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A tristeza para os feiticeiros e o grande palhaço Garrick

“…A tristeza, para os feiticeiros, não é algo pessoal. Não é propriamente tristeza. É uma onda de energia que vem das profundezas do cosmos, e atinge os feiticeiros quando eles estão receptivos, quando eles são como rádios, capazes de captar as ondas de rádio.

Os feiticeiros dos velhos tempos, aqueles que nos deram o plano geral da feitiçaria, acreditavam que a tristeza que existe no universo é como uma força, como uma condição, como uma luz, como o intento, e que essa força perene age especialmente sobre os feiticeiros porque eles não mais possuem escudos protetores, defensivos. Eles não são capazes de se esconderem atrás de seus amigos, de seus estudos. Eles não podem se esconder atrás do amor, ou do ódio, ou da felicidade, ou da miséria. Eles não podem se esconder atrás de nada.

A condição dos feiticeiros, continuou Don Juan, é que a tristeza, para eles, é abstrata. Ela não é fruto da cobiça ou da falta de alguma coisa, ou fruto da auto importância. Não é fruto do “eu”. Ela vem do infinito. A tristeza que você sente por não ter agradecido seu amigo já está pendendo para essa direção.

– Meu professor, o nagual Julian, continuou ele, – era um ator fabuloso. Ele realmente trabalhou profissionalmente no teatro. Ele tinha uma história favorita que contava em suas apresentações teatrais. Ele usava colocar-me em situações de terrível angústia com ela. Dizia que aquela era uma história para os guerreiros que possuíam tudo e ainda assim sentiam a agulhada da tristeza universal. Eu sempre pensava que ele estivesse contando aquilo para mim, pessoalmente.

Don Juan então parafraseou seu professor, dizendo-me que a história referia-se a um homem que sofria uma profunda melancolia. Ele consultou os melhores médicos de sua época e cada um deles fracassou em tentar ajudá-lo. Ele finalmente foi ao consultório de um médico eminente, um curador de almas. O médico sugeriu que seu paciente talvez pudesse encontrar um consolo, e o fim de sua melancolia, no amor. O homem respondeu que o amor não era problema para ele, e que ele talvez fosse a pessoa mais amada em todo o mundo. A sugestão seguinte do médico foi que ele, talvez, devesse viajar para conhecer outras partes do mundo. O homem respondeu que, sem exagero nenhum, esteve em todos os lugares do mundo. O médico recomendou “hobbies‘ como artes, esportes, etc. O homem respondeu cada sugestão do médico com as mesmas palavras: tinha feito tudo aquilo e não encontrara alívio. O médico suspeitou que o homem talvez fosse um mentiroso incurável. Ele não poderia ter feito todas aquelas coisas, como afirmava. Mas sendo um bom curador, o médico teve um insight final.

Ah! Exclamou ele. -Tenho a solução perfeita para você, senhor. Você deve assistir ao espetáculo do maior comediante da atualidade. Ele irá deliciar você de tal maneira que você irá esquecer cada pedacinho de sua melancolia. Você deve assistir ao espetáculo de “O Grande Garrick!”.

Don Juan disse que o homem olhou para o médico com a expressão mais triste que possa ser imaginada, e disse:

– Doutor, se essa é a sua recomendação, eu estou perdido. Não tenho cura. Eu sou “O Grande Garrick”

(O Lado Ativo do Infinito, Carlos Castañeda)

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