“Em nossos tempos, infelizmente, os videntes têm de ir a extremos para encontrar um pequeno tirano de qualidade. Na maior parte do tempo, devem satisfazer-se com um muito ordinário.”

— E chegou a encontrar um pequeno tirano, Dom Juan?

— Tive sorte. Fui encontrado por um tamanho-família. Nessa época, entretanto, me sentia como você; não conseguia considerar-me afortunado. Disse Dom Juan que seu sofrimento começou poucas semanas antes de conhecer seu benfeitor. Mal tinha vinte anos de idade naquela época. Havia conseguido um trabalho em uma moenda de açúcar como operário. Sempre fora muito forte, de modo que lhe era fácil conseguir trabalhos que requeressem músculos. Um dia, quando estava carregando algumas pesadas sacas de açúcar, uma mulher passou por ele. Estava muito bem vestida e parecia ser uma mulher de posses. Teria uns cinqüenta anos, disse Dom Juan, e aspecto muito dominador.

Olhou para Dom Juan, falou com o feitor e partiu. Dom Juan foi então abordado pelo feitor, que lhe contou que por uns trocados poderia recomendá-lo para um trabalho na casa do patrão. Dom Juan disse ao homem que não tinha dinheiro. O feitor sorriu, e comentou que não se preocupasse, pois teria bastante no dia do pagamento. Bateu nas costas de Dom Juan e assegurou-lhe que era uma grande honra trabalhar para o patrão.

Dom Juan contou que, sendo um índio muito ignorante, vivendo da mão para a boca, não apenas acreditou em cada palavra como pensou que havia sido tocado por uma fada madrinha.

Prometeu pagar ao feitor o que este quisesse. O feitor falou em uma grande soma, que deveria ser paga em parcelas.

Imediatamente a seguir, o feitor em pessoa levou Dom Juan à casa, que ficava a uma boa distância da cidade, e deixou-o lá com outro feitor, um homem grande, sombrio e feio, que lhe fez uma série de perguntas. Queria saber sobre a família de Dom Juan. Dom Juan respondeu que não tinha família. O homem ficou tão satisfeito que até mesmo sorriu com os seus dentes estragados.

Prometeu a Dom Juan que haveriam de pagar-lhe muito, e que ele teria até condições de guardar dinheiro, pois não precisaria gastar nada, já que iria viver e comer na casa.

O modo como o homem ria era terrificante. Dom Juan percebeu que deveria fugir imediatamente. Correu para o portão, mas o sujeito pôs-se à sua frente com um revólver na mão. Engatilhou-o e cutucou Dom Juan no estômago.

— Você está aqui para trabalhar até se acabar. E não se esqueça disso.

— Empurrou Dom Juan, cutucando-o com um bastão. Então levou-o para o lado da casa e, depois de afirmar que fazia seus homens trabalharem todos os dias do amanhecer ao crepúsculo sem nenhuma parada, pôs Dom Juan a trabalhar, escavando dois enormes tocos de árvore. Disse também a Dom Juan que, se alguma vez tentasse escapar ou procurasse as autoridades, ele iria matá-lo, e que se Dom Juan conseguisse algum dia fugir, juraria diante do tribunal que Dom Juan havia tentado assassinar o patrão.

— Você vai trabalhar aqui até morrer — acrescentou. — Então outro índio irá ganhar o seu emprego exatamente como você está tomando o lugar de um índio morto.

Dom Juan contou que a casa parecia uma fortaleza, com homens armados de facão por toda parte; sendo assim, ele se ocupou trabalhando e tentou não pensar em sua condição. Ao final do dia, o homem voltou e chutou-o durante todo o caminho para a cozinha, porque não gostava do olhar desafiante de Dom Juan. Ameaçou cortar os tendões do braço de Dom Juan se ele não obedecesse.

Na cozinha, uma velha trouxe comida, mas Dom Juan estava tão abatido e assustado que não conseguiu comer. A velha aconselhou-o a comer o máximo que pudesse. Tinha que estar forte, disse ela, porque seu trabalho nunca iria terminar. Advertiu-o de que o homem a quem substituía havia morrido justamente um dia antes. Ele estava fraco demais para trabalhar e havia caído de uma janela do segundo andar.

Dom Juan trabalhou na casa do patrão por três semanas, com o homem atormentando-o a todo momento e em todos os dias. Ele o fez trabalhar sob as condições mais perigosas, cumprindo a tarefa mais pesada que se podia imaginar, sob a constante ameaça de faca, revólver ou bastão. Enviava-o diariamente para os estábulos a fim de limpar as baias onde ficavam os nervosos garanhões. Ao começo de cada dia, Dom Juan pensava que esse seria seu último na terra. E sobreviver significava apenas que ele tinha que passar pelo mesmo inferno novamente no dia seguinte. O que precipitou o final foi o pedido de Dom Juan para ter algum tempo livre. O pretexto era de que precisava ir à cidade pagar ao feitor do engenho de açúcar o dinheiro que lhe devia. O outro feitor replicou que Dom Juan não podia parar de trabalhar nem mesmo por um minuto, pois estava em débito até as orelhas apenas pelo privilégio de trabalhar ali.

Dom Juan soube o que o esperava. Compreendeu as manobras do homem. Tanto ele quanto o outro feitor estavam mancomunados para conseguir índios humildes do engenho, fazê-los trabalhar até a morte e dividir seus salários. Essa descoberta enraiveceu-o tão intensamente que correu através da cozinha gritando e entrou na casa principal. O feitor e os outros trabalhadores foram apanhados inteiramente de surpresa. Ele saiu correndo pela porta dianteira e quase conseguiu escapar, mas o feitor alcançou-o na estrada e atirou em seu peito. Deixou-o como morto. Dom Juan disse que não era seu destino morrer; seu benfeitor encontrou-o ali e cuidou dele até que ficasse bom.

— Quando contei a meu benfeitor toda a história — disse Dom Juan — ele mal podia conter sua excitação. “Aquele homem é realmente um prêmio”, disse-me o benfeitor. “Ele é bom demais para ser desperdiçado. Algum dia você precisa voltar àquela casa.”

“Ele exultou com minha sorte em encontrar aquele pequeno tirano, um em um milhão, com poder quase ilimitado. Pensei que o velho estava maluco. Isto foi anos antes que eu compreendesse completamente o que estava falando.”

— Esta é uma das histórias mais horríveis que eu já ouvi — falei.

— Você voltou realmente àquela casa?

— Certamente. Voltei três anos mais tarde. Meu benfeitor estava certo. Um pequeno tirano como aquele era um em um milhão, e não podia ser desperdiçado.

— Como fez para voltar?

— Meu benfeitor desenvolveu uma estratégia usando os quatro atributos do guerreiro: controle, disciplina, paciência e sentido de oportunidade.

Dom Juan afirmou que seu benfeitor, ao explicar-lhe o que ele tinha que fazer para aproveitar-se do confronto com aquele ogro, também lhe disse o que os novos videntes consideravam ser os quatro passos no caminho do conhecimento. O primeiro passo é a decisão de tornar-se aprendiz. Depois que os aprendizes mudam sua visão sobre si mesmos e sobre o mundo dão o segundo passo e tornam-se guerreiros, ou seja, seres capazes de extrema disciplina e autocontrole. O terceiro passo, depois de adquirirem paciência e senso de oportunidade, é tornar-se um homem de conhecimento. Quando homens de conhecimento aprendem a ver, dão o quarto passo, tornando-se videntes.

Seu benfeitor salientou o fato de que Dom Juan estivera no caminho do conhecimento o suficiente para adquirir um mínimo dos dois primeiros atributos: controle e disciplina. Dom Juan enfatizou que esses atributos referem-se a um estado interior. Um guerreiro é auto-orientado, não de um modo egoísta, mas no sentido de um exame total e contínuo de si mesmo.

— Naquele tempo, eu não possuía os outros dois atributos — continuou Dom Juan. — Paciência e oportunidade não são realmente um estado interior. Estão no domínio do homem de conhecimento. Meu benfeitor mostrou-os para mim através de sua estratégia.

— Isto significa que você não poderia ter enfrentado o pequeno tirano sozinho?

— Estou certo de que poderia tê-lo feito sozinho, embora tenha sempre duvidado de que me desempenhasse com elegância e alegria. Meu benfeitor estava simplesmente desfrutando do encontro ao dirigi-lo. A idéia de usar um pequeno tirano não serve apenas para aperfeiçoar o espírito do guerreiro, mas também para diversão e felicidade.

— Como pode alguém divertir-se com um monstro como o que você descreveu?

— Ele não era nada em comparação com os monstros de verdade com que os novos videntes se defrontaram durante a Conquista. E tudo indica que aqueles videntes divertiram-se tremendamente ao lidar com eles. Provaram que mesmo os piores tiranos podem trazer encanto, naturalmente desde que a pessoa seja um guerreiro.

Dom Juan explicou que o engano que os homens comuns cometem ao se confrontarem com pequenos tiranos é não possuírem uma estratégia que os apóie; a falha fatal é que os homens comuns levam-se por demais a sério; suas ações e sentimentos, assim como as ações e sentimentos dos pequenos tiranos, são de suma importância. Os guerreiros, por outro lado, não apenas têm uma estratégia bem elaborada, como estão livres da vaidade. O que restringe sua vaidade é que eles compreenderam que a realidade é uma interpretação que fazemos. Esse conhecimento era a vantagem definitiva que os videntes tinham sobre os espanhóis simplórios.

Disse que ficou convencido de que poderia derrotar o feitor usando apenas uma única percepção: a de que os pequenos tiranos levam-se mortalmente a sério, ao contrário dos guerreiros.

E assim, seguindo o plano estratégico de seu benfeitor, Dom Juan conseguiu um trabalho no mesmo engenho de açúcar de antes. Ninguém se lembrava de que ele havia trabalhado ali no passado; peões chegavam e saíam do engenho sem deixar sinal.

A estratégia de seu benfeitor especificava que Dom Juan tinha de ser solícito com quem quer que viesse procurar outra vítima. Quando isso aconteceu, a mesma mulher o notou, como havia feito anos antes. Desta vez, ele estava até mais forte fisicamente do que naquela época.

A história se repetiu, A estratégia, entretanto, mandava recusar pagamento ao feitor desde o início. O homem nunca havia sido desafiado, e foi tomado de surpresa. Ameaçou despedir Dom Juan do emprego. Dom Juan ameaçou-o por sua vez, dizendo que iria diretamente para a casa da senhora para vê-la. Dom Juan sabia que a mulher, esposa do proprietário do engenho, ignorava o que os dois feitores andavam fazendo. Disse ao feitor que sabia onde ela morava porque havia trabalhado nos campos em torno, cortando cana. O homem começou a regatear, e Dom Juan pediu-lhe dinheiro, para aceitar o serviço na casa da senhora. O feitor cedeu e entregou-lhe algumas notas. Dom Juan estava perfeitamente consciente de que a aquiescência do feito era apenas um ardil para conseguir levá-lo para a casa.

— Ele mesmo levou-me novamente — disse Dom Juan. — Era uma velha fazenda pertencente ao pessoal do engenho de açúcar… homens ricos que sabiam o que se passava e não se importavam, ou eram indiferentes demais para notar.

“Assim que ali chegamos, corri para a casa, procurando pela senhora. Encontrei-a e caí de joelhos e beijei-lhe a mão em agradecimento. Os dois feitores estavam lívidos”.

“O feitor da casa seguiu o mesmo padrão de antes. Mas eu estava bem equipado para lidar com ele; tinha controle, disciplina, paciência e senso de oportunidade. Tudo correu como meu benfeitor havia planejado. Meu controle fez com que eu atendesse às exigências mais estúpidas do homem. Mas o que geralmente nos exaure em uma situação como aquela é o desgaste na nossa vaidade. Qualquer homem que tenha um pingo de orgulho dilacera-se quando o fazem sentir-se desvalorizado”.

“Eu fazia tudo que ele me pedia com satisfação. Era alegre e forte. Não me importava com meu orgulho ou meu medo. Ali estava como um guerreiro impecável. Dominar o espírito quando alguém está pisando em você chama-se controle.”

Dom Juan explicou que a estratégia de seu benfeitor requeria que, em vez de sentir pena de si mesmo, como havia sentido antes, fosse imediatamente trabalhar, anotando os pontos fortes do homem, suas fraquezas, as características de seu comportamento.

Descobriu que os pontos mais fortes do feitor eram sua natureza violenta e sua ousadia. Havia atirado em Dom Juan em pleno dia e à vista de um punhado de testemunhas. Sua grande fraqueza era o gosto pelo próprio trabalho e o fato de não desejar colocá-lo em perigo. Sob nenhuma circunstância, ele poderia tentar matar Dom Juan dentro da propriedade, durante o dia. Sua outra fraqueza era ser um homem de família. Tinha mulher e filhos, que viviam num barraco perto da casa.

— Juntar toda essa informação, enquanto estão batendo em vocês chama-se disciplina — disse Dom Juan. — O homem era um verdadeiro demônio. Não tinha salvação. Segundo os novos videntes, um pequeno tirano perfeito não tem qualquer aspecto positivo.

Dom Juan disse que os outros dois atributos do guerreiro, paciência e senso de oportunidade, que ainda não possuía, haviam sido incluídos automaticamente na estratégia de seu benfeitor. Paciência é esperar calmamente — sem pressa, sem ansiedade. Trata-se de um simples e alegre adiamento do que é devido.

— Eu me lamentava diariamente — continuou Dom Juan — às vezes chorando sob o chicote do homem. E ainda assim era feliz. A estratégia de meu benfeitor foi o que me fez seguir dia após dia sem odiar mortalmente o homem. Eu era um guerreiro. Sabia que estava esperando e sabia pelo que estava esperando. É exatamente ai que está a grande alegria do guerreiro. Acrescentou que a estratégia de seu benfeitor exigia embaraçar sistematicamente o feitor, obtendo uma proteção de ordem superior, exatamente como os videntes do novo ciclo haviam procedido durante a Conquista, escudando-se com a Igreja Católica. Um simples padre era às vezes mais poderoso do que um nobre.

O escudo de Dom Juan era a senhora que o trouxera para o trabalho. Ele se ajoelhou à sua frente e chamava-a de santa todas as vezes que a via. Pediu-lhe que lhe desse um medalhão de seu santo padroeiro para que pudesse rezar por sua saúde e bem-estar.

— Ela me deu uma medalha — continuou Dom Juan — e isto destroçou o feitor. E quando consegui que os empregados rezassem à noite, ele quase teve um ataque do coração. Acho que foi então que decidiu matar-me. Ele não podia deixar-me continuar.

“Como contramedida, organizei um rosário entre todos os criados da casa. A senhora pensou que eu tinha os modos de um homem muito pio”. “Mas não dormi bem depois daquilo, nem dormia em minha cama. Subia para o telhado todas as noites. Dali vi o homem duas vezes procurando por mim no meio da noite, com uma intenção assassina nos olhos”.

“Diariamente ele me mandava para as baias dos garanhões esperando que fosse morto por esmagamento, mas eu tinha uma prancha de tábuas pesadas que encostava contra um dos cantos, protegendo-me por trás. O homem nunca soube, porque tinha horror a cavalos — outra de suas fraquezas, a mais mortal de todas, como as coisas vieram demonstrar.”

Dom Juan disse que o sentido de oportunidade é a qualidade que governa a liberação de tudo o que está contido. Controle, disciplina e paciência são como um dique por trás do qual tudo é represado. O sentido de oportunidade é a abertura do dique.

O homem conhecia apenas a violência, com a qual costumava aterrorizar. Se a sua violência era neutralizada, ficava quase indefeso. Dom Juan sabia que ele não se atreveria a matá-lo diante da casa. Assim, um dia, na presença dos outros trabalhadores, mas também à vista da senhora, Dom Juan insultou o homem. Disse que ele era covarde, que tinha um medo mortal da mulher do patrão.

A estratégia de seu benfeitor recomendava que estivesse alerta para um momento como aquele e o usasse para virar a mesa sobre o pequeno tirano. Coisas inesperadas sempre acontecem desse modo. O mais baixo dos escravos subitamente zomba do tirano, insulta-o, faz com que se sinta ridículo diante de testemunhas significativas, e então foge sem dar ao tirano o tempo para a retaliação.

— Um momento depois, o homem ficou louco de raiva, mas eu já estava solicitamente ajoelhado diante da senhora — continuou ele. Dom Juan disse que quando a senhora foi para dentro da casa, o homem e seus amigos chamaram-no para os fundos, alegando algum trabalho. O homem estava muito pálido, branco de ódio. Pelo som de sua voz, Dom Juan soube o que ele estava realmente planejando fazer. Dom Juan fingiu aquiescer, mas, em vez de dirigir-se para os fundos, correu para os estábulos. Achava que os cavalos fariam tal barulho que os proprietários sairiam para ver qual era o problema. Sabia que o homem não se atreveria a atirar nele. Faria barulho demais, e o medo que ele tinha de colocar seu emprego em risco era muito forte. Dom Juan também sabia que o homem não iria onde os cavalos estavam — isto é, a menos que fosse pressionado além de sua resistência.

— Saltei para dentro da baia do garanhão mais selvagem — disse Dom Juan — e o pequeno tirano, cego de raiva, tirou sua faca e saltou depois de mim. Fui instantaneamente para trás de minha prancha. O cavalo escoiceou uma vez, e estava tudo acabado

“Havia passado seis meses naquela casa, e naquele período de tempo exercitei os quatro atributos do guerreiro. Graças a eles, fui bem-sucedido. Em momento algum senti pena de mim mesmo ou chorei de impotência. Permaneci alegre e sereno. Meu controle e disciplina estavam mais aguçados do que nunca, e pude ver de perto o que a paciência e sentido de oportunidade podiam fazer pelos guerreiros impecáveis. E nem uma vez desejei que o homem morresse”.

“Meu benfeitor explicou uma coisa muito interessante. Paciência significa reter com o espírito algo que o guerreiro sabe que, por justiça, deve fazer. Isto não significa que um guerreiro saia por ai planejando causar prejuízos a alguém ou acertar contas passadas. A paciência é algo independente. Desde que o guerreiro tenha controle, disciplina e sentido de oportunidade, a paciência assegura dar o que se deve a quem quer que o mereça.”

— Às vezes os pequenos tiranos vencem e destroem o guerreiro que os enfrenta?

— Naturalmente. Houve um tempo em que os guerreiros morriam como moscas. No princípio da Conquista, suas fileiras foram dizimadas; os pequenos tiranos podiam causar a morte de qualquer um, agindo simplesmente por um capricho. Sob tal tipo de pressão, os videntes alcançaram estados sublimes.

Dom Juan disse que naquele tempo os videntes que sobreviviam tinham de forçar-se ao limite para encontrar novos caminhos.

— Os novos videntes usavam pequenos tiranos — disse Dom Juan, olhando para mim fixamente — não apenas para livrar-se de sua vaidade, mas também para realizar a manobra muito sofisticada de se deslocar para fora deste mundo. Você irá entender essa manobra à medida que continuamos a discutir o domínio da consciência.

Expliquei a Dom Juan que o que eu queria saber era se, no presente, em nossos tempos, os pequenos tiranos que ele classificara entre os mais minúsculos poderiam derrotar um guerreiro.

— A qualquer momento — respondeu. — As conseqüências não são tão medonhas como as do passado remoto. Hoje não é preciso dizer que os guerreiros sempre têm uma oportunidade de recuperar-se ou retrair-se e voltai mais tarde. Mas há um outro lado desse problema. Ser derrotado por um minúsculo pequeno tiraninho não é mortal, mas devastador. O grau de mortalidade, no sentido figurado, é quase tão alto. Quero dizer com isso que os guerreiros que sucumbem a um minúsculo pequeno tiraninho são eliminados pelo seu próprio senso de fracasso e inutilidade. Isto para mim significa alta mortalidade.

— Como se pode medir a derrota?

— Todos os que se juntam ao pequeno tirano são derrotados. Agir com raiva, sem controle e disciplina, não ter paciência, é ser derrotado.

— O que acontece depois que os guerreiros são derrotados?

— Eles ou se reagrupam ou abandonam a busca de conhecimento e juntam-se às fileiras dos pequenos tiranos por toda a vida.”

(O Fogo Interior, Carlos Castañeda)

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