Hoje estou em Minas, na Mantiqueira.

O grupo ao qual sou ligado se reúne esta noite para um rito de comemoração.

*Coincidentemente” melhor dizendo, sincronicamente, este dia tão especial à linhagem xamânica a qual sou ligado cai numa lua nova, no dia 9 do 9 de 99.

Dentro do calendário que trabalhamos a data tem outra marcação, mas é interessante a sincronicidade.

Hoje lembramos a primeira grande migração de nossos antepassados espirituais, quando forçados pelo ataque do povo que a história chama de Astecas , tiveram que fugir de suas cidades mágicas onde hoje está o México.

Sim, cidades mágicas, de um tempo onde a barreira entre os mundos não era tão forte, onde sabíamos fazer parte de um grande todo, com muitas facetas, mas um Todo em essência.

Era a primeira grande migração.

Deixavam as terras onde as cinzas de seus antepassados se misturavam ao solo, onde o sentimento dos avós ainda cantava com os pássaros.

Os clãs que fugiam sabiam que estavam começando uma nova fase de sua existência e que competia a eles não permitir que os milhares de anos de conhecimento acumulado se perdessem.

Hoje, tantas voltas ao redor do sol depois cá estou, eu, nascido da civilização dos conquistadores, renascido como um membro espiritual de um destes clãs, relatando que o sonho destes homens e mulheres não foi perdido.

Graças a sua coragem e determinação o saber daquele antigo povo não se perdeu e a alegria que ouço pela casa, alegria plena real, onde meus companheiros e companheiras estão hospedados revela que mantemos acesa a chama da liberdade que nos foi confiada.

Os mais jovens tem 16 anos, os mais velhos mais de 90 e todos juntos somos uma grande familia, dando continuidade a esta corrente através do tempo e do espaço, desafiando com nossa existência a arrogância dos que através dos tempos tentaram eclipsar o sol da sabedoria .

Agora que sento à varanda, com meu “micro” à frente, após os ritos da noite sinto minha alma vibrar em alegria.

Após longa estiagem, mais de 50 dias sem chuva, esta noite caiu a primeira chuva de tempestade.

Estávamos na sauna sagrada, construída para tais ritos e ao ouvir os trovões e a chuva caindo nos sentimos felizes junto com a natureza ressequida que recebia avidamente a umidade benfazeja.

Enquanto tocávamos nossos tambores os céus tocavam os deles, o vento soprava e o irmão raio revelava seu brilho na noite tempestuosa.

A energia pura, forte, plena, da mãe natureza em todo o seu esplendor. Cantamos e dançamos até o amanhecer, sentindo o trovão e o raio, a chuva e o vento, não adorando como os tolos que nada conhecem dizem ser um rito xamânico, mas nos harmonizando, celebrando a vida , em cada célula de nossos corpos, cheias de alegria pela vida.

Alegria esta que está ausente desta civilização, que tem no pecado, no medo e na tristeza suas forças motrizes.

Assim está o mundo, seco, em prolongada estiagem espiritual, tomando a água salobra das religiões dogmáticas e separatistas por não ter acesso a fresca e pura água da vida.

Um de nossos líderes, ao assistir certa vez a corrida levando a tocha olímpica nos comparou a tais corredores.

Levamos uma chama antiga conosco e quando chegar o tempo ela poderá ascender novamente a grande pira de onde poderá irradiar e trazer de volta a verdadeira história do povo natural, obliterada pela mentira tida por história oficial, que chama essa invasão de descobrimento, genocídio e destruição da cultura de um povo ancestral de progresso.

Hoje comemoramos a memória de todos aqueles homens e mulheres que morreram sob a vil ação destes conquistadores de tantas épocas que por ação ou omissão estão levando nosso mundo, este ser vivo que tanto amamos a uma crise sem precedentes, onde toda a vida está ameaçada de fato.

Anestesiados, entorpecidos por ópios religiosos e políticos os seres humanos entregam o dom da vida para serem extensões biológicas de máquinas e sistemas de dominação.

Falam e fazem discursos, mas seus atos, suas vidas, negam seus discursos pomposos, destinados a alimentar a vaidade e a arrogância .

Nós da Tribo do Arco Íris, movimento internacional que congrega herdeiros espirituais de vários povos naturais continuamos perplexos com esta anulação da vida, trocada pela sobrevivência.

Neste dia que relembramos as várias migrações de nossos antepassados espirituais, fugindo da tirania, procurando salvar sua herança cultural compartilhamos nosso sentimento com outros povos, como os tibetanos, os índios de Chiapas e os nativos de todos os continentes que ainda tem sua vida e cultura ameaçada por estes pretensos donos do mundo que arrastam todos em suas imbecis disputas de poder.

Hoje nos lembramos daqueles que em cascas de árvores, usando pelos de javalis escreveram a sabedoria em signos.

Os livros foram queimados pela praga chamada clero cristão, os sacerdotes guardiães mortos em fogo e tortura, mas os homens e mulheres que escreveram tais livros descansam sob a sombra da árvore eixo do mundo, tomam chocolate e sorriem.

Pois sabem que a tradição não foi destruída, que nas danças e cantos de tantos povos o conhecimento ainda está e , secretamente, de boca para ouvido, geração após geração, o saber foi transmitido e enriquecido.

Eu, Nuvem que passa, conto e partilho o que me foi pedido pelos anciões e anciãs de meu povo, conto o que me foi contado pelas mulheres tecelãs de sonhos.

A Era da Dominação está acabando, por isso eles tentam fazer parecer que o caos é tão grande, por isso geram tanto desequilíbrio.

Os governos e autoridades estabelecidas apenas geram desequilíbrio para nos confundir, para que não percebamos que a era dos senhores de gelo e seus grilhões está no fim.

Não temos que lutar, não temos que sacrificar nossas vidas ou vidas que servem aos dominadores por terem sido por eles obliteradas.

O sol está voltando, ele derreterá este poder de gelo naturalmente.

É isto que temem esses senhores da guerra e da destruição.

O calor de nossa felicidade, mortal a eles e a seus esquemas de dominação.

A mulher búfalo branco, o menino do pólen, a serpente emplumada, estes e tantos outro seres míticos continuam na plenitude de seu poder aguardando apenas a ousadia de cada um de nós, em mudarmos nossos paradigmas existenciais e passarmos a, em atos e palavras, agir como verdadeiros seres de uma nova era.

Há séculos neste pais os conquistadores chegaram. Derrubaram árvores para construir cruzes.

Mataram a vida para adorar o simbolo da morte.

No equinócio de outono deste ano em rito na cidade das pedras nossa linhagem sentiu que era chegado o fim do tempo do deus morto.

Ao ritualizarmos um sinal foi pedido .

A vida retornava com toda sua força.

O fato é que uma semana depois, as duas grandes cruzes localizadas nos pontos mais altos da cidade foram destruídas completamente por raios.

Sim, as duas, em uma mesma semana.

Para nós, herdeiros do paganismo, este foi um sinal poderoso e claro.

O símbolo dos conquistadores caia na terra que para nós é mágica.

Há uma antiga batalha em curso: Vida versus destruição, consciência versus inconsciência, liberdade versus tirania.

Esta batalha é travada diariamente por cada ser humano e a cada ato declaramos na prática de que lado estamos.

Neste dia que comemoramos a primeira grande migração de nossos antepassados espirituais, fugindo da tirania queremos compartilhar com os homens e mulheres vivos de fato e não apenas robôs sobreviventes, a certeza que continuamos o elo, ele não foi rompido.

A luta não terminou, talvez ainda muitas gerações se passem sob o jugo destes tiranos que dominam o mundo.

Mas o fato de que em impulsos elétricos, em O e 1 , em um mundo virtual, podermos partilhar estas realidades nos enche de esperança quanto ao futuro de nossas crianças.

Que o dia de hoje seja pleno a cada um de vocês e que possamos juntos construir um novo mundo, onde seja possível fundir o saber das idades com nosso momento cultural e dessa síntese surja uma nova civilização, que respeite a vida em todas as suas formas e na qual jamais um ser humano trate o outro como objeto.

Este é nosso sonho, sonhado há gerações sem fim.

Esta a certeza acalentada em nossos corações.

Esta a batalha a qual nos dedicamos incansavelmente.

Batalha que precisa ser antes de mais nada resolvida no interior de cada um, pois só seres livres e despertos podem de fato auxiliar a liberdade e a consciência.

Que a memória de nossos antepassados espirituais não seja perdida.

Que seja honrada por atos claros e firmes na diração de nosso despertar e, consequentemente, de um mundo melhor.

Paz Profunda!!

— Nuvem Que Passa

(Compartilhado por Uni Khazar)

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