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O amor pela Terra: a predileção de um guerreiro

“Ele se dirigiu a mim em particular e disse que uma vez eu lhe dissera que a vida de um guerreiro era fria e solitária e sem sentimentos. Acrescentou que até aquele momento preciso eu estava convencido de que era assim.
– A vida de um guerreiro não pode ser fria e solitária e sem sentimentos – disse ele – porque é baseada na afeição, na dedicação e na lealdade a seus queridos. E quem, você pode perguntar, é o seu querido? Vou mostrar-lhe agora.
Dom Genaro levantou-se e andou devagar para um lugar completamente plano diante de nós, a uns três metros de distância. Ali fez um gesto estranho. Mexeu as mãos como se estivesse espanando terra do peito para a barriga. Aí aconteceu uma coisa esquisita. Um lampejo de luz quase imperceptível atravessou-o; vinha do chão e pareceu acender todo o corpo dele. Fez como que uma pirueta, ou melhor, um mergulho para trás e caiu sobre o peito e os braços. Seu movimento fora executado com tal precisão e perícia que ele parecia um ser sem peso, uma criatura como um verme, que dera uma volta sobre si. Quando estava no chão, executou uma série de movimentos do outro mundo. Deslizou alguns centímetros acima do solo, ou rolou sobre ele como se estivesse deitado sobre rolamentos; ou nadou descrevendo círculos e voltando com a rapidez e agilidade de uma enguia no mar.
Meus olhos começaram a envesgar em certo momento e aí, sem qualquer transição, eu estava vendo uma bola de luminosidade deslizando de um lado para o outro sobre algo que parecia ser o chão de um rinque de patinação no gelo com mil luzes brilhando sobre ele.
O espetáculo era sublime. Aí a bola de fogo parou e ficou imóvel. Uma voz sacudiu-me e distraiu minha atenção. Era Dom Juan falando. A princípio não entendi o que ele estava dizendo. Tornei a olhar para a bola de fogo; distingui Dom Genaro deitado no chão com os braços e as pernas estirados.
A voz de Don Juan era muito clara. Pareceu engatilhar alguma coisa em mim e comecei a escrever.
– O amor de Genaro é o mundo – disse ele. – Agora mesmo ele estava abraçando esta terra enorme, mas, como ele é tão pequeno, o mais que pode fazer é nadar nela. Mas a terra sabe que Genaro a ama e dedica-lhe seus cuidados. É por isso que a vida de Genaro é cheia até a borda e seu estado, esteja onde estiver, será de fartura. Genaro percorre os caminhos de seu amor e, onde quer que esteja, é completo.
Dom Juan estava agachado em nossa frente. Ele afagava a terra, com delicadeza.
– Esta é a predileção de dois guerreiros – disse ele. – Esta terra, este mundo. Para um guerreiro, não pode haver amor maior.
Dom Genaro levantou-se e agachou-se ao lado de Dom Juan um momento, enquanto os dois nos olhavam fixamente, e depois, ao mesmo tempo, sentaram-se de pernas cruzadas.
– Somente se a pessoa ama esta terra com uma paixão constante é que pode deixar sua tristeza – disse Don Juan. – Um guerreiro é sempre alegre porque seu amor é inalterável e sua amada, a terra, o abraça e lhe concede dádivas inconcebíveis. A tristeza pertence apenas àqueles que detestam aquilo mesmo que abriga seus seres.
Dom Juan afagou a terra com carinho.
– Este lindo ser, que é vivo até suas profundezas e compreende todos os sentimentos, aliviou-me, curou-me de minhas dores e por fim, quando finalmente compreendi o meu amor por ela, ensinou-me a liberdade.
Ele parou. O silêncio em volta de nós era assustador. O vento soprava suavemente e aí ouvi o latido distante de um cão solitário.
– Escute esse latido – continuou Dom Juan. – É assim que a minha amada terra me está ajudando agora a mostrar-lhe esse último ponto. Esse latido é a coisa mais triste que se pode ouvir.
Ficamos calados um momento. O latido daquele cão solitário era tão triste e a quietude em volta de nós tão intensa que senti uma angústia entorpecente. Aquilo me fez pensar em minha própria vida, minha tristeza, o meu não-saber para onde ir, o que fazer.
– O latido daquele cão é a voz noturna do homem – disse Don Juan. – Vem de uma casa naquele vale para o sul. Um homem está gritando por intermédio de seu cão, pois são escravos companheiros de toda vida, sua tristeza, seu tédio. Ele está implorando à morte que vá libertá-lo das correntes cacetes e feias de sua vida.
Dom Juan com suas palavras tocara num ponto que me perturbava muito. Senti que ele estava falando diretamente para mim.
– Aquele latido e a solidão que ele provoca falam dos sentimentos dos homens – continuou ele. – Homens para quem uma vida inteira foi como uma tarde de domingo, uma tarde que não foi de todo desgraçada, mas meio quente e incômoda e vazia. Eles suaram e se afligiram muito. Não sabiam para onde ir, nem o que fazer. Aquela tarde deixou-os apenas com a recordação de aborrecimentos mesquinhos e tédio, e depois de repente passou; já era noite.
Repetiu uma história que eu lhe contara uma vez sobre um homem de setenta e dois anos que reclamava porque sua vida fora tão curta que lhe parecia que ainda na véspera ele era menino. O homem me dissera: “Lembro-me do pijama que eu usava quando tinha dez anos Parece que só se passou um dia. Aonde foi o tempo?”
– O antídoto que mata esse veneno está aqui – disse Dom Juan, afagando a terra. – A explicação dos feiticeiros não pode de todo libertar o espírito. Vocês dois, por exemplo, alcançaram a explicação dos feiticeiros, mas não faz diferença que vocês a conheçam. Estão mais sozinhos do que nunca, porque, sem um amor constante pelo ser que lhes dá abrigo, estar sozinho é a solidão. Somente o amor por este ser esplendoroso pode dar a liberdade ao espírito do guerreiro; e a liberdade é alegria, eficiência, e renúncia diante de qualquer dificuldade. Esta é a última lição. Fica sempre para o último momento, o momento de solidão final em que o homem enfrenta sua morte e solidão. Só então é que faz sentido.”

(Porta para o Infinito, Carlos Castañeda)

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