facilmente aos contempladores, mas valia a pena estes persistirem, pois as rochas tinham segredos especiais, escondidos em seu âmago, segredos que podiam ajudar os feiticeiros em seu “sonhar”.

— Que coisas são essas que as pedras lhe revelam? — perguntei.

— Quando contemplo o âmago da pedra — disse ela — sempre capto um sopro de um aroma especial, próprio daquela pedra. Quando vago no meu sonhar, sei onde estou porque sou guiada por esses aromas.

Ela disse que a hora do dia era um fator importante na contemplação das árvores e das pedras. De manha cedo as árvores e as pedras ficavam duras e sua luz era fraca. Por volta do meio-dia é que estavam no seu auge, e a contemplação a essa hora se fazia para captar sua luz e poder. De tardinha as árvores e as pedras ficavam sossegadas e tristes, especialmente as árvores. A Gorda disse que naquela hora as árvores davam a sensação de estarem contemplando o contemplador.

Uma segunda série na ordem da contemplação era contemplar os fenômenos cíclicos; a chuva e o nevoeiro. Ela disse que os contempladores podem focalizar sua segunda atenção sobre a própria chuva e mover-se com ela, ou focalizá-la nos fundos e usar a chuva como uma espécie de lente de aumento para revelar coisas ocultas. Os lugares do poder ou lugares a serem evitados são encontrados contemplando-se a chuva. Os lugares de poder são amarelados e os lugares a serem evitados são de um verde intenso.

A Gorda disse que o nevoeiro era sem dúvida a coisa mais misteriosa do mundo para um contemplador e que podia ser usado das mesmas duas maneiras que se usava a chuva. Mas não cedia facilmente às mulheres, e mesmo depois dela ter perdido sua forma humana, o nevoeiro continuou a lhe ser inacessível. Ela disse que o Nagual um dia a fez “ver” uma névoa verde na ponta de uma massa de nevoeiro e lhe disse que aquela era a segunda atenção de um contemplador de nevoeiro que vivia nas montanhas onde ela e o Nagual estavam, e que ele se movia com o nevoeiro. Ela acrescentou que o nevoeiro era usado para descobrir os espectros das coisas que não estavam mais lá e que o verdadeiro feito dos contempladores do nevoeiro era deixar a sua segunda atenção entrar no que quer que sua contemplação lhes revelasse.Eu lhe disse que uma vez em que me encontrava com Dom Juan eu tinha visto uma ponte formar-se de uma massa de névoa. Fiquei abismado diante da nitidez e detalhes precisos daquela ponte. Para mim, era mais do que real. A cena foi tão intensa e vivida que eu não fora capaz de esquecê-la. Os comentários de Dom Juan tinham sido que eu teria de atravessar aquela ponte, um dia.

— Eu sei disso — declarou ela. — O Nagual me disse que um dia, quando você dominar a sua segunda atenção, vai atravessar aquela ponte com essa atenção, do mesmo modo que você voou como um corvo com essa atenção. Ele disse que se você se tornar feiticeiro, uma ponte se formará para você no nevoeiro e você a atravessará e desaparecerá deste mundo para sempre. Tal como ele fez.

— Ele desapareceu assim, por uma ponte?

— Não por uma ponte. Mas você viu como ele e Genaro passaram pela fresta entre os mundos diante dos seus olhos. Nestor disse que só Genaro acenou adeus, da última vez em que você os viu; o Nagual não acenou porque estava abrindo a fresta. O Nagual disse que quando a segunda atenção tem de ser convocada para juntar-se, só o que precisa ê o movimento de abrir aquela porta. É esse o segredo dos sonhadores toltecas, depois que se tomam sem forma.

Eu queria perguntar-lhe sobre a passagem de Dom Juan e Dom Genaro por aquela fresta. Ela me fez parar, pondo a mão de leve na minha boca. Disse que outra série era a contemplação da distância e das nuvens. Em ambas, o trabalho dos contempladores era deixar sua segunda atenção ir ao lugar que contemplavam. Assim, percorriam grandes distâncias ou cavalgavam as nuvens. No caso da contemplação das nuvens, o Nagual nunca permitia que elas contemplassem nuvens de tempestade. Disse-lhes que tinham de perder a forma antes de poderem tentar fazer isso, e que então poderiam cavalgar não só a nuvem de tempestade, mas o próprio raio.A Gorda riu-se e disse que eu adivinhasse quem é que teria a audácia e seria suficientemente louca para tentar contemplar as nuvens de tempestade. Não pude pensar em mais ninguém a não ser Josefina. A Gorda disse que Josefina tentava contemplar as nuvens de tempestade sempre que podia, quando o Nagual estava ausente, até que um dia um raio quase a matou.

— Genaro era um feiticeiro de raio — continuou ela. — Seus dois primeiros aprendizes, Nestor e Benigno, foram escolhidos para ele por seu amigo, o trovão. Ele disse que estava procurando plantas num lugar muito distante, onde os índios são muito ariscos e não gostam de visitantes de espécie alguma. Eles tinham dado permissão a Genaro para ficar na terra deles, pois ele falava a língua deles. Genaro estava apanhando umas plantas quando começou a chover. Havia umas casas por perto, mas o povo era hostil e ele não queria incomodá-los; já ia se metendo num buraco quando viu um rapaz de bicicleta na estrada, muito carregado de coisas. Era Benigno, o rapaz da cidade, que fazia negócio com aqueles índios. A bicicleta atolou na lama e ali mesmo um raio atingiu-o. Genaro pensou que ele estivesse morto. As pessoas nas casas tinham visto o que acontecera e saíram. Benigno estava mais assustado do que ferido, mas a bicicleta e todas as mercadorias estavam estragadas. Genaro passou uma semana com ele e curou-o.

“Quase a mesma coisa aconteceu com Nestor. Ele costumava comprar plantas medicinais de Genaro, e um dia o rapaz seguiu Genaro às montanhas, para ver onde ele colhia as plantas, para não ter mais de pagar por elas. Genaro, de propósito, foi bem longe nas montanhas; pretendia fazer com que Nestor se perdesse. Não estava chovendo, mas havia raios e de repente um raio caiu na terra e correu pela terra seca como uma cobra. Passou bem entre as pernas de Nestor e atingiu uma pedra a dez metros de onde ele estava”.

“Genaro disse que o raio tinha queimado a parte de dentro das pernas de Nestor. Seus testículos estavam inchados e ele passou muito mal. Genaro teve de tratar dele durante uma semana naquelas montanhas”.

“Quando Benigno e Nestor se curaram, estavam presos. Os homens têm de ser presos. Às mulheres não precisam disso. As mulheres entram livremente em qualquer coisa. É esse o poder delas, e ao mesmo tempo a sua desvantagem. Os homens tem de ser dirigidos e as mulheres têm de ser controladas.

Ela deu uma risada e disse que com certeza ela tinha muito de masculino em si, pois tinha de ser conduzida, e que eu devia ter muito de feminino em mim, pois eu tinha de ser controlado.

A última série era a contemplação do fogo, da fumaça e das sombras. Ela disse que para um contemplador, o fogo não é brilhante, e sim negro, e assim também a fumaça. As sombras, ao contrário, são brilhantes e têm cor e movimento em si.

Há mais duas coisas que eram consideradas separadamente, a contemplação das estrelas e da água. A das estrelas era feita pelos feiticeiros que perderam sua forma humana. Ela disse que tinha passado muito bem, em matéria de contemplar as estrelas, mas não sabia contemplar a água, especialmente a água corrente, que era usada pelos feiticeiros sem forma para colher a sua segunda atenção e transportá-la a qualquer lugar aonde tivessem de ir.

— Todas nós temos pavor da água — continuou ela. — Um rio colhe a segunda atenção e a leva embora e não há meio de parar. O Nagual me contou os seus feitos de contemplar a água. Mas também me contou que uma vez você quase se desintegrou na água de um rio raso e que hoje você não consegue nem tomar banho.

Dom Juan me obrigara a contemplar a água de uma vala de irrigação atrás da casa dele várias vezes, enquanto ele me matinha sob a influência de sua mistura de fumo. Eu tivera sensações inconcebíveis. Uma vez eu me vi todo verde, como se estivesse coberto de algas. Depois disso ele recomendou que eu evitasse a água.

— A minha segunda atenção foi prejudicada pela água? — perguntei.

— Foi — respondeu ela. — Você é um homem que se entrega muito. O Nagual o preveniu para ter cuidado, mas você ultrapassou os seus limites, com a água corrente. O Nagual disse que você podia ter usado a água como ninguém, mas não era do seu destino ser moderado.

Ela puxou o banco mais para perto do meu.

— A contemplação é só isso — disse ela. — Mas há outras coisas que tenho de lhe contar antes de você partir.

— Que coisas, Gorda?

— Em primeiro lugar, antes de dizer qualquer coisa, você tem de convocar a sua segunda atenção para as irmãzinhas e para mim.

— Não creio que consiga fazer isso.

A Gorda levantou-se e entrou na casa. Voltou um momento depois com uma almofadinha grossa e redonda, feita da mesma fibra natural usada para fazer redes. Sem dizer uma palavra ela me levou de novo para o alpendre da frente. Disse que ela mesma tinha feito aquela almofada, para seu conforto pessoal, quando estava aprendendo a contemplar, pois a posição do corpo tem grande importância, quando se contempla. A pessoa tem de sentar-se no chão, numa esteira macia de folhas, ou numa almofada feita de fibras naturais. As costas têm de se apoiar numa árvore ou um toco ou uma pedra plana. O corpo tem de ficar completamente descontraído. Os olhos nunca devem fixar-se sobre o objeto, a fim de não se fatigarem. A contemplação consistia em olhar muito lentamente para o objeto contemplado, no sentido contrário ao do ponteiro do relógio, mas sem mexer a cabeça. Ela acrescentou que o Nagual os mandara fincar aqueles postes para poderem usá-los para se apoiarem.

Mandou que eu me sentasse na almofada dela e apoiasse as costas num dos postes. Disse que ia orientar-me para contemplar um local de poder que o Nagual tinha nos morros redondos do outro lado do vale. Esperava que, contemplando-o, eu conseguisse a energia necessária para convocar a minha segunda atenção.

Ela se sentou muito junto de mim, à minha esquerda, e começou a darme instruções. Quase um sussurro, ela me disse para manter as pálpebras meio fechadas e para olhar para o lugar onde convergiam dois morros enormes. Lá havia uma garganta de água estreita e íngreme. Disse que a contemplação determinada consistia de quatro atos diversos. O primeiro era usar a aba de meu chapéu como viseira para tapar o brilho excessivo do Sol e permitir que me chegasse aos olhos apenas uma quantidade mínima de luz; depois, semicerrar as pálpebras; o terceiro passo era conservar a abertura de minhas pálpebras a fim de manter um fluxo uniforme de luz; e o quarto passo era distinguir a garganta de água ao fundo, através da teia de fibras de luz nas minhas pálpebras.

A princípio não consegui obedecer às suas instruções. O sol estava alto e eu tinha de inclinar a cabeça para trás. Inclinei meu chapéu até tapar a maior parte do brilho com a aba. Parece que bastava fazer isso. Assim que fechei um pouco os olhos um pouco de luz que parecia vir da ponta do meu chapéu quase explodiu em minhas pálpebras, que agiam como um filtro que criava uma teia de luz. Conservei as pálpebras meio fechadas e brinquei com a teia de luz um momento, até conseguir distinguir as formas escuras e verticais da garganta de água nos fundos.

Depois a Gorda mandou que eu contemplasse a parte média da garganta até conseguir ver uma mancha marrom muito escura. Ela disse que era um buraco na garganta, que não estava lá para o olho que olha. mas apenas para o olho que “vê”. Ela me avisou que eu linha de controlar-me assim que isolasse aquela mancha, para que ela não me puxasse para ela. Em vez disso, eu é que devia fazer um zoom nela e contemplá-la. Ela sugeriu que no momento em que eu encontrasse o buraco, encostasse o ombro no ombro dela, para ela saber, Ela escorregou de lado até estar inclinada sobre mim.

Lutei um pouco para manter os quatro atos coordenados e firmes, e de repente formou-se uma mancha escura no meio da garganta. Notei logo que eu não a estava vendo do jeito que vejo normalmente. A mancha escura era mais uma impressão, uma espécie de distorção visual, No momento em que o meu controle fraquejava, ela desaparecia. Só se mantinha em meu campo de percepção se eu mantivesse os quatro atos sob controle. Lembrei-me então que Dom Juan me empenhara inúmeras vezes em atividades semelhantes. Costumava pendurar um pedaço de pano de um galho baixo de uma árvore, estrategicamente colocado para estar alinhado com determinadas formações geológicas nas montanhas ao fundo, como gargantas de água ou encostas. Fazendo-me sentar a uns 15 metros daquele pedaço de pano, e mandando que eu olhasse através dos galhos baixos do arbusto em que estava pendurado o pano, ele criava um efeito perceptivo especial em mim. O pedaço de pano, que era sempre um pouco mais escuro do que a formação geológica que eu contemplava, a princípio parecia ser parte daquela formação. A idéia era deixar que a minha percepção brincasse sem analisá-la. Eu fracassava sempre porque era totalmente incapaz de suspender o raciocínio e a minha mente entrava sempre em alguma especulação racional sobre a mecânica da minha percepção fantasma. Dessa vez eu não tinha necessidade alguma de especulações. A Gorda não era um vulto imponente com quem eu inconscientemente precisasse lutar, como Dom Juan obviamente fora para mim.

A mancha escura no meu campo de percepção tornou-se quase negra.

Encostei no ombro da Gorda, para ela saber. Ela murmurou em meu ouvido que eu devia lutar para manter as minhas pálpebras na posição em que estavam e respirar calmamente pelo abdômen. Não devia deixar que a mancha me puxasse, mas gradativamente entrar nela. O que devia evitar era deixar que o buraco crescesse e de repente me absorvesse. Caso isso acontecesse, eu tinha de abrir imediatamente os olhos.

Comecei a respirar conforme ela determinara e assim consegui manter minhas pálpebras fixadas indefinidamente na abertura certa. Fiquei naquela posição por algum tempo. Depois reparei que eu começara a respirar normalmente e que isso não atrapalhara a minha percepção da mancha escura. Mas, de repente, a mancha escura começou a mexer-se, a pulsar, e antes que eu pudesse recomeçar a respirar calmamente, o negrume avançou e envolveu-me. Fiquei aflito e abri os olhos.

A Gorda disse que eu estava fazendo a contemplação à distância e que para isso era preciso respirar do jeito que ela recomendara. Insistiu para eu começar tudo de novo. Disse que o Nagual costumava fazê-las ficarem sentadas dias inteiros, convocando sua segunda atenção, contemplando o mesmo ponto. Preveniu-as várias vezes sobre o perigo de se deixar absorver, devido ao choque que o corpo sofre.

Levei mais ou menos uma hora de contemplação para conseguir fazer o que ela determinara. Fazer um zoom na mancha marrom e contemplar seu interior significava que a mancha marrom em meu campo de percepção se iluminava de repente. Quando ela clareou, percebi que algo em mim estava realizando um ato impossível. Senti que eu estava na verdade avançando para aquele ponto; daí a impressão que eu tinha de que ela estava clareando. Depois, eu estava tão perto dela que distinguia coisas nela, como pedras e vegetação. Cheguei mais perto ainda e pude olhar para uma formação diferente numa pedra. Parecia uma cadeira toscamente entalhada. Gostei muito daquilo; comparado com aquilo, o resto das pedras parecia pálido e sem interesse.

Não sei por quanto tempo fiquei contemplando aquilo. Consegui focalizar todos os detalhes. Senti que podia perder-me para sempre nos seus detalhes porque não tinham fim. Mas alguma coisa desfez a minha vista; outra imagem estranha superpôs-se na pedra, e depois mais outra e mais outra ainda. Fiquei aborrecido com a interferência. No instante em que me aborreci percebi que a Gorda estava mexendo a minha cabeça de um lado para outro, atrás de mim. Em coisa de segundos a concentração de minha contemplação foi completamente dissipada.

A Gorda riu-se e disse que compreendia por que eu tinha dado tantas preocupações ao Nagual. Ela tinha visto com seus próprios olhos que eu me entregava além dos limites. Sentou-se encostada ao poste ao meu lado e disse que ela e as irmãzinhas iam contemplar o lugar de poder do Nagual. Depois deu um pio de pássaro penetrante. Um momento depois as irmãzinhas saíram da casa e sentaram se para contemplar com ela. A perícia contemplativa delas era óbvia. Seus corpos tomavam uma estranha rigidez. Não pareciam estar respirando de todo. Sua imobilidade era tão contagiosa que eu me pilhei fechando a meio os olhos e olhando fixamente para os morros.

Contemplar fora uma verdadeira revelação para mim. Ao executar aquilo eu corroborara alguns pontos importantes nos ensinamentos de Dom Juan. A Gorda tinha delineado a tarefa de maneira vaga. “Fazer um zoom naquilo” era mais uma ordem do que uma descrição, desde que tivesse sido cumprido um requisito essencial; Dom Juan chamara esse requisito de parar o diálogo interno. Pelo que a Gorda me falou sobre a contemplação era óbvio para mim que o efeito que Dom Juan buscava, fazendo-as contemplar, era ensinar-lhes a pararem o diálogo interno, A Gorda tinha exprimido aquilo como “aquietar os pensamentos”. Dom Juan me ensinara a fazer aquilo mesmo, embora me fizesse seguir o caminho oposto; em vez de me ensinar a focalizar a minha vista, como faziam os contempladores, ele me ensinou a abri-la, a inundar a minha consciência não focalizando a minha vista sobre nada. Eu tinha mais ou menos de sentir com os olhos tudo no âmbito de 180 graus na minha frente, enquanto eu tinha meus olhos não focalizados logo acima da linha do horizonte.

Contemplar era muito difícil para mim, porque significava inverter meu treinamento. Quando eu tentava contemplar, a minha tendência era a de me abrir. Mas o esforço para controlar essa tendência me fazia fechar os meus pensamentos. Depois que eu desligava o meu diálogo interno, não era difícil contemplar como a Gorda determinara.

Dom Juan declarara várias vezes que o fato essencial na Feitiçaria dele era desligar o diálogo interno. Nos termos da explicação que a Gorda me dera sobre os dois reinos da atenção, parar o diálogo interno era uma maneira operacional de descrever o ato de desligar a atenção do tonal. Dom Juan também dissera que, uma vez que paramos o nosso diálogo interno, também paramos o mundo. Isso era uma descrição operacional do processo inconcebível de focalizar a nossa segunda atenção. Ele dissera que uma parte de nos sempre é guardada sob chave porque a tememos, e que, para a nossa razão, essa parte de nós é como um parente louco que mantemos trancado numa masmorra. Essa parte era, nos termos da Gorda, a nossa segunda atenção, e quando ela finalmente conseguia focalizar-se em alguma coisa, o mundo parava. Como nós, como homens comuns, só conhecemos a atenção do tonal, não é muito rebuscado dizer que desde que essa atenção for cancelada, o mundo tem realmente de parar. Focalizar a nossa segunda atenção louca e não treinada tem forçosamente de ser uma coisa apavorante. Dom Juan tinha razão ao dizer que o único meio de impedir que o parente louco se forçasse sobre nós era escudando-nos com o nosso eterno diálogo interno.

A Gorda e as irmãzinhas levantaram-se depois de uns trinta minutos de contemplação. A Gorda fez um sinal com a cabeça para eu acompanhá-las. Elas foram para a cozinha. A Gorda indicou que eu me sentasse no banco. Disse que ia para a estrada, encontrar-se com os Genaros e levá-los para lá. Saiu pela porta da frente.

As irmãzinhas sentaram-se em volta de mim. Lídia ofereceu-se para responder a qualquer coisa que eu quisesse perguntar. Pedi que ela me falasse sobre a contemplação do lugar de poder de Dom Juan, mas ela não me compreendeu.

— Sou contempladora da distância e das sombras — disse ela. — Depois que me tomei contempladora o Nagual me fez recomeçar tudo e dessa vez tive de contemplar as sombras das folhas e plantas e árvores e pedras. Agora nunca olho mais para as coisas; só olho para as sombras delas. Mesmo que não haja luz nenhuma, há sombras; mesmo de noite há sombras. Como sou contempladora das sombras também sou contempladora da distância. Posso contemplar as sombras mesmo a distância.

As sombras da manhãzinha não revelam muita coisa. Nessa hora as sombras repousam. Portanto, é inútil contemplar muito cedo no dia. Por volta das seis da mana as sombras despertam, e são melhores lá pelas cinco da tarde. Aí estão bem despertas.

— O que é que as sombras lhe contam?

— Tudo o que quero saber. Contam-me coisas porque contêm calor, ou frio, ou porque se movem ou porque têm cores. Ainda não sei todas as coisas que significam as cores e o calor e o frio. O Nagual deixou que eu aprendesse sozinha,

— Como é que você aprende?

— No meu sonhar. Os sonhadores têm de contemplar para poderem sonhar e depois têm de procurar os sonhos na contemplação. Por exemplo, o Nagual me fez contemplar as sombras das pedras, e depois no meu sonhar descobri que essas sombras têm luz, de modo que procurei a luz nas sombras, desde então, até encontrá-la. Contemplar e sonhar vão juntos. Levei muito tempo contemplando as sombras para poder conseguir o meu sonhar de sombras. E depois foi preciso muito sonhar e contemplar para conseguir juntar os dois e realmente ver nas sombras o que estava vendo em meu sonhar. Entende o que quero dizer? Todos nós fazemos o mesmo. O sonhar de Rosa é sobre as árvores porque ela é contempladora de árvores e o de Josefina é sobre as nuvens porque é contempladora de nuvens. Elas contemplam as árvores e nuvens até combinarem seu sonhar. Rosa e Josefina fizeram gestos de concordância com a cabeça.

— E a Gorda? — perguntei.

— Ela é contempladora de pulgas — disse Rosa, e todas riram.

— A Gorda não gosta de ser mordida por pulgas — explicou Lídia. — Ela não tem forma e pode contemplar qualquer coisa, mas antes era contempladora da chuva.

— E Pablito?

— Ele contempla as virilhas das mulheres — respondeu Rosa, bem séria.

Elas riram. Rosa me deu um tapa nas costas.

— Parece que, como ele é seu companheiro, saiu a você — disse ela. Elas bateram na mesa e sacudiram os bancos com os pés, enquanto davam boas gargalhadas.

— Pablito é contemplador de pedras — disse Lídia, — Nestor é contemplador de chuva e das plantas e Benigno ê contemplador da distância, Mas não me faça mais perguntas porque perderei o meu poder se lhe contar mais.

— Como é que a Gorda me conta tudo?

— A Gorda perdeu a forma — respondeu Lídia. — Quando eu perder a minha também lhe contarei tudo, Mas a essa altura você não há de querer saber. Você só quer porque é burro como nós. No dia em que perdermos a nossa forma todos nós vamos deixar de ser burros.”

(O Segundo Círculo do Poder, Carlos Castañeda)

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