‘Silvio Manuel veio em seguida falar comigo; estava preocupado com coisas práticas. Deu-me uma fórmula, uma mágica para quando minha tarefa fosse maior que a minha força; foi essa mágica que me veio à cabeça na primeira vez em que me lembrei da mulher nagual.

“Já me dei ao poder que rege meu destino.
E não me prendo a nada para não ter nada a defender.
Não tenho pensamentos, por isso verei.
Não receio nada, por isso me lembrarei de mim mesmo.
Desprendido e à vontade,
passarei como um jato pela águia para me tornar livre”

Disse-me que ia me revelar uma manobra prática da segunda atenção, e logo depois transformou-se num ovo luminoso. Voltou à sua aparência normal e repetiu sua transformação mais umas três ou quatro vezes. Compreendi perfeitamente bem o que ele estava fazendo. Ele não teve de me explicar, mas mesmo assim não consegui pôr em palavras o que sabia.

Silvio Manuel sorriu entendendo meu problema. Disse que era necessária uma força enorme para desprender a intenção do primeiro anel de poder. O segredo que ele me revelara era como apressar o desprendimento daquela intenção. Para fazer o que ele tinha feito, deve se colocar a atenção na casca luminosa.

Transformou-se mais uma vez em ovo luminoso e então tornou-se evidente para mim o que eu já sabia o tempo todo. Os olhos de Silvio Manuel viraram-se um instante para focalizar o ponto da segunda atenção. A cabeça ficou,reta como se estivesse olhando para frente; só os olhos ficavam envesgados.

Disse que o guerreiro deve evocar a intenção. O segredo é olhar; são os olhos que acenam para a intenção. Fiquei eufórico naquela hora. Era finalmente capaz de pensar em certa coisa que já conhecia, sem na verdade saber. O ver parece visual porque precisamos dos olhos para focalizar a intenção. Dom Juan e seu grupo de guerreiros sabiam como usar os olhos para captar outro aspecto da intenção, e chamavam a isso ver. Cada ação de ver depende dos olhos, na medida em que os olhos são usados para atrair a intenção. O que Silvio Manuel me mostrara fora a função verdadeira dos olhos, os captadores da intenção.

Eu então usei meus olhos deliberadamente para acenar para intenção. Focalizei os no ponto da segunda atenção. De repente, dom Juan seus guerreiros, dona soledad e eligio tornaram-se ovos luminosos mas não La gorda, as três irmanzinhas e os genaros. Continuei a girar os olhos para um lado e para o outro entre as manhchas de luz e as pessoas, ate ouvir um estalo na base do pescoço, quando todos na sala se tornaram ovos luminosos. Senti por um instante que não os podia diferenciar, mas então meus olhos pareceram se ajustar e percebi dois aspectos de intenção, duas imagens simultâneas. Consegui ver seus corpos físicos e também suas luminosidades. As duas cenas não eram superpostas, mas separadas, e ainda assim eu não podia entender como. Eu tinha definitivamente dois canais de visão, e ver estava ligado aos meus olhos, mas ao mesmo tempo era independente deles. Eu continuava a ver ovos luminosos, mas não os corpos físicos, quando fechava os olhos. Uma certa hora tive uma sensação muito clara de que sabia como mudar minha atenção para minha luminosidade. Também sabia que para retornar ao nível físico tinha apenas de focalizar os meus olhos no corpo.’

(O Presente da Águia, Carlos Castañeda)

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