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Crer sem Crer: fazendo o inventário das nossas crenças

“Aceitei o exercício porque me pareceu inofensivo. Durante um par de semanas me dediquei a classificar tudo aquilo como o que eu me sentia mentalmente identificado. Esperava que o meu inventário fosse simples e claro, mas logo me surpreendeu verificar que foi se tornando uma lista interminável de padrões de pensamento, às vezes não muito coerentes entre si.

Por exemplo, uma de minhas crenças era que só as coisas demonstráveis são certas; ao mesmo tempo, outra delas sustentava que existe uma realidade suprema, um ser divino mais além de toda a forma de experimentação. Não importa quanto tentei, eu não pude conciliar essa contradição.

No campo das não crenças tive também minhas surpresas. A coisa mais desagradável foi descobrir o modo como uma simples sugestão havia bloqueado para mim uma área enorme de possibilidades. Quando eu comecei a investigar porque não era honestamente possível aceitar as declarações de Carlos relativas a que, através do sonho, se pode atingir outros mundos reais e completos, lembrei-me de que, quando era muito pequeno e tinha algum pesadelo, minha mãe repetia o refrão de uma história infantil que dizia: “Sonho é sonho.”

Quando nos encontramos de novo lhe contei superficialmente o resultado de minhas pesquisas. Carlos me falou que era suficiente, que já havia bastante material para entrar na segunda fase do exercício. Então ele sugeriu que eu selecionasse a mais importante de minhas crenças; aquela que servia de base a todas as outras, e que deixasse de acreditar nela por um momento. Assim deveria fazer com cada uma delas, de acordo com o grau de importância.

“Eu lhe asseguro que não é difícil! – ele acrescentou, observando meu rosto em confusão – e sobretudo, não prejudica a sua fé. Recorde que é só um exercício.”

Protestei. Com tom resoluto, eu lhe falei que a base de meus princípios era minha certeza de que Deus existe, e que não estava disposto a pôr em dúvida ou sequer analisar esse assunto.

“Não está certo! – gritou – sua convicção mais profunda é que você é um pecador e por isso você está justificado! Você pode se equivocar, desperdiçar sua energia, se entregar à raiva, à lascívia, aos caprichos e ao medo; afinal de contas, você é humano. Deus sempre o perdoa! “

“Não se engane. Ou você escolhe sua crença ou ela o escolhe. No primeiro caso é autêntica, é sua aliada, o sustenta e se deixa manipular por sua vontade. No segundo, é uma imposição e não vale a pena”.

Respondi que o exercício que ele propunha – tratar minha fé com a mesma naturalidade de quem muda de camisa – não só era uma atitude blasfema e mercenária, mas que sua prática provavelmente acabaria por me enviar a um estado de confusão interna.

“Você não tem que estar esclarecido para entrar no mundo dos bruxos!”

“A idéia que temos de que a verdade anda de mãos dadas com a claridade é uma armadilha, porque o espírito é algo demasiado inacessível para ser entendido com nossa frágil mente humana. Como você bem sabe, a essência da religião não é a clareza, porém a fé. Mas a fé não vale nada comparada com a experiência! “

“Os bruxos são práticos; do ponto de vista deles, aquilo em que nós acreditamos ou deixamos de acreditar é absolutamente irrelevante. Não importa a história que nós contemos, o que importa é o espírito. Quando existe poder o conteúdo da mente é algo secundário. Um bruxo pode ser ateu ou crente, budista, muçulmano ou cristão, e mesmo assim, cultivar a impecabilidade que o levará automaticamente ao poder.”

Suas palavras me irritaram muito além do razoável. Ao perceber isto, fiquei surpreso em verificar até que ponto tinham penetrado em mim as doutrinas católicas aprendidas durante minha infância. Agora que Carlos as questionava, sentia como se me estivesse roubando injustificadamente algo muito valioso.
Ele notou meu dilema e começou a rir.

“Não confunda as coisas – falou -, as religiões não são um remédio, mas uma conseqüência do lamentável estado de consciência em que permanece o ser humano. Elas estão repletas de boa intenção, mas muito poucas pessoas se dispõem a segui-las. Se os compromissos delas significassem algo realmente valioso, o mundo estaria cheio de santos, não de pecadores”.

“No momento em que se massificam, todas as ideologias, inclusive o nagualismo, tornam-se máfias culturais, escolas para adormecer o homem. Por mais sutis que sejam suas proposições e por mais que tentem validá-las com a corroboração pessoal, elas terminam condicionando nossas ações na forma de recompensa ou castigo, e com isso distorcem a essência mesma da busca. Se o pilar de minha fé é um salário, que mérito possui?”

“Os bruxos amam a pureza do abstrato. Para eles, o valioso do caminho com coração não é tanto para onde nos leva, mas sim quão intensamente o desfrutamos. A fé tem certo valor em uma vida comum, mas não serve para nada diante da morte. Nossa única esperança frente ao inevitável é o caminho do guerreiro.”

“À capacidade de manipular seus apegos mentais os bruxos chamam ‘crer sem crer.’ Eles aperfeiçoaram essa arte até o ponto em que podem se identificar sinceramente com qualquer ideia, e vivê-la, amá-la e descartá-la se for o caso, sem remorsos de consciência. E dentro dessa liberdade de escolha, fazem perguntas de bruxos; por exemplo, por que me aceitar como pecador se posso ser impecável?”

Depois de alguma resistência, concordei com Carlos que não podia haver nada de mal em submeter minhas crenças a uma sacudida. Como pude testemunhar, o principal efeito da técnica de “crer sem crer” foi pôr em evidência a incrível fragilidade do meu catálogo de idéias, disposto a se desintegrar ao menor golpe. Entendi porque Don Juan afirmava que o mundo em que vivemos é um tecido mágico, a magia do “primeiro anel de poder”.

(Encontros com o Nagual, Armando Torres)
(Compartilhado por Lobita)

3 respostas
    • Nagualismo
      Nagualismo says:

      Paulo, você encontra o pdf dele em espanhol na internet (el secreto de la serpiente emplumada). Temos também nos arquivos do grupo do facebook (Nagualismo no Novo Ciclo)

      Responder

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