“Sílvio Manuel: Não há nada de belo ou pacífico na morte – disse Sílvio Manuel. – Porque o terror se inicia ao morrer. Com aquela força incalculável que você sentiu lá a Águia espremerá para fora de você cada centelha de conscientização que você já teve…”

(Carlos Castañeda, O Presente da Águia)
(Montagem/Ilustração – Izaias Borba_

— Dinarte:
Uma questão é a potência necessária pra translocar o intento que fixa o ponto de aglutinação pra além da força rolante da morte. Isso não é improvisado de modo algum. É um combate de cabo a rabo ao longo de uma vida pra alcançar uma existência que seja resultante da dialética complementar das dualidades, que resultem no fruto da Conscientização do mar escuro da consciência. Sabemos que o moribundo não tem forças alguma diante da pressão da força rolante da morte, o tonal lhe está combalido e suas forças morais estão derrotadas. Advém dúvidas, medo, horror, imagens torturantes, remorsos, descrença, dor, revolta, amargor, por fim entrega, depressão, aniquilamento. O composto humano se desintegra e fragmenta, o que é humano desce á terra ( ou é incinerado hoje em dia) e o que resta é um cascão das emanações do parasita inorgânico que se alimentou do humano e suas energias durante a vida, lhe fez companhia e parceria. Quanto mais jovem, possante e perverso quem morre, mais permanece o cascão inorgânico preso pelo ponto de aglutinação nesta nossa dimensão, a tal ´alma penada´dos contos populares. Em algumas cidades existe contos confirmando estas aparições, é o caso que soube do ´barril de moedas´, um sujeito grande e corpulento que em vida era obcecado por colecionar moedas que enchia a roupa delas, sua casa foi posteriormente alugada mas os inquilinos desistiam devido as aparições desse espectro nas noites, em especial aos que duvidavam e o desafiavam pra que se manifestasse. É notável como os que passaram pela experiência relatassem os mesmos fenômenos de perderem a fala, ficarem paralisados e incapazes de raciocinar, e chegarem a ver um sujeito grande com chapéu largo ao lado da cama nas noites de horror.

— Alb Santos:
Não há nada pacífico na morte, é o derradeiro ato de luta, uma luta pela manutenção da fagulha individualista da consciência. Há, por outro lado, um tensionamento do universo pela dissolução do individualismo, a fragmentação, e após a consolidação deste em outros indivíduos, para o constante aprimoramento da consciência. Rompido o ovo luminoso, pela presença da morte, há a possibilidade de se manter o interior em coesão, e a força necessária é o intento, a transformação de um ponto único de consciência fragmentada do todo (ponto de aglutinação) em uma iluminação de todo o ovo de luz. Vejam bem, se durante a vida do guerreiro ele conseguiu mapear todo o ovo de luz, movimentando sistemática e conscientemente seu ponto de aglutinação, e criando um mapa de todo território de consciência possível do ovo, este mapa será usado no momento da morte para a chamada “ultima dança”, que consiste em movimentar no momento da morte o ponto para todos os locais do ovo, e depois ocasionar uma ampliação (explosão) do ponto de forma a abarcar todos os pontos. Se isso acontecer, a energia antes mantida coesa com o ovo de luz (a manifestação do tonal), será aglutinada agora pela força do nagual, e o impulso permitirá que o ser físico (característica da manifestação do ovo invólucro) se torne um ser energético inorgânico, caracterizado pela consciência coesa do ser total agora envolvida pela aglutinação da consciência. Em troca a águia levará o invólucro que guarda, como projeção, toda a percepção captada em vida, e poderá fazer a reciclagem energética desta parte. Logo, o intento é a cola que ligará os pontos da última dança, e a vontade é o acúmulo de energia pessoa que permitirá a explosão do antes ponto de aglutinação para a aglutinação total do ser energético. Alguns antigos feiticeiros tentaram isso em vida, e moldaram o ovo, mas o preço é grande, há um aprisionamento, uma fuga constante da morte, e a necessidade de alimentação de energia externa para se manter. Pelo contrário, o método arriscado de buscar a derradeira dança de poder permite a liberdade, pois utiliza-se a morte como impulso final, e o quinhão de energia necessário para, somado a vontade e direcionada pelo intento, se possa consolidar a explosão do ponto de aglutinação em uma bolha aglutinadora. Vejam que a chance é mínima, quase invisível, aterrador então o método, posto que, se falho, leva à dissolução do ser, mas é o único que permite a liberdade total. De outra banda, há relatos energéticos de pessoas que conseguiram uma explosão parcial, tendo parte da energia interna sugada, e ai vem uma chave distinta do método. A energia que não é trabalhada nos movimentos do ponto em vida, são ignoradas na explosão final, e o ser inorgânico que se forma é uma somatória das experiências, e não do ser total anterior, eis uma chave energética importante para se entender as possibilidades da transcendência proposta no método da derradeira dança. Quanto mais se estende a vida orgânica, mais se permitem conhecerem pontos, mais extensa será a dança, e maior será a consciência final. Por exemplo, DJ teve extensa vida, mais que a dos humanos normais, portanto conseguiu explorar para além dos limites comuns, e criar uma dança final extremamente complexa e completa…

— Izaias Borba:
Sim! Estamos aprendendo. Aulas em regime de internato na Terra: Não há tempo a perder. Todo tempo disponível deve ser empregado para por-se a caminho do fortalecimento da vontade e da blindagem da consciência, visando a batalha final pela vida. Todos os dias passamos pelo treinamento ao renascermos (ao despertar), evoluímos nas atividades diárias, acompanhando a ascensão do astro rei. Nossa energia irá esgotar até a sua completa exaustão, com o declínio do sol. A escuridão irá rarear nossa consciência até cairmos na inconsciência e dissolução do sono. Durante toda a noite há uma batalha interior silenciosa que busca reunir novamente o eu, até que ele se reúna novamente no despertar de um novo dia, de volta ao ciclo, aos dias de aula, de espreita planetária. Com o passar dos anos nosso corpo físico irá se desgastando. Na sua velhice se o corpo energético não tiver desenvolvido, ele declinará, e sucumbirá à velhice e à doença, e será auto-destruído. Ao contrário, o fortalecimento do corpo energético possibilita à consciência estabelecer nele a sua sede, e a partir do corpo energético, comandar a parte física, que manterá seu vigor permanente.

— J Christopher:
 Vou falar apenas do que posso atestar de compreensão e experiência de primeira mão. O aspecto individualizante da consciência é uma força expansiva. Ela emana do centro/ponto de encaixe para fora. Os diversos estados de auto reflexão levam essa luminosidade a se comprimir e distorcer. Perder a forma humana é o que permite conservar um estado de consciência “permanentemente expandida”, isso é, expandir o brilho da consciência e acender todos os fragmentos do aglomerado de centelhas de conscientização do nosso ser total, recuperar a totalidade de si. Isso consolida a conscientização do corpo energético. Não é preciso deslocar o ponto de encaixe pra todas as posições do casulo luminoso pra acender todas essas centelhas. Todas se reconhecem como centros de um corpo de pura consciência sem centro particular quando estão acesas de tal forma, se reconhecem como puro Intento. Conservar essa conscientização é a base da sobrevivência da consciência de ser.
Além e aquém, como dizem os peregrinos, do aspecto individualizante, há o aspecto não-individual da consciência. Ele não é uma força expansiva e aglutinante que emana do centro. Ele é uma força que emana/vem da escuritude incomensurável além do casulo. Quando o corpo energético está consolidado, essa força, que não é autoconsciente, não é aglutinável, mas que está na origem da consciência, que é a fonte da própria consciência, e que testemunha
o corpo energético, pode usá-lo como um espelho pra se refletir, e se conscientizar.
Enquanto estamos fragmentados isso é impossível, pois a dualidade que ocorre dentro do próprio tonal ofusca totalmente o nagual que permeia o casulo e o nagual que está além.
A tendência dessa força é dissolver tudo em si mesma, pois ela é absoluta e não é autoconsciente.
Quando a integração entre essas duas forças ocorre, nesse ponto a própria preocupação e até a necessidade de conservar o aspecto individualizante da consciência cessa, pois nos alinhamos com a visão do mar escuro. Somos morte e vida, e ambas são vivas, ambas são aspectos da consciência total, somos individualidade e não-individualidade simultaneamente. Somos aquilo que intenta no mar escuro e somos o próprio mar escuro. As 3 atenções se alinham.
Essa preocupação de conservação da individualidade surge enquanto nos vemos como uma entidade separada da totalidade do mar escuro, o que é resultado de uma perspectiva e compreensão parciais do processo de surgimento da consciência. Lembre que o ponto de encaixe (ou os pontos de encaixe) tem a experiência de ser aquilo em que acredita e com que se alinha, e isso funciona em qualquer sentido. E só pra reforçar, não estou dizendo que a possibilidade e a intenção de conservar a individualidade /autoconsciência cessam. Apenas que a questão toda se transforma.

— Dinarte:
Comentando, o método de dom Juan seguindo a tradição, como está em Porta Para O Infinito consiste em levar o aprendiz a compreender que tudo que pode ser produzido pela mente e pela linguagem, os conceitos e objetos dos sentidos, direto ou indiretamente, por meio de instrumentos, enfim, é reconhecido pelos dispositivos do cérebro e pela cultura, medido pela ciência do consenso, é Tonal, organização. Chega ao ponto que dom Juan reduz todo o tonal a uma ilha cercada pelo incomensurável e incognoscível, fonte de toda criatividade, o nagual. Pelo método de dom Juan, se chega ás fímbrias do nagual quando finalmente a mente dualista e classificadora, uma sede de transmissão dos entes inorgânicos que fazem parte de nosso composto humano, entra em êxtase de compreensão sem fronteiras, num processo a longo prazo, não como um flash de iluminação passageiro tipo Samadhi/Nirvana. Então gradualmente o nagual é reconhecido dentro do tonal abaixo das aparências, como está no álbum de Eventos Memoráveis em O Lado Oculto do Infinito. O aspecto nagual da existência nunca foi separado do aspecto manifestação Tonal, mas ficou enterrado (‘ofuscado’) pelo ruído e fúria do tonal, a cultura tonal sedimentada em muitas comadas sobre a face original da criatividade que emana do núcleo das camadas de cebola da consciência. Admito que nossa condição de leitores e estudiosos da obra de C.C. o conhecimento impresso nos vem praticamente em blocos inteiros, já que Carlitos passou por vários estágios, passo a passo onde ele não sabia que abismo tinha á frente. Ao trilharmos a integração, o nagual emergir as camadas do tonal, na práxis que integra leitura, prática, modificações do ponto de encaixe da percepção, distanciamento relativo aos mundos/visões e interpretação do que percebemos (a postura filosófica de testemunha imparciais, mesmo participando) e as estratégias de espreitar a si mesmo em diferentes situações e desafios e o mundo do ensonhar durante o sono ou acordado, com ou sem técnica facilitadora, e importante, a Recapitulação pra dissolver a casca grossa da ´forma humana´ao nos entendermos como manifestação do eterno infinito manifestado, ou seja, uma configuração do ´mar escuro da consciência´ no abismo do incognoscível, surpreendentemente organizado pela força de coesão conjunta do ponto de aglutinação num certo feixe/faixa de consciência. O aspecto individualizante da consciência referido continua como parte integrante do todo da alquimia resultante do processo de integração tonal/nagual, conforme comentado acima. A grande diferença é justamente que nos percebemos gradualmente como uma possibilidade pontual, uma miragem, das forças aglutinantes e criativas do nagual/ mar escuro da consciência, e toda nossa história pessoal/histórica acabou sendo vertida no mar escuro da consciência como um gole dágua num oceano, mas nossa configuração se torna espelho da possibilidade de criatividade do aspecto nagual em manifestação tonal, e isso atinge nossa forma tonal mutante, pois nos tornamos espelhos da mutabilidade criativa nagual, assim como dom Juan em certo episódio do livro Estranha Realidade com os aprendizes no deserto, era percebido de modo diferente por cada uma das testemunhas, por vezes de aspecto pesado por vezes hilariante, e em outras vezes como bola de luz dissolvida no mundo dos sentidos, Dom Juan mesmo questionado por Carlitos sobre quem era afinal, arregalava os olhos e abria os braços amplamente, dizendo sou tudo! Dizendo que sua história pessoal tinha sido pouco a pouco dissolvida e nem ele mesmo sabia quem ele fora ou era…liberdade é isso. Dom Juan não morreu naturalmente, ele se INTEGROU corpo tonal e espírito nagual, pela força de intento, não só dele, MAS DO GRUPO, isso faz diferença! Por fim, vida é vida, morte é morte, assim como dia é dia, noite é noite, e suas variações, tudo é poder, como diz dom Juan. Quanto á morte pessoal, se não realizarmos a integração, sofreremos a mesma cisão-ruptura, o que é humano/tonal vira humus, o que é nagual é reabsorvido pela Águia pra novas manifestações de criatividade, apenas não sofreremos remorsos e miséria como os humanos decaídos no mundo, e nem geramos um cascão de inorgânico que parasita as energia e permanece num nível de consciência/inconsciente atormentando os viventes. Uma opção é a dos feiticeiros antigos de existirem entre a vida e a morte, num limbo de transição, mantendo vínculos com o corpo-cadáver neste mundo pra essa finalidade e existindo na dimensão original dos entes inorganicos numa condição inorganica, similar aos demônios que existem no reino dos espectros dos mortos…. fff… essa é minha compreensão.

— J Christopher:
 Muito bem comunicada e harmonicamente estruturada a perspectiva Dinarte, obrigado pelos comentários.
Faço apenas alguns comentários pontuais adicionais sobre o que escreveu:
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– O flash passageiro é melhor expresso pelo termo Satori, em contraste ao Samadhi/Nirvana, a iluminação estável que decorre da conscientização do Intento.
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– Entendo que quis dizer que a abordagem inicial do que seja ser uma testemunha imparcial seja filosófica. Só vou reforçar que ser uma testemunha imparcial é não apenas uma postura filosófica mas resultado de uma mudança total de perspectiva decorrente de deixar de olhar com os olhos do tonal, que colorem tudo que é visto com interpretações e significados pessoais, e passar a ver a partir da conscientização do Intento, onde tudo é Intento.
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– O que entendemos por morte, não enquanto fim da existência no corpo físico, mas enquanto estado de esquecimento total, é esse incognoscível rodeando a luminosidade, a percepção, no agora. Ela é um aspecto do nosso ser total que pode ser conscientizado através do espelho do ovo luminoso, e isso implica despertar em nós uma qualidade diferente de atenção, diferente das usadas para estar atento ao mundo do tonal e às experiências em geral que ocorrem dentro da luminosidade.

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