“Entendi o que ele queria dizer.

– Você acha que escrever é um dos velhos hábitos que devo modificar? – perguntei. – Devo destruir meu novo manuscrito?

Ele não respondeu. Levantou-se e foi olhar a orla do chaparral.

Eu lhe disse que recebera cartas de várias pessoas, dizendo-me que era errado escrever sobre minha aprendizagem. Citavam, como argumento, que os mestres das doutrinas esotéricas orientais exigiam segredo absoluto acerca de seus ensinamentos.

– Talvez tais mestres estejam apenas se divertindo, com seu mestrado – disse Don Juan, sem olhar para mim. – Não sou mestre, apenas um guerreiro. Assim, não sei, realmente, como um mestre se sente.

– Mas talvez eu esteja revelando coisas que não deva, Dom Juan.

– Não importa o que se revela e o que se guarda para si. Tudo o que fazemos, tudo o que somos, reside em nosso poder pessoal. Se temos o suficiente, uma palavra que nos for pronunciada pode ser o suficiente para mudar o rumo de nossas vidas. Mas, se não tivermos suficiente poder pessoal, o fato de sabedora mais magnífico nos poderá ser revelado sem que tal revelação faça menor diferença. – Ele aí baixou a voz, como se estivesse me contando algo confidencial. – Vou pronunciar o que é talvez o maior fato de sabedoria que qualquer pessoa possa exprimir. Vejamos o que você pode fazer com isso: Sabe que neste momento você está cercado pela eternidade? E sabe que pode usar essa eternidade, se o desejar?

Depois de uma pausa prolongada, em que ele me pediu, com um movimento sutil nos olhos, para fazer alguma declaração, eu disse que não estava entendendo o que ele estava falando.

– Ali! A Eternidade está Ali! – e apontou para o horizonte. Em seguida, apontando para o zênite, acrescentou: – ou ali, ou talvez possamos dizer que a eternidade é assim. – Ele estendeu ambos os braços para Leste e Oeste.
Nós nos entreolhamos. Os olhos dele encerravam uma pergunta.

– O que me diz disso? – perguntou-me, sugerindo que eu ponderasse sobre suas palavras.
Eu não sabia o que dizer.

– Você sabe que pode estender-se para sempre em qualquer das direções em que apontei? – continuou ele – Sabe que um momento pode ser a eternidade? Isso não é uma charada; é um fato, mas somente se você agarrar esse momento, utilizando-o para levar a totalidade de você em qualquer direção, para sempre.
Ele ficou olhando para mim.

– Você antes não possuía esse conhecimento – disse ele, sorrindo. – mas agora possui. Eu o revelei a você, mas não faz a menor diferença, pois você não tem suficiente poder pessoal para utilizar minha revelação. No entanto, se você tivesse suficiente poder, minhas palavras bastariam para lhe permitir reunir a totalidade de você e fazer com que a parte importante saísse dos limites em que está confinada.”

(Porta para o Infinito, Carlos Castañeda)

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