“Uma das coisas mais sérias que os guerreiros fazem é pesquisar, confirmar e perceber a natureza de sua origem. Os guerreiros devem saber tão precisamente quanto possam se seus pais estavam sexualmente excitados quando eles o conceberam ou se eles estavam meramente cumprindo uma função conjugal. A atividade sexual civilizada é muito monótona para os participantes. Os feiticeiros acreditam, sem resquício de dúvidas, que crianças concebidas nos costumes modernos são produtos de uma muito aborrecida… relação sexual.

Levará anos de luta antes que você admita que seja fruto de sexo aborrecido. Então, vou repetir novamente: se não há excitação no momento da concepção, a criança que nasce de tal união será intrinsecamente, dizem os feiticeiros, da maneira tal como ela foi concebida. Desde que não haja excitação entre os amantes, mas talvez meramente desejo mental, a criança deve arcar com as consequências deste ato. Os feiticeiros asseveram que tais crianças são carentes, fracas, instáveis e dependentes. Essas crianças, dizem os feiticeiros, são as crianças que jamais saem de casa; elas permanecem imóveis na vida. A vantagem de tais seres é que eles são extremamente consistentes em meio a sua fraqueza. Essas crianças poderiam fazer o mesmo trabalho por toda sua vida sem jamais sentir a necessidade de mudança. Caso venha acontecer com que elas tenham um bom exemplo enquanto crianças, elas crescem para ser muito eficientes, mas se elas falham em ter uma boa referência, não haverá fim para sua agonia, agitação e instabilidade.

Os feiticeiros dizem com grande tristeza que uma enorme massa da humanidade foi concebida desta maneira. Este é o motivo pelo qual ouvimos incessantemente sobre a urgência de encontrar alguma coisa que nós não temos. Nós buscamos, durante toda duração de nossas vidas, de acordo com os feiticeiros, por aquela excitação original da qual fomos privados”

(Diário de hermenêutica aplicada, Carlos Castaneda, tradução Felipe Matus)

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