, ,

A verdadeira ajuda consiste em reduzir a auto-reflexão, e o Nagualismo é um retorno ao Espírito

“A única ajuda concreta que você obteve de mim é o fato de que ataco sua auto-reflexão. Não fosse por isso, você estaria desperdiçando o seu tempo.

— Você me ensinou, Don Juan, mais do que qualquer outra pessoa em minha vida inteira — protestei.

— Ensinei-lhe todos os tipos de coisa para prender sua atenção. Você irá jurar, entretanto, que esse ensinamento foi a parte importante. Há muito pouco valor na instrução. Os feiticeiros afirmam que mover o ponto de aglutinação é tudo que importa. E esse movimento, como você bem sabe, depende de acúmulo de energia e não de instrução.

Então ele fez uma afirmação contraditória. Disse que qualquer ser humano que seguisse uma seqüência específica e simples de ações poderia aprender a mover seu ponto de aglutinação.

Retruquei que ele estava contradizendo a si mesmo. Para mim, uma seqüência de ações significa instruções; significa procedimentos.

— No mundo dos feiticeiros há apenas contradições de termos – replicou.

— Na prática não há contradições. A seqüência de ações sobre a que estou falando é uma que se origina de estar consciente. Para tornar-se consciente dessas sequências você necessita de um nagual. É por isso que falei que o nagual proporciona uma chance mínima, mas essa chance mínima não é instrução, como a que você necessita para aprender a operar uma máquina. A chance mínima consiste em se tornar consciente do espírito.

Don Juan explicou que a seqüência específica que tinha em mente exigia estar consciente de que a auto-importância é a força que mantém o ponto de aglutinação fíxo. Quando a auto-importância é podada, a energia que requer não é mais gasta. Essa energia aumentada serve então como o trampolim que lança o ponto de aglutinação, automaticamente e sem premeditação, para uma viagem inconcebível.

Uma vez que o ponto de aglutinação se moveu, o próprio movimento implica afastar-se da auto-reflexão, e isto, por sua vez, assegura um elo de conexão limpo com o espírito. Comentou que, afinal, era a auto-reflexão que havia desconectado o homem do espírito em primeiro lugar.

— Como já lhe expliquei — continuou Don Juan —, a feitiçaria é uma viagem de retorno. Voltamos vitoriosos ao espírito, tendo descido ao inferno. E do inferno trazemos troféus. O puro entendimento é um de nossos troféus.”

(O Poder do Silêncio, Carlos Castaneda)

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *