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O Ponto de Ruptura: a morte da pessoa

“-Como já lhe contei antes e muitas vezes – dom Juan disse, interrompendo meus pensamentos- todos os feiticeiros que conheço, homens e mulheres, mais cedo ou mais tarde, chegam ao ponto de ruptura de suas vidas.

– Quer dizer que eles sofrem de um esgotamento nervoso ou algo parecido?- perguntei.

– Não, não – disse ele rindo – Esgotamentos nervosos são para pessoas condescendentes com elas mesmas. Os feiticeiros já não são pessoas, se me faço entender. O que quero dizer é que em um dado momento a continuidade de suas vidas tem de se quebrar para que o silêncio interior comece a se tornar parte ativa de suas estruturas de ser.
É muito, muito importante- dom Juan enfatizou – que você mesmo deliberadamente chegue a esse ponto de ruptura, ou que você o crie artificial e inteligentemente”.

– O que você quer dizer com isso dom Juan? – perguntei preso ao seu intrigante raciocínio.

– O seu ponto-de-ruptura – disse ele – é interromper a sua vida como você a conhece. Você providenciou tudo o que eu lhe disse, obediente e metodicamente. Se você é talentoso, nunca o demonstra. Esse parece ser seu estilo. Você não é lento, mas age como se fosse. Você é bem seguro de si, mas age como se fosse vacilante. Você não é tímido, mas, apesar disso, age como se tivesse medo das pessoas. Tudo em você aponta para um único ponto: sua necessidade de quebrar tudo de uma vez só, sem piedade.

– Mas de que maneira, dom Juan? O que você tem em mente- perguntei, já de modo frenético.

– Tudo se reduz a um ato – disse ele- Você deve cortar relações com seus amigos. Deve dizer adeus a eles, para sempre. Não é possível você continuar no caminho do Conhecimento dos Guerreiros levando a bagagem de sua história pessoal, e, a não ser que você interrompa seu modo de viver, não serei capaz de continuar com minhas instruções e nossos encontros.

– Ora, ora, dom Juan! – eu exclamei – preciso bater o pé. Você está me pedindo muito. Pra ser franco, não acho que possa fazer isso. Meus amigos são a minha família, são meus pontos de referência.

– Exatamente, exatamente. – observou ele – São seus pontos de referência e apoio. Portanto, deve deixá-los. Os feiticeiros só tem um ponto de referência: o Infinito.

(…)

– Um feiticeiro usa um lugar desolado e isolado no seu mundo para morrer – disse ele me olhando fixamente sem pestanejar- Você nunca esteve só na sua vida.

Chegou a hora de ficar só. Você permanecerá num lugar desses, sem contato externo, exceto com estranhos pra questões práticas, como alimentação.

Seu pedido me deu medo, mas me fez rir.

– Não que eu vá fazê-lo, dom Juan, – disse eu -, mas qual será o critério para saber que estou morto? A não ser que você realmente queira que eu morra no duro.

– Não- disse ele – Não quero que você morra e vá pra cova. Quero sim que sua pessoa morra. As duas coisas são muito diferentes. Em essência, a sua pessoa tem muito pouco a ver com seu corpo. Sua pessoa é sua mente, e, acredite-me, a sua mente não é bem sua…

– Que tolice é essa, dom Juan, que a minha mente não é minha? – ouvi a mim mesmo perguntando nervosamente.

– Falaremos nisso outro dia- disse ele, – mas não enquanto você estiver amparado pelos seus amigos.
O critério que indica que um feiticeiro está morto é quando não faz diferença para ele se tem companhia ou se está só. O dia em que não mais almejar a companhia de seus amigos e íntimos, que você utiliza como escudo contra o infinito, nesse dia a sua pessoa morre. O que me diz? Você está pronto?

– Não consigo, dom Juan, eu disse, é inútil tentar mentir pra você. Não posso deixar meus amigos.

– Perfeitamente claro – disse ele imperturbável, pois a minha afirmação pareceu não perturbá-lo em nada. – Não serei capaz de falar mais contigo, mas vamos dizer que no tempo em que passamos juntos você aprendeu muita coisa. Aprendeu coisas que vão torná-lo mais forte, independentemente de você voltar ou de se perder mais adiante.

Bateu nas minhas costas e me disse adeus. Virou-se e simplesmente desapareceu entre as pessoas na praça, como se tivesse se fundido à elas. Por um instante tive a sensação estranha de que as pessoas na praça fossem como uma cortina que dom Juan abrira e desaparecera por trás. O fim chegara rápido e imprevisível. De repente, isso estava sobre mim, eu estava no meio dessa angústia e nem mesmo sabia como tinha afinal entrado nela!”

(O Lado Ativo do Infinito, Carlos Castañeda)

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