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Sentindo as linhas energéticas

“Enquanto eu tentava encontrar falhas em seu raciocínio, Clara arrancou-me de minhas especulações mentais com um tapinha em minhas costelas. Disse que ia me mostrar outro exercício para interromper pensamentos e sentir as linhas energéticas. Caso contrário, eu continuaria fazendo o que sempre fizera: deixar-me enfeitiçar pela idéia de mim mesma.

Clara pediu-me para sentar de pernas cruzadas e inclinar-me para o lado ao inspirar, primeiro para o lado direito, depois para o esquerdo, e sentir como eu estava sendo puxada por uma linha horizontal que saía da abertura de minhas orelhas

Explicou que, curiosamente, a linha não oscilava com o movimento do corpo, mas permanecia perfeitamente horizontal, e que este era um dos mistérios descobertos por ela e seus companheiros. — Inclinar-se desta maneira — explicou ela — movimenta nossa consciência para o lado, ela que normalmente está sempre direcionada para a frente.

Ordenou que eu relaxasse os músculos da mandíbula, mastigando e engolindo saliva por três vezes.

— Para que serve isto? — perguntei, engolindo com esforço.

— Mastigar e engolir leva uma parte da energia alojada na cabeça para o estômago, reduzindo a carga do cérebro explicou com uma risadinha.

— Em seu caso, você deve realizar esse exercício com freqüência.

Eu queria me levantar e caminhar, pois minhas pernas estavam ficando dormentes, mas Clara exigiu que eu permanecesse sentada por mais algum tempo e praticasse o exercício.

Inclinei-me para os dois lados, fazendo todo o possível para sentir aquela linha horizontal indefinível, mas foi inútil. Contudo, consegui interromper a habitual avalanche de meus pensamentos. Uma hora deve ter-se passado, durante a qual permaneci sentada em completo silêncio, sem pensar nada. À nossa volta, eu podia ouvir o cricri dos grilos e o farfalhar das folhas, mas nenhuma voz foi trazida pela brisa. Por um momento ouvi os latidos de Manfred, provenientes de sua casinha ao lado da casa. Então, como se impelida por uma ordem inaudível, os pensamentos voltaram para minha mente. Tomei consciência de sua completa ausência e de como o silêncio fora total e pleno de paz.

Os movimentos de meu corpo inquieto devem ter servido de sinal para Clara, pois ela voltou a falar.

— A voz do espírito não provém de parte alguma — continuou. — Ela provém das profundezas do silêncio, da esfera do não-ser. Esta voz só pode ser ouvida quando estamos absolutamente silenciosos e equilibrados.

Explicou que as duas forças contrárias que nos movem, masculino e feminino, positivo e negativo, luz e trevas, precisam ser mantidas em equilíbrio para que seja criada uma abertura na energia que nos envolve; uma abertura através da qual nossa consciência possa esgueirar-se. Através dessa abertura na energia que nos cerca o espírito pode manifestar se.

— Nós estamos em busca do equilíbrio — prosseguiu. — Mas equilíbrio não significa apenas uma porção igual de cada força. Significa também que, à medida que as porções são igualadas, a nova combinação harmoniosa ganha impulso e começa a movimentar-se por si mesma.”

(A Travessia das Feiticeiras, Taisha Abelar)

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