“Não há meio de se chegar à explicação dos feiticeiros a não ser que se tenha usado o nagual de boa vontade, ou melhor, a não ser que se tenha usado de boa vontade o tonal para fazer nossos atos terem sentido no nagual. Outro meio de esclarecer tudo isso é dizer que a visão do tonal deve prevalecer se se pretende utilizar o nagual do modo como o utilizam os feiticeiros.
(…)
A ordem em nossa percepção é do reino exclusivo do tonal; somente ali podem os atos ter uma sequência; somente ali são eles como escadas cujos degraus podem ser contados. Não há nada disso com o nagual. Portanto, a visão do tonal é um instrumento, e como tal é não somente o melhor instrumento, mas o único que temos.

Ontem à noite a sua bolha de percepção abriu-se e suas asas estenderam-se. Nada mais há para dizer a respeito. É impossível explicar o que lhe aconteceu, portanto não vou tentá-lo, e nem você tampouco deve tentar fazê-lo. Devia bastar dizer que as asas de sua percepção foram feitas para tocar sua totalidade. Ontem à noite você foi do nagual ao tonal, para lá e para cá uma porção de vezes. Foi lançado duas vezes, de modo a não deixar possibilidade de erro. Da segunda vez você experimentou o impacto pleno da viagem ao desconhecido. E a sua percepção estendeu suas asas quando algo em você percebeu sua verdadeira natureza. Você é um aglomerado. Esta é a explicação dos feiticeiros. O nagual é indescritível. Todos os sentimentos e seres e eus possíveis flutuam nele como barcaças, pacatas, inalteradas, para sempre. Aí a cola da vida liga algumas delas. Você mesmo descobriu isso ontem à noite, e Pablito também, e Genaro também, da vez que ele viajou para o desconhecido, e eu também. Quando a cola da vida junta esses sentimentos, um ser é criado, um ser que perde o senso de sua verdadeira natureza e fica ofuscado pela claridade e barulho da zona onde as coisas pairam, o tonal. O tonal é onde existe toda a organização unificada. Um ser entra no tonal uma vez que a força vital juntou todos os sentimentos necessários. Eu lhe disse uma vez que o tonal começa no nascimento e termina na morte; disse isso porque sei que assim que a força vital deixa o corpo todas essas consciências isoladas se desintegram e voltam para o lugar de onde vieram, o nagual. O que o guerreiro faz viajando para o desconhecido é muito parecido com morrer, a não ser que seu aglomerado de sentimentos isolados não se desintegra, e sim expande-se, sem perder a união. Na morte, porém, eles mergulham profundamente e se movem independentemente, como se nunca tivessem formado uma unidade.

Eu queria dizer-lhe que suas explicações correspondiam à minha experiência. Mas ele não me deixou falar.

– Não há meio de nos referirmos ao desconhecido – disse ele. – Só podemos presenciá-lo. A explicação dos feiticeiros diz que cada um de nós tem um centro do qual se pode presenciar o nagual, que é a vontade. Assim, um guerreiro pode aventurar-se no nagual e deixar que seu aglomerado se arrume e rearrume da maneira que for possível. Já lhe disse que a expressão do nagual é um assunto pessoal. Quis dizer que cabe ao próprio guerreiro individual dirigir a arrumação e rearrumações daquele aglomerado. A forma humana ou o sentimento humano é o original, talvez seja a forma mais doce de todas para nós; no entanto, existe um número incontável de formas alternativas que o aglomerado pode adotar. Já lhe disse que um feiticeiro pode adotar qualquer forma que quiser. Isso é verdade. Um feiticeiro que tenha a posse da totalidade de si mesmo pode dirigir as partes de seu conglomerado para se unirem de qualquer maneira concebível. A força vital é o que torna possível toda essa embaralhada. Uma vez exaurida a força vital, não há mais meio de se reunir esse aglomerado. Chamei esse aglomerado de bolha da percepção. Também disse que ela está selada, hermeticamente fechada, e que nunca se abre até o momento de nossa morte. No entanto, poderia ser forçada a abrir-se. Os feiticeiros obviamente aprenderam esse segredo e, embora nem todos cheguem à totalidade de seus seres, sabem a respeito dessa possibilidade. Sabem que a bolha se abre somente quando se mergulha no nagual.”

(Porta para o Infinito, Carlos Castañeda)

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