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Desprendimento, Paciência, Vontade e Ver

“Meu benfeitor dizia que, quando um homem toma os caminhos da feitiçaria, torna-se consciente, aos poucos, de que a vida comum ficou para trás para sempre, que o conhecimento é na verdade uma coisa assustadora; que os meios do inundo comum não são mais um escudo para ele; e que tem de adotar um novo modo de vida, para poder sobreviver, A primeira coisa que ele deve fazer, nesse ponto, é desejar tornar-se um guerreiro, um passo e decisão muito importantes. A natureza assustadora do conhecimento não os deixa nenhuma alternativa senão tomar-nos um guerreiro.

Quando o conhecimento se torna uma coisa assustadora, o homem também compreende que a morte é o companheiro insubstituível, que se senta ao lado dele na esteira. Cada pouquinho de conhecimento que se torna poder tem a morte como sua força central. A morte dá o último toque, e o que for tocado pela morte torna-se realmente poder.

Um homem que segue os caminhos da feitiçaria se defronta com uma aniquilação iminente a cada passo do caminho, e é inevitável que tome fortemente consciência de sua morte. Sem a consciência da morte, ele seria apenas um homem comum, praticando atos comuns. Não teria a necessária potência, a necessária concentração que transforma o tempo comum da pessoa na terra num poder mágico.

Assim, para ser um guerreiro o homem tem de estar, antes de tudo, e propriamente, muito consciente de sua própria morte. Mas a preocupação com a morte levaria qualquer de nós a focalizar a atenção em si e isso seria debilitante. Portanto, a segunda coisa que se precisa para ser um guerreiro é o desprendimento. A idéia da morte iminente, em vez de se tornar uma obsessão, torna-se uma indiferença.

Dom Juan parou de falar e olhou para mim. Parecia estar esperando um comentário.

— Está entendendo? — perguntou.

Eu entendia o que ele tinha dito, mas pessoalmente não podia ver como é que qualquer pessoa podia chegar a um senso de desprendimento. Disse que, do ponto de vista de meu aprendizado, eu já tinha experimentado o momento em que o conhecimento se toma uma coisa muito assustadora. Podia também dizer, com verdade, que não encontrava mais apoio nas premissas comuns de minha vida quotidiana. E eu queria, ou talvez ainda mais, precisava, viver como um guerreiro.

— Agora você precisa desprender-se — disse ele.

— Do quê?

— Desprender-se de tudo.

— Isso é impossível. Não quero virar ermitão.

— Ser um ermitão é uma indulgência e eu não quis dizer isso. Um ermitão não é desprendido, pois se entrega propositadamente a ser um ermitão.

— Somente a idéia da morte torna o homem suficientemente desprendido para ser capaz de se entregar a qualquer coisa. Um homem assim, porém, não tem anseios, pois adquiriu um amor calado pela vida e por todas as coisas da vida. Sabe que a morte o acompanha e não lhe dará tempo de se agarrar a nada, de modo que ele experimenta, sem ansiar, tudo de todas as coisas.  Um homem desprendido, que sabe que não tem possibilidade de evitar sua morte, só tem uma coisa em que se apoiar: o poder de suas decisões. Ele tem de ser, por assim dizer, o senhor de suas opções. Deve compreender plenamente que sua opção é sua responsabilidade e, uma vez feita, não há mais tempo para remorsos ou recriminações. Suas decisões são finais, simplesmente porque sua morte não lhe permite tempo para se agarrar a nada. E assim, com a consciência de sua morte, com seu desprendimento, e com o poder de suas decisões, um guerreiro organiza sua vida de maneira estratégica. O conhecimento de sua morte o orienta e o torna desprendido e secretamente sensual; o poder de suas decisões finais o torna capaz de escolher sem remorsos, e o que ele escolhe é sempre estrategicamente o melhor; e assim ele executa tudo o que precisa com vontade e uma eficiência sensual. Quando um homem procede dessa maneira, pode-se dizer com segurança que ele é um guerreiro e adquiriu a paciência!

— Quando um guerreiro consegue a paciência, está a caminho da vontade. Sabe esperar. Sua morte senta com ele em sua esteira, eles são amigos. Sua morte o aconselha, de maneiras misteriosas, a optar, a viver estrategicamente. E o guerreiro espera! Eu diria que o guerreiro aprende sem pressa alguma porque ele sabe que está esperando sua vontade; e um dia consegue realizar alguma coisa que normalmente seria impossível. Pode nem notar seu feito extraordinário. Mas, à medida que continuar a realizar coisas impossíveis, ou coisas impossíveis lhe forem acontecendo, ele percebe que uma espécie de poder está surgindo. Um poder que emana de seu corpo enquanto ele progride no caminho do conhecimento. A princípio, parece uma comichão na barriga, ou um ponto quente que não consegue ser aliviado; depois, torna-se uma dor, um incômodo muito grande. Às vezes, a dor e o incômodo são tão fortes que o guerreiro passa meses tendo convulsões, e quanto mais graves são elas, melhor para ele. Um bom poder sempre é prenunciado por muita dor.
Quando as convulsões cessam, o guerreiro repara que tem sensações estranhas com relação às coisas. Nota que pode tocar qualquer coisa que queira com uma sensação que sai de seu corpo de um lugar baixo ou bem acima de seu umbigo. Essa sensação é a vontade, e quando ele consegue pegar as coisas com ela, pode-se dizer que o guerreiro é um feiticeiro e que adquiriu uma vontade.

Dom Juan parou de falar e parecia estar esperando meus comentários ou perguntas. Eu não tinha nada a dizer. Estava profundamente preocupado com a idéia de que um feiticeiro tinha de sofrer dor e convulsões, mas sentia-me encabulado de perguntar-lhe se eu também teria de passar por isso. Por fim, depois de um longo silêncio, perguntei-lhe e ele deu uma risada, como se estivesse esperando essa pergunta. Falou que a dor não era absolutamente necessária; ele, por exemplo, nunca a sentira, e a vontade lhe acontecera simplesmente.

— Um dia, quando eu estava nas montanhas — disse ele — topei com uma onça; ela era grande e estava faminta. Corri e ela correu atrás de mim. Trepei numa pedra e ela ficou a pouca distância, pronta para saltar. Atirei pedras nela. A fera rosnou e começou a me atacar. Foi então que minha vontade se manifestou plenamente e eu a detive, antes de ela saltar sobre mim. Afaguei-a com minha vontade. Cheguei a esfregar suas tetas com ela. A onça olhou para mim com olhos sonolentos e deitou-se, e eu fugi como um filho da mãe antes que ela despertasse.

Dom Juan fez um gesto muito engraçado de um homem correndo para salvar a vida, segurando o chapéu. Falei que não gostava da idéia de só ter onças ou convulsões pela frente, se quisesse ter vontade.

— Meu benfeitor era um feiticeiro de grande poder — continuou ele. — Era um guerreiro perfeito. Sua vontade era realmente sua realização mais magnífica, Mas o homem pode ir mais longe do que isso; o homem pode aprender a ver. Quando se aprende a ver, não é mais preciso viver como guerreiro, nem ser feiticeiro. Ao aprender a ver, o homem torna-se tudo, tornando-se nada. Por assim dizer, desaparece, e no entanto continua ali. Eu diria que essa é a ocasião em que o homem pode ser ou conseguir tudo o que deseja. Mas não deseja nada, e em vez de brincar com seus semelhantes como se fossem brinquedos, ele os encontra no meio da loucura deles. A única diferença entre eles é que o homem que vê controla sua loucura, enquanto que seus semelhantes não o conseguem. Um homem que vê não tem mais um interesse ativo por seus semelhantes. Ver já o desprendeu de tudo o que conhecia antes.

— A simples idéia de estar desprendido de tudo o que conheço me dá arrepios — falei.

— Você deve estar brincando! O que lhe devia dar arrepios é não ter nada pela frente, a não ser uma vida inteira de fazer aquilo que sempre fez. Pense no homem que planta milho ano após ano, até estar velho e cansado demais para se levantar, de modo que fica deitado, como um cachorro velho. Seus pensamentos e sentimentos, o que há de melhor nele, vagueiam sem rumo para as únicas coisas que ele já fez, que é plantar milho. Para mim, isso é o maior desperdício que há. Somos homens e nosso destino é aprender e sermos lançados em novos mundos inconcebíveis.

— Existem mesmo novos mundos para nós? — perguntei, jocosamente,

— Ainda não esgotamos nada, seu tolo — disse ele, imperiosamente. — Ver é para os homens impecáveis. Tempere seu espírito agora, torne-se um guerreiro, aprenda a ver, e depois saberá que não há um limite para os novos mundos, para a nossa visão.

(Uma Estranha Realidade, Carlos Castañeda)

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