“— Ainda estou de terno porque quero dizer-lhe uma coisa muito importante — disse ele, dando-me um tapinha no ombro. — Você ontem teve uma boa atuação. Agora é o momento de chegar a uns acordos finais. Fez uma pausa prolongada. Parecia estar preparando uma declaração. Eu estava com uma sensação estranha no estômago. Minha primeira idéia foi de que ele me ia contar a explicação dos feiticeiros. Levantou-se umas duas vezes e passeou de um lado para outro, em minha frente, como se fosse difícil exprimir o que tinha em mente.

— Vamos ao restaurante do outro lado da rua para comer alguma coisa — disse por fim.

Desdobrou o paletó e, antes de vesti-lo, mostrou-me que era todo forrado.

— Foi feito sob medida. — Sorriu, como se se orgulhasse, como se aquilo fosse importante. — Tenho de chamar a sua atenção para isso, senão você não repararia, e é muito importante você re-parar. Você só repara nas coisas quando acha que deve; a condição de um guerreiro, porém, é reparar em tudo sempre. Meu terno e toda essa parafernália são importantes porque representam minha situação na vida. Ou melhor, a situação de uma das duas partes da minha totalidade. Esta conversa já estava tardando. Acho que agora é o momento oportuno. Mas tem de ser conduzida direito, senão nunca fará sentido. Eu quis que meu terno lhe desse a primeira pista. Acho que o consegui. Agora é o momento de falar, pois em assuntos dessa natureza não há um entendimento completo sem se falar.

— Qual é o assunto, Dom Juan?

— A totalidade do ser.

Ele se levantou de repente e levou-me para o restaurante de um grande hotel do outro lado da rua. Uma recepcionista meio antipática conduziu-nos a uma mesa lá dentro num canto dos fundos. Evidentemente os melhores lugares eram junto das janelas.

Eu disse a Dom Juan que a mulher me fazia lembrar de outra garçonete num restaurante em Arizona, onde Dom Juan e eu um dia tínhamos comido, que nos perguntara, antes de nos dar o menu, se tínhamos dinheiro para pagar a conta.

— Não culpo essa coitada, tampouco — disse Dom Juan, como se compreendesse a atitude dela. — Ela, como a outra, tem medo dos mexicanos.

Ele riu baixinho. Algumas pessoas das mesas vizinhas se viraram para olhar para nós.

Dom Juan disse que, sem saber, ou talvez mesmo contra a vontade, a moça nos dera a melhor mesa do lugar, uma mesa em que podíamos conversar e eu podia escrever à vontade.

Eu tinha acabado de pegar o bloco do bolso, colocando-o sobre a mesa, quando de repente um garçom apareceu diante de nós. Também ele parecia de mau humor. Ficou ali de pé, com um ar de desafio.

Dom Juan passou a fazer um pedido muito complicado. Pediu sem olhar para o menu, como se o conhecesse de cor. Eu nada estava entendendo; o garçom aparecera de repente c eu não tinha tido tempo para ler o menu, de modo que lhe disse que queria o mesmo que Dom Juan. Dom Juan cochichou em meu ouvido:

— Aposto que eles não têm o que pedi.

Ele esticou os braços e pernas e me disse para me acalmar e ficar confortável porque iam levar muito tempo para preparar a refeição.

— Você está numa encruzilhada muito emocionante — disse ele. — Talvez seja a última, e também talvez a mais difícil de entender. Algumas das coisas que lhe vou mostrar hoje provavelmente nunca ficarão claras. Mas também não são para ser claras. Portanto, não fique constrangido nem desencorajado. Todos nós somos criaturas burras quando entramos para o mundo da feitiçaria, e ingressar nele não nos assegura, de forma alguma, que mudemos. Alguns de nós continuamos burros até o fim.

Gostei de ele se ter incluído entre os idiotas. Eu sabia que ele não o fazia por bondade, e sim como um expediente didático.

— Não se apoquente se você não conseguir fazer sentido do que lhe vou dizer — continuou ele. — Considerando seu tempera-mento, receio que você possa esgotar-se, tentando compreender. Não faça isso! O que vou dizer só pretende mostrar uma direção.

Tive uma apreensão súbita. As recomendações de Dom Juan me levavam a conjeturas infindáveis. Ele já me prevenira em outras ocasiões, de modo muito parecido e, cada vez que o fizera, aquilo sobre o que me prevenira se revelava uma questão arrasadora.

— Fico muito nervoso quando você fala assim — disse eu.

— Eu sei — respondeu ele calmamente, — Estou procurando propositadamente fazê-lo ficar alerta. Preciso de sua atenção, sua atenção total.

Parou e olhou para mim. Ri nervosamente e sem querer. Eu sabia que ele estava exagerando as possibilidades dramáticas da situação ao máximo.

— Não lhe estou dizendo isso para produzir um efeito — disse ele, como se lesse meus pensamentos. — Estou simplesmente dando-lhe tempo para fazer os ajustes necessários.

Naquele momento, o garçom parou à nossa mesa para comunicar que não tinham o prato pedido. Dom Juan riu alto e pediu tortillas e feijão. O garçom riu-se desdenhosamente e disse que não serviam aquilo e sugeriu bife ou galinha. Acabamos pedindo sopa.

Comemos calados. Não gostei da sopa e não consegui acabá-la, mas Dom Juan comeu toda a dele.

— Vesti meu terno — disse ele, de repente — para contar-lhe uma coisa, algo que você já conhece, mas que precisa ser esclarecido para poder ser eficaz. Esperei até agora porque Genaro acha que você deve estar não somente disposto a seguir o caminho do conhecimento, mas que seus esforços era si devem ser suficientemente impecáveis a ponto de torná-lo digno de seu conhecimento. Você se saiu bem. Agora vou contar-lhe a explicação dos feiticeiros.

Ele tomou a parar, esfregou as faces e brincou com a língua dentro da boca, como se estivesse sentindo os dentes.

— Vou contar-lhe sobre o tonal e o nagual — disse ele, olhando para mim de modo penetrante.

Era a primeira vez em nosso relacionamento que ele usava aqueles dois termos. Eu os conhecia vagamente da literatura antropológica sobre as culturas do México central. Sabia que o tonal devia ser uma espécie de espírito de guarda, geralmente um animal, que uma criança adquiria ao nascer e com o qual ela tinha ligações íntimas pelo resto da vida. O nagual (pronuncia-se naual) era o nome dado ao animal cm que os feiticeiros supostamente podem transformar-se, ou ao feiticeiro que provoca tal transformação.

— Este é o meu tonal — disse Dom Juan, esfregando as mãos no peito.

— O seu terno?

— Não. A minha pessoa.

Ele bateu no peito e nas coxas e nos lados das costelas.

— Meu tonal é tudo isso.

Explicou que todos os seres humanos têm dois lados, duas entidades separadas, dois complementos que começaram a funcionar na hora do nascimento: uma chama-se tonai e a outra nagual.

Eu lhe disse o que os antropólogos sabiam sobre esses dois conceitos.

Ele me deixou falar sem interromper.

— Pois bem, seja o que for que pensa que sabe a respeito deles é tolice pura — disse ele. — Baseio essa declaração sobre o fato de que tudo o que eu lhe estou contando sobre o tonai e o nagual não lhe poderia ter sido contado antes. Qualquer pateta veria logo que você nada sabe a respeito, pois, para ter conhecimento deles, você teria de ser feiticeiro, e você não o é. Ou teria tido de conversar a respeito com um feiticeiro, e não o fez. Portanto, esqueça tudo o que já ouviu dizer, pois não se aplica.

— Foi apenas um comentário — disse eu.

Ele ergueu as sobrancelhas num gesto cômico.

— Seus comentários estão fora de ordem. Dessa vez preciso de toda a sua atenção, pois vou instruí-lo sobre o tonai e o nagual. Os feiticeiros têm um interesse especial e único nesse conhecimento. Eu diria que o tonal e o nagual estão no domínio exclusivo do homens de conhecimento. No seu caso, essa é a tampa que fecha tudo quanto lhe ensinei. Assim, esperei até agora para falar sobre isso. O tonal não é um animal que guarda uma pessoa. Eu diria, antes, que é um guardião que poderia ser representado como um animal. Mas não é isso o importante.

Ele sorriu e me piscou o olho.

— Agora estou usando suas palavras — disse ele. — O tonal é a pessoa social.

Ele se riu, imagino que devido ao meu espanto. E prosseguiu.

— O tonal é, de direito, um protetor, um guardião; um guardião que geralmente se transforma num guarda.

Remexi no caderno. Estava tentando prestar atenção ao que ele dizia.

Ele riu e imitou meus movimentos nervosos.

— O tonal é o organizador do mundo — continuou. — Talvez o melhor meio de descrever seu trabalho monumental seja dizer que sobre os seus ombros repousa o trabalho de dar ordem ao caos do mundo. Não é exagero afirmar, como dizem os feiticeiros, que tudo quanto sabemos e fazemos como homens é obra do tonal. Neste momento, por exemplo, aquilo que está empenhado em fazer sentido dessa nossa conversa é o seu tonal: sem ele só haveria sons estranhos e caretas e você nada compreenderia do que estou falando. Eu diria então que o tonal é um guardião que protege algo de precioso, o nosso próprio ser. Portanto, uma qualidade inerente do tonal é ser astucioso e zeloso do que faz. E como seus atos são de longe a parte mais importante de nossas vidas, não admira que no fim ele se transforme, em todos nós, de guardião em guarda.

Ele parou e perguntou se eu tinha entendido. Meneei a cabeça afirmativamente, automaticamente, e ele sorriu com um ar de incredulidade.

— Um guardião tem vistas largas e é compreensivo — explicou ele. — Um guarda, ao contrário, é vigilante, intolerante e, a maior parte do tempo, despótico. Digo, pois, que o tonal em todos nós foi transformado num guarda mesquinho e despótico, quando deveria ser um guardião de larga visão. Eu positivamente não estava acompanhando o rumo da explicação dele. Escutava e anotava todas as palavras que ele dizia, e, no entanto parecia estar atrapalhado com algum diálogo interno meu particular.

— É muito difícil para mim acompanhar seu raciocínio — disse eu.

— Se você não tivesse a mania de falar consigo mesmo, não teria problemas. — Seu tom era mordaz.

O comentário dele levou-me a uma longa explicação. Por fim, controlei-me e pedi desculpas por minha insistência em me defender.

Ele sorriu e fez um gesto que parecia mostrar que minha atitude não o aborrecera de fato.

— O tonal é tudo o que somos — prosseguiu ele. — Qualquer coisa, Tudo que tem um nome é o tonal. E como o tonal é seus próprios atos, então tudo, obviamente, terá de cair sob seu domínio.

Lembrei-lhe que ele dissera que o tonal era a pessoa social, termo que eu mesmo usara com ele para indicar um ser humano como produto final dos processos de socialização. Indiquei que se o tonal era esse produto, não podia ser tudo, como ele dissera, pois o mundo que nos rodeia não é produto da socialização.

Dom Juan lembrou-me que meu argumento não tinha bases, para ele, e que muito antes ele já chegara à conclusão de que não existia o mundo em geral, mas apenas uma descrição do mundo que tínhamos aprendido a visualizar e aceitar como certa.

— O tonal é tudo o que conhecemos — disse ele. — Creio que isso em si já é motivo suficiente para o tonal ser um assunto tão dominante.

Parou um instante. Parecia estar positivamente esperando comentários ou perguntas, mas eu nada. tinha a dizer. No entanto, sentia-me obrigado a fazer uma pergunta e esforcei-me por formular uma que fosse adequada. Não consegui. Senti que as advertências com que ele iniciara nossa conversa talvez tivessem servido como freio a qualquer indagação de minha parte. Eu me sentia estranhamente dormente, Não conseguia concentrar nem ordenar meus pensamentos. De fato eu sentia e sabia, sem sombra de dúvida, que era incapaz de pensar e no entanto eu sabia disso sem pensar, se é que isso era de todo possível.

Virei-me para Dom Juan. Ele estava olhando para a parte do meio de meu corpo. Ergueu os olhos e minha lucidez de espírito voltou instantaneamente.

— O tonal é tudo o que sabemos — repetiu ele devagar. — E inclui não apenas nós, como pessoas, mas tudo em nosso mundo. Pode-se dizer que o tonal é tudo o que aparece à vista. Começamos a cultivá-lo no momento do nascimento. No momento em que aspiramos nossa primeira golfada de ar também aspiramos o poder para o tonal. Assim, é válido dizer que o tonal de um ser humano está intimamente ligado a seu nascimento. É preciso lembrar esse ponto. É de grande importância para se compreender tudo isso. O tonal começa no nascimento e termina com a morte.

Eu queria recapitular todos os pontos que ele frisara. Cheguei a abrir a boca para pedir-lhe que repetisse os pontos principais de nossa conversa, mas, para meu espanto, não consegui pronunciar minhas palavras. Eu estava sofrendo de uma incapacidade muito curiosa, minhas palavras eram. arrastadas e eu não conseguia controlar essa sensação.

Olhei para Dom Juan para indicar-lhe que eu não podia falar. Ele estava olhando de novo para a região da minha barriga. Ele ergueu os olhos e perguntou-me o que eu estava sentindo. As palavras jorraram de mim como se me tivessem desarrolhado. Eu disse a ele que tinha tido a sensação esquisita de não conseguir falar nem pensar, e no entanto meus pensamentos tinham uma clareza cristalina.

— Seus pensamentos tinham uma clareza cristalina? — perguntou ele.

Percebi então que a clareza não pertencia a meus pensamentos e sim à minha percepção do mundo.

— Está-me fazendo alguma coisa, Dom Juan? — perguntei.

— Estou procurando convencê-lo de Que seus comentários não são necessários — disse ele, e riu-se.

— Quer dizer que não quer que eu faça perguntas?

— Não, não. Pode perguntar o que quiser, mas não se distraia. Tive de confessar que eu ficara distraído com a vastidão do assunto.

— Ainda não consigo entender, Dom Juan, o que você quer dizer com a expressão “o tonal é tudo” — disse eu, depois de uma pausa.

— O tonal é o que faz o mundo.

— O tonal é o criador do mundo? Dom Juan coçou as têmporas.

— O tonal só faz o mundo num modo de dizer. Não pode criar nem modificar coisa alguma, e no entanto faz o mundo porque sua função é julgar e avaliar e testemunhar. Digo que o tonal faz o mundo porque testemunha e o avalia de acordo com as regras do tonal. De um modo muito estranho, o tonal é um criador que nada cria. Em outras palavras, o tonal faz as regras pelas quais apreende o mundo. Assim, de certo modo, cria o mundo.

Ele cantarolou uma canção popular, marcando o compasso com os dedos no lado da cadeira. Seus olhos brilhavam: pareciam reluzir. Ele se riu, sacudindo a cabeça.

— Você não me está acompanhando — disse, ainda sorrindo.

— Estou. Não tenho problemas — disse eu, mas não soei muito convincente

— O tonal é uma ilha — explicou ele. — O melhor meio de descrevê-lo é dizer que o tonal é isto. — Passou a mão por cima da mesa. — Podemos dizer que o tonal é como o tampo desta mesa. Uma ilha. E nesta ilha temos tudo. Esta ilha, de fato, é o mundo. Existe um tonal pessoal para cada um de nós, e existe um coletivo para todos nós em dado momento, que podemos chamar de tonal dos tempos. — Ele apontou para as fileiras das mesas no restaurante. — Olhe! Todas as mesas têm a mesma conformação. Há certos itens que estão presentes em todas elas. No entanto, elas são individualmente diferentes umas das outras; algumas estão mais cheias do que outras; sobre elas ha alimentos diferentes, pratos diferentes, um ambiente diferente, e no entanto temos de admitir que todas as mesas deste restaurante são muito parecidas. O mesmo sucede com o tonal. Podemos dizer que o tonal dos tempos é o que nos torna iguais, a todos, do mesmo modo que torna iguais todas as mesas deste restaurante. Não obstante, cada mesa separadamente é um caso individual, tal como o tonal pessoal de cada um de nós. Mas o importante a manter em mente é que tudo o que sabemos a respeito de nós mesmos e do nosso mundo está na ilha do tonal. Entende o que eu digo?

— Se o tonal é tudo o que sabemos sobre nós e nosso mundo, então o que é o nagual

— O nagual é a parte de nós com a qual não lidamos de todo.

— Como?

— O nagual é a parte de nós para a qual não existe descrição — nem palavras, nem nomes, nem sensações, nem conhecimento.

— Isso é uma contradição, Dom Juan. Em minha opinião, se não pode ser sentido nem descrito nem mencionado, não pode existir.

— Só é uma contradição em sua opinião. Já lhe avisei, não se acabe procurando compreender isso.

— Você diria que o nagual é a mente?

— Não. A mente é um item na mesa. A mente é parte do tonal. Digamos que a mente é o molho picante.

Ele pegou um vidro do molho e colocou-o em minha frente.

— O nagual é a alma?

— Não. A alma também está sobre a mesa. Digamos que a alma é o cinzeiro.

— É os pensamentos dos homens?

— Não. Os pensamentos também estão sobre a mesa. Os pensamentos são os talheres.

Ele pegou um garfo e colocou-o ao lado do molho picante e do cinzeiro.

— É um estado de graça? O céu?

— Nem isso, tampouco. Isso, seja o que for também, faz parte do tonal. Digamos que seja o guardanapo.

Continuei a dar possíveis meios de descrever aquilo a que ele se referia: intelecto puro, psique, energia, força vital, imortalidade, princípio da vida. Para cada item ele encontrava um objeto na mesa para servir de modelo e o empurrava para a minha frente, até ter todos os objetos da mesa empilhados.

Dom Juan parecia estar divertindo-se imensamente. Dava risadas e esfregava as mãos cada vez que eu sugeria uma nova possibilidade.

— Será o nagual o Ser Supremo, o Todo-Poderoso, Deus? — perguntei.

— Não. Deus também está na mesa. Digamos que Deus seja a toalha de mesa.

Ele fez um gesto brincalhão de puxar a toalha de mesa para empilhá-la junto com o resto das coisas que colocara na minha frente.

— Mas você está dizendo que Deus não existe?

— Não. Não disse isso. Só disse que o nagual não é Deus, porque Deus é parte do nosso tonal pessoal e do tonal dos tempos. O tonal, como já disse, é tudo o que pensamos que compõe o mundo, inclusive Deus, é claro. Deus não tem outra importância a não ser a de ser parte do tonal de nosso tempo.

— Ao meu ver, Dom Juan, Deus é tudo. Não estamos falando da mesma coisa?

— Não. Deus é apenas tudo em que você pode pensar, e portanto, a bem dizer, é apenas mais um artigo na ilha. Deus não pode ser visto à vontade, só pode ser mencionado. O nagual, ao contrário, está às ordens do guerreiro. Pode ser visto, mas não pode ser mencionado.

— Se o nagual não é nenhuma dessas coisas que mencionei, talvez você me possa falar sobre sua localização. Onde fica?

Dom Juan fez um gesto vasto e apontou para o lugar além dos limites da mesa. Fez um movimento de varrer com a mão, como se com as costas da mão estivesse limpando uma superfície imaginária que ia além das bordas da mesa.

— O nagual está ali — disse ele. — Ali, rodeando a ilha. O nagual está ali, onde paira o poder. Sentimos, desde o momento em que nascemos que existem duas partes em nós. No momento do nascimento, e durante algum tempo depois, somos todos nagual Depois sentimos que, a fim de funcionar, precisamos de um complemento ao que temos. Falta o tonal e isso nos dá, desde o início, uma sensação de deficiência. Aí o tonal começa a desenvolverse e torna-se muito importante para o nosso funcionamento, tão importante que ofusca o brilho do nagual, dominando-o. Desde o momento em que nos tornamos completamente tonal, não fazemos outra coisa senão incrementar aquele antigo sentimento de deficiência que nos acompanha desde o momento de nosso nascimento, é que nos diz incessantemente que há uma outra parte para completar-nos. Desde o momento em que nos tomamos completamente tonai, começamos a fazer pares. Sentimos nossos dois lados, mas sempre os representamos com elementos do tonal. Dizemos que nossas duas partes são a alma e o corpo. Ou o espírito e a matéria. Ou o bem e o mal. Deus e Satanás. Nunca compreendemos, porém, que estamos apenas juntando as coisas na ilha, assim como se junta café e chá, ou pão e tortillas, ou chili e mostarda. Estou-lhe dizendo, somos uns bichos estranhos. Somos transportados e em nossa loucura acreditamos que estamos fazendo sentido.

Dom Juan levantou-se e dirigiu-se a mim como se ele fosse um orador. Apontou o indicador para mim e fez sua cabeça tremer.

— O homem não se movimenta entre o bem e o mal — disse ele, num tom de uma retórica hilariante, agarrando o saleiro e pimenteira com ambas as mãos. — O seu verdadeiro movimento é entre o negativo e o positivo. Ele largou o saleiro e pimenteira e segurou uma faca e um garfo.

— Você está enganado! Não existe o movimento — continuou, como se estivesse respondendo a si mesmo. — O homem é apenas o espírito! Ele pegou o vidro de molho e levantou-o. Depois largou-o.

— Como pode ver — disse ele baixinho —, podemos facilmente substituir o molho picante pelo espírito e acabar dizendo; “O homem é apenas o molho picante!” Fazer isso não nos tornará mais dementes do que já somos.

— Receio não ter formulado a pergunta certa — disse eu. — Talvez pudéssemos chegar a uma compreensão melhor se eu perguntasse o que é que se pode encontrar especificamente naquela área além da ilha?

— Não há meio de responder a isso. Se eu dissesse “nada”, eu só tornaria o nagual parte do tonal. O que posso dizer é que lá, além da ilha, se encontra o nagual.

— Mas quando chama a isso de nagual, também não o está colocando na ilha?

— Não. Só lhe dei nome porque queria que você tomasse conhecimento dele.

— Muito bem!Mas tomar conhecimento dele é o passo que torna o nagual um novo artigo do meu tonal.

— Receio que você não entenda. Mencionei o tonal e o nagual como um par verdadeiro. Foi só isso que fiz.

Ele me lembrou que um dia, quando eu lhe estava tentando explicar minha insistência sobre o significado, eu discutira a idéia de que as crianças podiam não ser capazes de compreender a diferença entre pai e mãe até estarem bem desenvolvidas em termos de lidar com os significados, e que talvez acreditassem que pai usa calças e mãe usa saía, ou outras diferenças em matéria de penteado, ou tamanho de corpo ou artigos de roupas.

— Nós certamente fazemos a mesma coisa com as duas partes de nós — disse ele. — Sentimos que existe um outro lado em nós. Mas quando queremos precisar esse lado, o tonal apodera-se da batuta e, como maestro, é muito mesquinho e zeloso. Ofusca-nos com sua esperteza e nos obriga a obliterar o mais leve vislumbre da outra parte do verdadeiro par, o nagual.

— Ainda estou de terno porque quero dizer-lhe uma coisa muito importante — disse ele, dando-me um tapinha no ombro. — Você ontem teve uma boa atuação. Agora é o momento de chegar a uns acordos finais. Fez uma pausa prolongada. Parecia estar preparando uma declaração. Eu estava com uma sensação estranha no estômago. Minha primeira idéia foi de que ele me ia contar a explicação dos feiticeiros. Levantou-se umas duas vezes e passeou de um lado para outro, em minha frente, como se fosse difícil exprimir o que tinha em mente.

— Vamos ao restaurante do outro lado da rua para comer alguma coisa — disse por fim.

Desdobrou o paletó e, antes de vesti-lo, mostrou-me que era todo forrado.

— Foi feito sob medida. — Sorriu, como se se orgulhasse, como se aquilo fosse importante. — Tenho de chamar a sua atenção para isso, senão você não repararia, e é muito importante você re-parar. Você só repara nas coisas quando acha que deve; a condição de um guerreiro, porém, é reparar em tudo sempre. Meu terno e toda essa parafernália são importantes porque representam minha situação na vida. Ou melhor, a situação de uma das duas partes da minha totalidade. Esta conversa já estava tardando. Acho que agora é o momento oportuno. Mas tem de ser conduzida direito, senão nunca fará sentido. Eu quis que meu terno lhe desse a primeira pista. Acho que o consegui. Agora é o momento de falar, pois em assuntos dessa natureza não há um entendimento completo sem se falar.

— Qual é o assunto, Dom Juan?

— A totalidade do ser.

Ele se levantou de repente e levou-me para o restaurante de um grande hotel do outro lado da rua. Uma recepcionista meio antipática conduziu-nos a uma mesa lá dentro num canto dos fundos. Evidentemente os melhores lugares eram junto das janelas.

Eu disse a Dom Juan que a mulher me fazia lembrar de outra garçonete num restaurante em Arizona, onde Dom Juan e eu um dia tínhamos comido, que nos perguntara, antes de nos dar o menu, se tínhamos dinheiro para pagar a conta.

— Não culpo essa coitada, tampouco — disse Dom Juan, como se compreendesse a atitude dela. — Ela, como a outra, tem medo dos mexicanos.

Ele riu baixinho. Algumas pessoas das mesas vizinhas se viraram para olhar para nós.

Dom Juan disse que, sem saber, ou talvez mesmo contra a vontade, a moça nos dera a melhor mesa do lugar, uma mesa em que podíamos conversar e eu podia escrever à vontade.

Eu tinha acabado de pegar o bloco do bolso, colocando-o sobre a mesa, quando de repente um garçom apareceu diante de nós. Também ele parecia de mau humor. Ficou ali de pé, com um ar de desafio.

Dom Juan passou a fazer um pedido muito complicado. Pediu sem olhar para o menu, como se o conhecesse de cor. Eu nada estava entendendo; o garçom aparecera de repente c eu não tinha tido tempo para ler o menu, de modo que lhe disse que queria o mesmo que Dom Juan. Dom Juan cochichou em meu ouvido:

— Aposto que eles não têm o que pedi.

Ele esticou os braços e pernas e me disse para me acalmar e ficar confortável porque iam levar muito tempo para preparar a refeição.

— Você está numa encruzilhada muito emocionante — disse ele. — Talvez seja a última, e também talvez a mais difícil de entender. Algumas das coisas que lhe vou mostrar hoje provavelmente nunca ficarão claras. Mas também não são para ser claras. Portanto, não fique constrangido nem desencorajado. Todos nós somos criaturas burras quando entramos para o mundo da feitiçaria, e ingressar nele não nos assegura, de forma alguma, que mudemos. Alguns de nós continuamos burros até o fim.

Gostei de ele se ter incluído entre os idiotas. Eu sabia que ele não o fazia por bondade, e sim como um expediente didático.

— Não se apoquente se você não conseguir fazer sentido do que lhe vou dizer — continuou ele. — Considerando seu tempera-mento, receio que você possa esgotar-se, tentando compreender. Não faça isso! O que vou dizer só pretende mostrar uma direção.

Tive uma apreensão súbita. As recomendações de Dom Juan me levavam a conjeturas infindáveis. Ele já me prevenira em outras ocasiões, de modo muito parecido e, cada vez que o fizera, aquilo sobre o que me prevenira se revelava uma questão arrasadora.

— Fico muito nervoso quando você fala assim — disse eu.

— Eu sei — respondeu ele calmamente, — Estou procurando propositadamente fazê-lo ficar alerta. Preciso de sua atenção, sua atenção total.

Parou e olhou para mim. Ri nervosamente e sem querer. Eu sabia que ele estava exagerando as possibilidades dramáticas da situação ao máximo.

— Não lhe estou dizendo isso para produzir um efeito — disse ele, como se lesse meus pensamentos. — Estou simplesmente dando-lhe tempo para fazer os ajustes necessários.

Naquele momento, o garçom parou à nossa mesa para comunicar que não tinham o prato pedido. Dom Juan riu alto e pediu tortillas e feijão. O garçom riu-se desdenhosamente e disse que não serviam aquilo e sugeriu bife ou galinha. Acabamos pedindo sopa.

Comemos calados. Não gostei da sopa e não consegui acabá-la, mas Dom Juan comeu toda a dele.

— Vesti meu terno — disse ele, de repente — para contar-lhe uma coisa, algo que você já conhece, mas que precisa ser esclarecido para poder ser eficaz. Esperei até agora porque Genaro acha que você deve estar não somente disposto a seguir o caminho do conhecimento, mas que seus esforços era si devem ser suficientemente impecáveis a ponto de torná-lo digno de seu conhecimento. Você se saiu bem. Agora vou contar-lhe a explicação dos feiticeiros.

Ele tomou a parar, esfregou as faces e brincou com a língua dentro da boca, como se estivesse sentindo os dentes.

— Vou contar-lhe sobre o tonal e o nagual — disse ele, olhando para mim de modo penetrante.

Era a primeira vez em nosso relacionamento que ele usava aqueles dois termos. Eu os conhecia vagamente da literatura antropológica sobre as culturas do México central. Sabia que o tonal devia ser uma espécie de espírito de guarda, geralmente um animal, que uma criança adquiria ao nascer e com o qual ela tinha ligações íntimas pelo resto da vida. O nagual (pronuncia-se naual) era o nome dado ao animal cm que os feiticeiros supostamente podem transformar-se, ou ao feiticeiro que provoca tal transformação.

— Este é o meu tonal — disse Dom Juan, esfregando as mãos no peito.

— O seu terno?

— Não. A minha pessoa.

Ele bateu no peito e nas coxas e nos lados das costelas.

— Meu tonal é tudo isso.

Explicou que todos os seres humanos têm dois lados, duas entidades separadas, dois complementos que começaram a funcionar na hora do nascimento: uma chama-se tonai e a outra nagual.

Eu lhe disse o que os antropólogos sabiam sobre esses dois conceitos.

Ele me deixou falar sem interromper.

— Pois bem, seja o que for que pensa que sabe a respeito deles é tolice pura — disse ele. — Baseio essa declaração sobre o fato de que tudo o que eu lhe estou contando sobre o tonai e o nagual não lhe poderia ter sido contado antes. Qualquer pateta veria logo que você nada sabe a respeito, pois, para ter conhecimento deles, você teria de ser feiticeiro, e você não o é. Ou teria tido de conversar a respeito com um feiticeiro, e não o fez. Portanto, esqueça tudo o que já ouviu dizer, pois não se aplica.

— Foi apenas um comentário — disse eu.

Ele ergueu as sobrancelhas num gesto cômico.

— Seus comentários estão fora de ordem. Dessa vez preciso de toda a sua atenção, pois vou instruí-lo sobre o tonai e o nagual. Os feiticeiros têm um interesse especial e único nesse conhecimento. Eu diria que o tonal e o nagual estão no domínio exclusivo do homens de conhecimento. No seu caso, essa é a tampa que fecha tudo quanto lhe ensinei. Assim, esperei até agora para falar sobre isso. O tonal não é um animal que guarda uma pessoa. Eu diria, antes, que é um guardião que poderia ser representado como um animal. Mas não é isso o importante.

Ele sorriu e me piscou o olho.

— Agora estou usando suas palavras — disse ele. — O tonal é a pessoa social.

Ele se riu, imagino que devido ao meu espanto. E prosseguiu.

— O tonal é, de direito, um protetor, um guardião; um guardião que geralmente se transforma num guarda.

Remexi no caderno. Estava tentando prestar atenção ao que ele dizia.

Ele riu e imitou meus movimentos nervosos.

— O tonal é o organizador do mundo — continuou. — Talvez o melhor meio de descrever seu trabalho monumental seja dizer que sobre os seus ombros repousa o trabalho de dar ordem ao caos do mundo. Não é exagero afirmar, como dizem os feiticeiros, que tudo quanto sabemos e fazemos como homens é obra do tonal. Neste momento, por exemplo, aquilo que está empenhado em fazer sentido dessa nossa conversa é o seu tonal: sem ele só haveria sons estranhos e caretas e você nada compreenderia do que estou falando. Eu diria então que o tonal é um guardião que protege algo de precioso, o nosso próprio ser. Portanto, uma qualidade inerente do tonal é ser astucioso e zeloso do que faz. E como seus atos são de longe a parte mais importante de nossas vidas, não admira que no fim ele se transforme, em todos nós, de guardião em guarda.

Ele parou e perguntou se eu tinha entendido. Meneei a cabeça afirmativamente, automaticamente, e ele sorriu com um ar de incredulidade.

— Um guardião tem vistas largas e é compreensivo — explicou ele. — Um guarda, ao contrário, é vigilante, intolerante e, a maior parte do tempo, despótico. Digo, pois, que o tonal em todos nós foi transformado num guarda mesquinho e despótico, quando deveria ser um guardião de larga visão. Eu positivamente não estava acompanhando o rumo da explicação dele. Escutava e anotava todas as palavras que ele dizia, e, no entanto parecia estar atrapalhado com algum diálogo interno meu particular.

— É muito difícil para mim acompanhar seu raciocínio — disse eu.

— Se você não tivesse a mania de falar consigo mesmo, não teria problemas. — Seu tom era mordaz.

O comentário dele levou-me a uma longa explicação. Por fim, controlei-me e pedi desculpas por minha insistência em me defender.

Ele sorriu e fez um gesto que parecia mostrar que minha atitude não o aborrecera de fato.

— O tonal é tudo o que somos — prosseguiu ele. — Qualquer coisa, Tudo que tem um nome é o tonal. E como o tonal é seus próprios atos, então tudo, obviamente, terá de cair sob seu domínio.

Lembrei-lhe que ele dissera que o tonal era a pessoa social, termo que eu mesmo usara com ele para indicar um ser humano como produto final dos processos de socialização. Indiquei que se o tonal era esse produto, não podia ser tudo, como ele dissera, pois o mundo que nos rodeia não é produto da socialização.

Dom Juan lembrou-me que meu argumento não tinha bases, para ele, e que muito antes ele já chegara à conclusão de que não existia o mundo em geral, mas apenas uma descrição do mundo que tínhamos aprendido a visualizar e aceitar como certa.

— O tonal é tudo o que conhecemos — disse ele. — Creio que isso em si já é motivo suficiente para o tonal ser um assunto tão dominante.

Parou um instante. Parecia estar positivamente esperando comentários ou perguntas, mas eu nada. tinha a dizer. No entanto, sentia-me obrigado a fazer uma pergunta e esforcei-me por formular uma que fosse adequada. Não consegui. Senti que as advertências com que ele iniciara nossa conversa talvez tivessem servido como freio a qualquer indagação de minha parte. Eu me sentia estranhamente dormente, Não conseguia concentrar nem ordenar meus pensamentos. De fato eu sentia e sabia, sem sombra de dúvida, que era incapaz de pensar e no entanto eu sabia disso sem pensar, se é que isso era de todo possível.

Virei-me para Dom Juan. Ele estava olhando para a parte do meio de meu corpo. Ergueu os olhos e minha lucidez de espírito voltou instantaneamente.

— O tonal é tudo o que sabemos — repetiu ele devagar. — E inclui não apenas nós, como pessoas, mas tudo em nosso mundo. Pode-se dizer que o tonal é tudo o que aparece à vista. Começamos a cultivá-lo no momento do nascimento. No momento em que aspiramos nossa primeira golfada de ar também aspiramos o poder para o tonal. Assim, é válido dizer que o tonal de um ser humano está intimamente ligado a seu nascimento. É preciso lembrar esse ponto. É de grande importância para se compreender tudo isso. O tonal começa no nascimento e termina com a morte.

Eu queria recapitular todos os pontos que ele frisara. Cheguei a abrir a boca para pedir-lhe que repetisse os pontos principais de nossa conversa, mas, para meu espanto, não consegui pronunciar minhas palavras. Eu estava sofrendo de uma incapacidade muito curiosa, minhas palavras eram. arrastadas e eu não conseguia controlar essa sensação.

Olhei para Dom Juan para indicar-lhe que eu não podia falar. Ele estava olhando de novo para a região da minha barriga. Ele ergueu os olhos e perguntou-me o que eu estava sentindo. As palavras jorraram de mim como se me tivessem desarrolhado. Eu disse a ele que tinha tido a sensação esquisita de não conseguir falar nem pensar, e no entanto meus pensamentos tinham uma clareza cristalina.

— Seus pensamentos tinham uma clareza cristalina? — perguntou ele.

Percebi então que a clareza não pertencia a meus pensamentos e sim à minha percepção do mundo.

— Está-me fazendo alguma coisa, Dom Juan? — perguntei.

— Estou procurando convencê-lo de Que seus comentários não são necessários — disse ele, e riu-se.

— Quer dizer que não quer que eu faça perguntas?

— Não, não. Pode perguntar o que quiser, mas não se distraia. Tive de confessar que eu ficara distraído com a vastidão do assunto.

— Ainda não consigo entender, Dom Juan, o que você quer dizer com a expressão “o tonal é tudo” — disse eu, depois de uma pausa.

— O tonal é o que faz o mundo.

— O tonal é o criador do mundo? Dom Juan coçou as têmporas.

— O tonal só faz o mundo num modo de dizer. Não pode criar nem modificar coisa alguma, e no entanto faz o mundo porque sua função é julgar e avaliar e testemunhar. Digo que o tonal faz o mundo porque testemunha e o avalia de acordo com as regras do tonal. De um modo muito estranho, o tonal é um criador que nada cria. Em outras palavras, o tonal faz as regras pelas quais apreende o mundo. Assim, de certo modo, cria o mundo.

Ele cantarolou uma canção popular, marcando o compasso com os dedos no lado da cadeira. Seus olhos brilhavam: pareciam reluzir. Ele se riu, sacudindo a cabeça.

— Você não me está acompanhando — disse, ainda sorrindo.

— Estou. Não tenho problemas — disse eu, mas não soei muito convincente

— O tonal é uma ilha — explicou ele. — O melhor meio de descrevê-lo é dizer que o tonal é isto. — Passou a mão por cima da mesa. — Podemos dizer que o tonal é como o tampo desta mesa. Uma ilha. E nesta ilha temos tudo. Esta ilha, de fato, é o mundo. Existe um tonal pessoal para cada um de nós, e existe um coletivo para todos nós em dado momento, que podemos chamar de tonal dos tempos. — Ele apontou para as fileiras das mesas no restaurante. — Olhe! Todas as mesas têm a mesma conformação. Há certos itens que estão presentes em todas elas. No entanto, elas são individualmente diferentes umas das outras; algumas estão mais cheias do que outras; sobre elas ha alimentos diferentes, pratos deferentes, um ambiente diferente, e no entanto temos de admitir que todas as mesas deste restaurante são muito parecidas. O mesmo sucede com o tonal. Podemos dizer que o tonal dos tempos é o que nos torna iguais, a todos, do mesmo modo que torna iguais todas as mesas deste restaurante. Não obstante, cada mesa separadamente é um caso individual, tal como o tonal pessoal de cada um de nós. Mas o importante a manter em mente é que tudo o que sabemos a respeito de nós mesmos e do nosso mundo está na ilha do tonal. Entende o que eu digo?

— Se o tonal é tudo o que sabemos sobre nós e nosso mundo, então o que é o nagual

— O nagual é a parte de nós com a qual não lidamos de todo.

— Como?

— O nagual é a parte de nós para a qual não existe descrição — nem palavras, nem nomes, nem sensações, nem conhecimento.

— Isso é uma contradição, Dom Juan. Em minha opinião, se não pode ser sentido nem descrito nem mencionado, não pode existir.

— Só é uma contradição em sua opinião. Já lhe avisei, não se acabe procurando compreender isso.

— Você diria que o nagual é a mente?

— Não. A mente é um item na mesa. A mente é parte do tonal. Digamos que a mente é o molho picante.

Ele pegou um vidro do molho e colocou-o em minha frente.

— O nagual é a alma?

— Não. A alma também está sobre a mesa. Digamos que a alma é o cinzeiro.

— É os pensamentos dos homens?

— Não. Os pensamentos também estão sobre a mesa. Os pensamentos são os talheres.

Ele pegou um garfo e colocou-o ao lado do molho picante e do cinzeiro.

— É um estado de graça? O céu?

— Nem isso, tampouco. Isso, seja o que for também, faz parte do tonal. Digamos que seja o guardanapo.

Continuei a dar possíveis meios de descrever aquilo a que ele se referia: intelecto puro, psique, energia, força vital, imortalidade, princípio da vida. Para cada item ele encontrava um objeto na mesa para servir de modelo e o empurrava para a minha frente, até ter todos os objetos da mesa empilhados.

Dom Juan parecia estar divertindo-se imensamente. Dava risadas e esfregava as mãos cada vez que eu sugeria uma nova possibilidade.

— Será o nagual o Ser Supremo, o Todo-Poderoso, Deus? — perguntei.

— Não. Deus também está na mesa. Digamos que Deus seja a toalha de mesa.

Ele fez um gesto brincalhão de puxar a toalha de mesa para empilhá-la junto com o resto das coisas que colocara na minha frente.

— Mas você está dizendo que Deus não existe?

— Não. Não disse isso. Só disse que o nagual não é Deus, porque Deus é parte do nosso tonal pessoal e do tonal dos tempos. O tonal, como já disse, é tudo o que pensamos que compõe o mundo, inclusive Deus, é claro. Deus não tem outra importância a não ser a de ser parte do tonal de nosso tempo.

— Ao meu ver, Dom Juan, Deus é tudo. Não estamos falando da mesma coisa?

— Não. Deus é apenas tudo em que você pode pensar, e portanto, a bem dizer, é apenas mais um artigo na ilha. Deus não pode ser visto à vontade, só pode ser mencionado. O nagual, ao contrário, está às ordens do guerreiro. Pode ser visto, mas não pode ser mencionado.

— Se o nagual não é nenhuma dessas coisas que mencionei, talvez você me possa falar sobre sua localização. Onde fica?

Dom Juan fez um gesto vasto e apontou para o lugar além dos limites da mesa. Fez um movimento de varrer com a mão, como se com as costas da mão estivesse limpando uma superfície imaginária que ia além das bordas da mesa.

— O nagual está ali — disse ele. — Ali, rodeando a ilha. O nagual está ali, onde paira o poder. Sentimos, desde o momento em que nascemos que existem duas partes em nós. No momento do nascimento, e durante algum tempo depois, somos todos nagual Depois sentimos que, a fim de funcionar, precisamos de um complemento ao que temos. Falta o tonal e isso nos dá, desde o início, uma sensação de deficiência. Aí o tonal começa a desenvolverse e torna-se muito importante para o nosso funcionamento, tão importante que ofusca o brilho do nagual, dominando-o. Desde o momento em que nos tornamos completamente tonal, não fazemos outra coisa senão incrementar aquele antigo sentimento de deficiência que nos acompanha desde o momento de nosso nascimento, é que nos diz incessantemente que há uma outra parte para completar-nos. Desde o momento em que nos tomamos completamente tonai, começamos a fazer pares. Sentimos nossos dois lados, mas sempre os representamos com elementos do tonal. Dizemos que nossas duas partes são a alma e o corpo. Ou o espírito e a matéria. Ou o bem e o mal. Deus e Satanás. Nunca compreendemos, porém, que estamos apenas juntando as coisas na ilha, assim como se junta café e chá, ou pão e tortillas, ou chili e mostarda. Estou-lhe dizendo, somos uns bichos estranhos. Somos transportados e em nossa loucura acreditamos que estamos fazendo sentido.

Dom Juan levantou-se e dirigiu-se a mim como se ele fosse um orador. Apontou o indicador para mim e fez sua cabeça tremer.

— O homem não se movimenta entre o bem e o mal — disse ele, num tom de uma retórica hilariante, agarrando o saleiro e pimenteira com ambas as mãos. — O seu verdadeiro movimento é entre o negativo e o positivo. Ele largou o saleiro e pimenteira e segurou uma faca e um garfo.

— Você está enganado! Não existe o movimento — continuou, como se estivesse respondendo a si mesmo. — O homem é apenas o espírito! Ele pegou o vidro de molho e levantou-o. Depois largou-o.

— Como pode ver — disse ele baixinho —, podemos facilmente substituir o molho picante pelo espírito e acabar dizendo; “O homem é apenas o molho picante!” Fazer isso não nos tornará mais dementes do que já somos.

— Receio não ter formulado a pergunta certa — disse eu. — Talvez pudéssemos chegar a uma compreensão melhor se eu perguntasse o que é que se pode encontrar especificamente naquela área além da ilha?

— Não há meio de responder a isso. Se eu dissesse “nada”, eu só tornaria o nagual parte do tonal. O que posso dizer é que lá, além da ilha, se encontra o nagual.

— Mas quando chama a isso de nagual, também não o está colocando na ilha?

— Não. Só lhe dei nome porque queria que você tomasse conhecimento dele.

— Muito bem!Mas tomar conhecimento dele é o passo que torna o nagual um novo artigo do meu tonal.

— Receio que você não entenda. Mencionei o tonal e o nagual como um par verdadeiro. Foi só isso que fiz.

Ele me lembrou que um dia, quando eu lhe estava tentando explicar minha insistência sobre o significado, eu discutira a idéia de que as crianças podiam não ser capazes de compreender a diferença entre pai e mãe até estarem bem desenvolvidas em termos de lidar com os significados, e que talvez acreditassem que pai usa calças e mãe usa saía, ou outras diferenças em matéria de penteado, ou tamanho de corpo ou artigos de roupas.

— Nós certamente fazemos a mesma coisa com as duas partes de nós — disse ele. — Sentimos que existe um outro lado em nós. Mas quando queremos precisar esse lado, o tonal apodera-se da batuta e, como maestro, é muito mesquinho e zeloso. Ofusca-nos com sua esperteza e nos obriga a obliterar o mais leve vislumbre da outra parte do verdadeiro par, o nagual.

— Ainda estou de terno porque quero dizer-lhe uma coisa muito importante — disse ele, dando-me um tapinha no ombro. — Você ontem teve uma boa atuação. Agora é o momento de chegar a uns acordos finais. Fez uma pausa prolongada. Parecia estar preparando uma declaração. Eu estava com uma sensação estranha no estômago. Minha primeira idéia foi de que ele me ia contar a explicação dos feiticeiros. Levantou-se umas duas vezes e passeou de um lado para outro, em minha frente, como se fosse difícil exprimir o que tinha em mente.

— Vamos ao restaurante do outro lado da rua para comer alguma coisa — disse por fim.

Desdobrou o paletó e, antes de vesti-lo, mostrou-me que era todo forrado.

— Foi feito sob medida. — Sorriu, como se se orgulhasse, como se aquilo fosse importante. — Tenho de chamar a sua atenção para isso, senão você não repararia, e é muito importante você re-parar. Você só repara nas coisas quando acha que deve; a condição de um guerreiro, porém, é reparar em tudo sempre. Meu terno e toda essa parafernália são importantes porque representam minha situação na vida. Ou melhor, a situação de uma das duas partes da minha totalidade. Esta conversa já estava tardando. Acho que agora é o momento oportuno. Mas tem de ser conduzida direito, senão nunca fará sentido. Eu quis que meu terno lhe desse a primeira pista. Acho que o consegui. Agora é o momento de falar, pois em assuntos dessa natureza não há um entendimento completo sem se falar.

— Qual é o assunto, Dom Juan?

— A totalidade do ser.

Ele se levantou de repente e levou-me para o restaurante de um grande hotel do outro lado da rua. Uma recepcionista meio antipática conduziu-nos a uma mesa lá dentro num canto dos fundos. Evidentemente os melhores lugares eram junto das janelas.

Eu disse a Dom Juan que a mulher me fazia lembrar de outra garçonete num restaurante em Arizona, onde Dom Juan e eu um dia tínhamos comido, que nos perguntara, antes de nos dar o menu, se tínhamos dinheiro para pagar a conta.

— Não culpo essa coitada, tampouco — disse Dom Juan, como se compreendesse a atitude dela. — Ela, como a outra, tem medo dos mexicanos.

Ele riu baixinho. Algumas pessoas das mesas vizinhas se viraram para olhar para nós.

Dom Juan disse que, sem saber, ou talvez mesmo contra a vontade, a moça nos dera a melhor mesa do lugar, uma mesa em que podíamos conversar e eu podia escrever à vontade.

Eu tinha acabado de pegar o bloco do bolso, colocando-o sobre a mesa, quando de repente um garçom apareceu diante de nós. Também ele parecia de mau humor. Ficou ali de pé, com um ar de desafio.

Dom Juan passou a fazer um pedido muito complicado. Pediu sem olhar para o menu, como se o conhecesse de cor. Eu nada estava entendendo; o garçom aparecera de repente c eu não tinha tido tempo para ler o menu, de modo que lhe disse que queria o mesmo que Dom Juan. Dom Juan cochichou em meu ouvido:

— Aposto que eles não têm o que pedi.

Ele esticou os braços e pernas e me disse para me acalmar e ficar confortável porque iam levar muito tempo para preparar a refeição.

— Você está numa encruzilhada muito emocionante — disse ele. — Talvez seja a última, e também talvez a mais difícil de entender. Algumas das coisas que lhe vou mostrar hoje provavelmente nunca ficarão claras. Mas também não são para ser claras. Portanto, não fique constrangido nem desencorajado. Todos nós somos criaturas burras quando entramos para o mundo da feitiçaria, e ingressar nele não nos assegura, de forma alguma, que mudemos. Alguns de nós continuamos burros até o fim.

Gostei de ele se ter incluído entre os idiotas. Eu sabia que ele não o fazia por bondade, e sim como um expediente didático.

— Não se apoquente se você não conseguir fazer sentido do que lhe vou dizer — continuou ele. — Considerando seu tempera-mento, receio que você possa esgotar-se, tentando compreender. Não faça isso! O que vou dizer só pretende mostrar uma direção.

Tive uma apreensão súbita. As recomendações de Dom Juan me levavam a conjeturas infindáveis. Ele já me prevenira em outras ocasiões, de modo muito parecido e, cada vez que o fizera, aquilo sobre o que me prevenira se revelava uma questão arrasadora.

— Fico muito nervoso quando você fala assim — disse eu.

— Eu sei — respondeu ele calmamente, — Estou procurando propositadamente fazê-lo ficar alerta. Preciso de sua atenção, sua atenção total.

Parou e olhou para mim. Ri nervosamente e sem querer. Eu sabia que ele estava exagerando as possibilidades dramáticas da situação ao máximo.

— Não lhe estou dizendo isso para produzir um efeito — disse ele, como se lesse meus pensamentos. — Estou simplesmente dando-lhe tempo para fazer os ajustes necessários.

Naquele momento, o garçom parou à nossa mesa para comunicar que não tinham o prato pedido. Dom Juan riu alto e pediu tortillas e feijão. O garçom riu-se desdenhosamente e disse que não serviam aquilo e sugeriu bife ou galinha. Acabamos pedindo sopa.

Comemos calados. Não gostei da sopa e não consegui acabá-la, mas Dom Juan comeu toda a dele.

— Vesti meu terno — disse ele, de repente — para contar-lhe uma coisa, algo que você já conhece, mas que precisa ser esclarecido para poder ser eficaz. Esperei até agora porque Genaro acha que você deve estar não somente disposto a seguir o caminho do conhecimento, mas que seus esforços era si devem ser suficientemente impecáveis a ponto de torná-lo digno de seu conhecimento. Você se saiu bem. Agora vou contar-lhe a explicação dos feiticeiros.

Ele tomou a parar, esfregou as faces e brincou com a língua dentro da boca, como se estivesse sentindo os dentes.

— Vou contar-lhe sobre o tonal e o nagual — disse ele, olhando para mim de modo penetrante.

Era a primeira vez em nosso relacionamento que ele usava aqueles dois termos. Eu os conhecia vagamente da literatura antropológica sobre as culturas do México central. Sabia que o tonal devia ser uma espécie de espírito de guarda, geralmente um animal, que uma criança adquiria ao nascer e com o qual ela tinha ligações íntimas pelo resto da vida. O nagual (pronuncia-se naual) era o nome dado ao animal cm que os feiticeiros supostamente podem transformar-se, ou ao feiticeiro que provoca tal transformação.

— Este é o meu tonal — disse Dom Juan, esfregando as mãos no peito.

— O seu terno?

— Não. A minha pessoa.

Ele bateu no peito e nas coxas e nos lados das costelas.

— Meu tonal é tudo isso.

Explicou que todos os seres humanos têm dois lados, duas entidades separadas, dois complementos que começaram a funcionar na hora do nascimento: uma chama-se tonai e a outra nagual.

Eu lhe disse o que os antropólogos sabiam sobre esses dois conceitos.

Ele me deixou falar sem interromper.

— Pois bem, seja o que for que pensa que sabe a respeito deles é tolice pura — disse ele. — Baseio essa declaração sobre o fato de que tudo o que eu lhe estou contando sobre o tonai e o nagual não lhe poderia ter sido contado antes. Qualquer pateta veria logo que você nada sabe a respeito, pois, para ter conhecimento deles, você teria de ser feiticeiro, e você não o é. Ou teria tido de conversar a respeito com um feiticeiro, e não o fez. Portanto, esqueça tudo o que já ouviu dizer, pois não se aplica.

— Foi apenas um comentário — disse eu.

Ele ergueu as sobrancelhas num gesto cômico.

— Seus comentários estão fora de ordem. Dessa vez preciso de toda a sua atenção, pois vou instruí-lo sobre o tonai e o nagual. Os feiticeiros têm um interesse especial e único nesse conhecimento. Eu diria que o tonal e o nagual estão no domínio exclusivo do homens de conhecimento. No seu caso, essa é a tampa que fecha tudo quanto lhe ensinei. Assim, esperei até agora para falar sobre isso. O tonal não é um animal que guarda uma pessoa. Eu diria, antes, que é um guardião que poderia ser representado como um animal. Mas não é isso o importante.

Ele sorriu e me piscou o olho.

— Agora estou usando suas palavras — disse ele. — O tonal é a pessoa social.

Ele se riu, imagino que devido ao meu espanto. E prosseguiu.

— O tonal é, de direito, um protetor, um guardião; um guardião que geralmente se transforma num guarda.

Remexi no caderno. Estava tentando prestar atenção ao que ele dizia.

Ele riu e imitou meus movimentos nervosos.

— O tonal é o organizador do mundo — continuou. — Talvez o melhor meio de descrever seu trabalho monumental seja dizer que sobre os seus ombros repousa o trabalho de dar ordem ao caos do mundo. Não é exagero afirmar, como dizem os feiticeiros, que tudo quanto sabemos e fazemos como homens é obra do tonal. Neste momento, por exemplo, aquilo que está empenhado em fazer sentido dessa nossa conversa é o seu tonal: sem ele só haveria sons estranhos e caretas e você nada compreenderia do que estou falando. Eu diria então que o tonal é um guardião que protege algo de precioso, o nosso próprio ser. Portanto, uma qualidade inerente do tonal é ser astucioso e zeloso do que faz. E como seus atos são de longe a parte mais importante de nossas vidas, não admira que no fim ele se transforme, em todos nós, de guardião em guarda.

Ele parou e perguntou se eu tinha entendido. Meneei a cabeça afirmativamente, automaticamente, e ele sorriu com um ar de incredulidade.

— Um guardião tem vistas largas e é compreensivo — explicou ele. — Um guarda, ao contrário, é vigilante, intolerante e, a maior parte do tempo, despótico. Digo, pois, que o tonal em todos nós foi transformado num guarda mesquinho e despótico, quando deveria ser um guardião de larga visão. Eu positivamente não estava acompanhando o rumo da explicação dele. Escutava e anotava todas as palavras que ele dizia, e, no entanto parecia estar atrapalhado com algum diálogo interno meu particular.

— É muito difícil para mim acompanhar seu raciocínio — disse eu.

— Se você não tivesse a mania de falar consigo mesmo, não teria problemas. — Seu tom era mordaz.

O comentário dele levou-me a uma longa explicação. Por fim, controlei-me e pedi desculpas por minha insistência em me defender.

Ele sorriu e fez um gesto que parecia mostrar que minha atitude não o aborrecera de fato.

— O tonal é tudo o que somos — prosseguiu ele. — Qualquer coisa, Tudo que tem um nome é o tonal. E como o tonal é seus próprios atos, então tudo, obviamente, terá de cair sob seu domínio.

Lembrei-lhe que ele dissera que o tonal era a pessoa social, termo que eu mesmo usara com ele para indicar um ser humano como produto final dos processos de socialização. Indiquei que se o tonal era esse produto, não podia ser tudo, como ele dissera, pois o mundo que nos rodeia não é produto da socialização.

Dom Juan lembrou-me que meu argumento não tinha bases, para ele, e que muito antes ele já chegara à conclusão de que não existia o mundo em geral, mas apenas uma descrição do mundo que tínhamos aprendido a visualizar e aceitar como certa.

— O tonal é tudo o que conhecemos — disse ele. — Creio que isso em si já é motivo suficiente para o tonal ser um assunto tão dominante.

Parou um instante. Parecia estar positivamente esperando comentários ou perguntas, mas eu nada. tinha a dizer. No entanto, sentia-me obrigado a fazer uma pergunta e esforcei-me por formular uma que fosse adequada. Não consegui. Senti que as advertências com que ele iniciara nossa conversa talvez tivessem servido como freio a qualquer indagação de minha parte. Eu me sentia estranhamente dormente, Não conseguia concentrar nem ordenar meus pensamentos. De fato eu sentia e sabia, sem sombra de dúvida, que era incapaz de pensar e no entanto eu sabia disso sem pensar, se é que isso era de todo possível.

Virei-me para Dom Juan. Ele estava olhando para a parte do meio de meu corpo. Ergueu os olhos e minha lucidez de espírito voltou instantaneamente.

— O tonal é tudo o que sabemos — repetiu ele devagar. — E inclui não apenas nós, como pessoas, mas tudo em nosso mundo. Pode-se dizer que o tonal é tudo o que aparece à vista. Começamos a cultivá-lo no momento do nascimento. No momento em que aspiramos nossa primeira golfada de ar também aspiramos o poder para o tonal. Assim, é válido dizer que o tonal de um ser humano está intimamente ligado a seu nascimento. É preciso lembrar esse ponto. É de grande importância para se compreender tudo isso. O tonal começa no nascimento e termina com a morte.

Eu queria recapitular todos os pontos que ele frisara. Cheguei a abrir a boca para pedir-lhe que repetisse os pontos principais de nossa conversa, mas, para meu espanto, não consegui pronunciar minhas palavras. Eu estava sofrendo de uma incapacidade muito curiosa, minhas palavras eram. arrastadas e eu não conseguia controlar essa sensação.

Olhei para Dom Juan para indicar-lhe que eu não podia falar. Ele estava olhando de novo para a região da minha barriga. Ele ergueu os olhos e perguntou-me o que eu estava sentindo. As palavras jorraram de mim como se me tivessem desarrolhado. Eu disse a ele que tinha tido a sensação esquisita de não conseguir falar nem pensar, e no entanto meus pensamentos tinham uma clareza cristalina.

— Seus pensamentos tinham uma clareza cristalina? — perguntou ele.

Percebi então que a clareza não pertencia a meus pensamentos e sim à minha percepção do mundo.

— Está-me fazendo alguma coisa, Dom Juan? — perguntei.

— Estou procurando convencê-lo de Que seus comentários não são necessários — disse ele, e riu-se.

— Quer dizer que não quer que eu faça perguntas?

— Não, não. Pode perguntar o que quiser, mas não se distraia. Tive de confessar que eu ficara distraído com a vastidão do assunto.

— Ainda não consigo entender, Dom Juan, o que você quer dizer com a expressão “o tonal é tudo” — disse eu, depois de uma pausa.

— O tonal é o que faz o mundo.

— O tonal é o criador do mundo? Dom Juan coçou as têmporas.

— O tonal só faz o mundo num modo de dizer. Não pode criar nem modificar coisa alguma, e no entanto faz o mundo porque sua função é julgar e avaliar e testemunhar. Digo que o tonal faz o mundo porque testemunha e o avalia de acordo com as regras do tonal. De um modo muito estranho, o tonal é um criador que nada cria. Em outras palavras, o tonal faz as regras pelas quais apreende o mundo. Assim, de certo modo, cria o mundo.

Ele cantarolou uma canção popular, marcando o compasso com os dedos no lado da cadeira. Seus olhos brilhavam: pareciam reluzir. Ele se riu, sacudindo a cabeça.

— Você não me está acompanhando — disse, ainda sorrindo.

— Estou. Não tenho problemas — disse eu, mas não soei muito convincente

— O tonal é uma ilha — explicou ele. — O melhor meio de descrevê-lo é dizer que o tonal é isto. — Passou a mão por cima da mesa. — Podemos dizer que o tonal é como o tampo desta mesa. Uma ilha. E nesta ilha temos tudo. Esta ilha, de fato, é o mundo. Existe um tonal pessoal para cada um de nós, e existe um coletivo para todos nós em dado momento, que podemos chamar de tonal dos tempos. — Ele apontou para as fileiras das mesas no restaurante. — Olhe! Todas as mesas têm a mesma conformação. Há certos itens que estão presentes em todas elas. No entanto, elas são individualmente diferentes umas das outras; algumas estão mais cheias do que outras; sobre elas ha alimentos diferentes, pratos deferentes, um ambiente diferente, e no entanto temos de admitir que todas as mesas deste restaurante são muito parecidas. O mesmo sucede com o tonal. Podemos dizer que o tonal dos tempos é o que nos torna iguais, a todos, do mesmo modo que torna iguais todas as mesas deste restaurante. Não obstante, cada mesa separadamente é um caso individual, tal como o tonal pessoal de cada um de nós. Mas o importante a manter em mente é que tudo o que sabemos a respeito de nós mesmos e do nosso mundo está na ilha do tonal. Entende o que eu digo?

— Se o tonal é tudo o que sabemos sobre nós e nosso mundo, então o que é o nagual

— O nagual é a parte de nós com a qual não lidamos de todo.

— Como?

— O nagual é a parte de nós para a qual não existe descrição — nem palavras, nem nomes, nem sensações, nem conhecimento.

— Isso é uma contradição, Dom Juan. Em minha opinião, se não pode ser sentido nem descrito nem mencionado, não pode existir.

— Só é uma contradição em sua opinião. Já lhe avisei, não se acabe procurando compreender isso.

— Você diria que o nagual é a mente?

— Não. A mente é um item na mesa. A mente é parte do tonal. Digamos que a mente é o molho picante.

Ele pegou um vidro do molho e colocou-o em minha frente.

— O nagual é a alma?

— Não. A alma também está sobre a mesa. Digamos que a alma é o cinzeiro.

— É os pensamentos dos homens?

— Não. Os pensamentos também estão sobre a mesa. Os pensamentos são os talheres.

Ele pegou um garfo e colocou-o ao lado do molho picante e do cinzeiro.

— É um estado de graça? O céu?

— Nem isso, tampouco. Isso, seja o que for também, faz parte do tonal. Digamos que seja o guardanapo.

Continuei a dar possíveis meios de descrever aquilo a que ele se referia: intelecto puro, psique, energia, força vital, imortalidade, princípio da vida. Para cada item ele encontrava um objeto na mesa para servir de modelo e o empurrava para a minha frente, até ter todos os objetos da mesa empilhados.

Dom Juan parecia estar divertindo-se imensamente. Dava risadas e esfregava as mãos cada vez que eu sugeria uma nova possibilidade.

— Será o nagual o Ser Supremo, o Todo-Poderoso, Deus? — perguntei.

— Não. Deus também está na mesa. Digamos que Deus seja a toalha de mesa.

Ele fez um gesto brincalhão de puxar a toalha de mesa para empilhá-la junto com o resto das coisas que colocara na minha frente.

— Mas você está dizendo que Deus não existe?

— Não. Não disse isso. Só disse que o nagual não é Deus, porque Deus é parte do nosso tonal pessoal e do tonal dos tempos. O tonal, como já disse, é tudo o que pensamos que compõe o mundo, inclusive Deus, é claro. Deus não tem outra importância a não ser a de ser parte do tonal de nosso tempo.

— Ao meu ver, Dom Juan, Deus é tudo. Não estamos falando da mesma coisa?

— Não. Deus é apenas tudo em que você pode pensar, e portanto, a bem dizer, é apenas mais um artigo na ilha. Deus não pode ser visto à vontade, só pode ser mencionado. O nagual, ao contrário, está às ordens do guerreiro. Pode ser visto, mas não pode ser mencionado.

— Se o nagual não é nenhuma dessas coisas que mencionei, talvez você me possa falar sobre sua localização. Onde fica?

Dom Juan fez um gesto vasto e apontou para o lugar além dos limites da mesa. Fez um movimento de varrer com a mão, como se com as costas da mão estivesse limpando uma superfície imaginária que ia além das bordas da mesa.

— O nagual está ali — disse ele. — Ali, rodeando a ilha. O nagual está ali, onde paira o poder. Sentimos, desde o momento em que nascemos que existem duas partes em nós. No momento do nascimento, e durante algum tempo depois, somos todos nagual Depois sentimos que, a fim de funcionar, precisamos de um complemento ao que temos. Falta o tonal e isso nos dá, desde o início, uma sensação de deficiência. Aí o tonal começa a desenvolverse e torna-se muito importante para o nosso funcionamento, tão importante que ofusca o brilho do nagual, dominando-o. Desde o momento em que nos tornamos completamente tonal, não fazemos outra coisa senão incrementar aquele antigo sentimento de deficiência que nos acompanha desde o momento de nosso nascimento, é que nos diz incessantemente que há uma outra parte para completar-nos. Desde o momento em que nos tomamos completamente tonai, começamos a fazer pares. Sentimos nossos dois lados, mas sempre os representamos com elementos do tonal. Dizemos que nossas duas partes são a alma e o corpo. Ou o espírito e a matéria. Ou o bem e o mal. Deus e Satanás. Nunca compreendemos, porém, que estamos apenas juntando as coisas na ilha, assim como se junta café e chá, ou pão e tortillas, ou chili e mostarda. Estou-lhe dizendo, somos uns bichos estranhos. Somos transportados e em nossa loucura acreditamos que estamos fazendo sentido.

Dom Juan levantou-se e dirigiu-se a mim como se ele fosse um orador. Apontou o indicador para mim e fez sua cabeça tremer.

— O homem não se movimenta entre o bem e o mal — disse ele, num tom de uma retórica hilariante, agarrando o saleiro e pimenteira com ambas as mãos. — O seu verdadeiro movimento é entre o negativo e o positivo. Ele largou o saleiro e pimenteira e segurou uma faca e um garfo.

— Você está enganado! Não existe o movimento — continuou, como se estivesse respondendo a si mesmo. — O homem é apenas o espírito! Ele pegou o vidro de molho e levantou-o. Depois largou-o.

— Como pode ver — disse ele baixinho —, podemos facilmente substituir o molho picante pelo espírito e acabar dizendo; “O homem é apenas o molho picante!” Fazer isso não nos tornará mais dementes do que já somos.

— Receio não ter formulado a pergunta certa — disse eu. — Talvez pudéssemos chegar a uma compreensão melhor se eu perguntasse o que é que se pode encontrar especificamente naquela área além da ilha?

— Não há meio de responder a isso. Se eu dissesse “nada”, eu só tornaria o nagual parte do tonal. O que posso dizer é que lá, além da ilha, se encontra o nagual.

— Mas quando chama a isso de nagual, também não o está colocando na ilha?

— Não. Só lhe dei nome porque queria que você tomasse conhecimento dele.

— Muito bem!Mas tomar conhecimento dele é o passo que torna o nagual um novo artigo do meu tonal.

— Receio que você não entenda. Mencionei o tonal e o nagual como um par verdadeiro. Foi só isso que fiz.

Ele me lembrou que um dia, quando eu lhe estava tentando explicar minha insistência sobre o significado, eu discutira a idéia de que as crianças podiam não ser capazes de compreender a diferença entre pai e mãe até estarem bem desenvolvidas em termos de lidar com os significados, e que talvez acreditassem que pai usa calças e mãe usa saía, ou outras diferenças em matéria de penteado, ou tamanho de corpo ou artigos de roupas.

— Nós certamente fazemos a mesma coisa com as duas partes de nós — disse ele. — Sentimos que existe um outro lado em nós. Mas quando queremos precisar esse lado, o tonal apodera-se da batuta e, como maestro, é muito mesquinho e zeloso. Ofusca-nos com sua esperteza e nos obriga a obliterar o mais leve vislumbre da outra parte do verdadeiro par, o nagual.”

(Porta para o Infinito, Carlos Castañeda)

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