“- É possível insistir, insistir realmente, mesmo sabendo que o que se está fazendo é inútil – disse ele, sorrindo. – Mas primeiro temos de saber que nossos atos são inúteis e, no entanto, temos de proceder como se não soubéssemos. É esta a loucura controlada de um feiticeiro.”

(…)

“- Será que você me conta mais a respeito de sua loucura controlada?
– O que é que você quer saber a respeito?
– Diga-me, por favor, Dom Juan, o que é exatamente a loucura controlada?
Dom Juan riu à grande e provocou um estalo, dando uma palmada em sua coxa.
– Isto é loucura controlada! – falou, e tornou a dar uma palmada na coxa.
– O que quer dizer?
– Estou contente que você afinal me pergunte acerca de minha loucura controlada, depois de tantos anos, e no entanto não teria a mínima importância para mim, se você nunca perguntasse. E no entanto resolvi ficar feliz, como se me importasse, porque você perguntou, como se importasse que eu ligasse. Isso é loucura controlada!
Nós dois rimos muito. Abracei-o. Achei a explicação dele uma delícia, embora não a entendesse muito bem.”

(…)

“- Com quem você pratica a sua loucura controlada, Dom Juan? – perguntei, depois de um longo silêncio. Ele riu.
– Com todo mundo!
– Então, quando é que você resolve praticá-la?
– Cada vez que eu ajo.
Achei necessário recapitular, nesse ponto, e perguntei-lhe se a loucura controlada significava que os atos dele nunca eram sinceros, e apenas os atos de um ator.
– Meus atos são sinceros – disse ele – mas são apenas os atos de um ator.
– Então, tudo o que você faz deve ser loucura controlada! – falei, realmente surpreendido.
– Sim, tudo.
– Mas isso não pode ser verdade – protestei – não acredito que todos seus atos sejam só loucura controlada.
– Por que não? – respondeu ele, com um ar misterioso.
– Isso significaria que nada lhe importa e você não liga realmente para nada ou ninguém. Veja o meu caso, por exemplo. Quer dizer que não se importa se eu me tornar um homem de conhecimento, se eu viver ou morrer, ou fizer qualquer coisa?
– É verdade! Não me importo. Você é como Lúcio, ou qualquer outra pessoa em minha vida, minha loucura controlada.”

(…)

“- Estou com a impressão de que não estamos falando sobre a mesma coisa. Eu não devia ter usado o meu caso como exemplo. O que eu queria dizer era que devia haver alguma coisa no mundo com a qual você se importe e que não seja loucura controlada. Não creio que seja possível a gente continuar a viver se nada realmente nos importa.

– Isso se aplica a você – respondeu. – As coisas importam a você. Perguntou-me acerca de minha loucura controlada e eu lhe disse que tudo o que faço com relação a mim e meus semelhante é loucura, pois nada importa.

– O que eu digo, Dom Juan, é que, se nada lhe importa, como é que você pode continuar a viver?

Riu depois de um momento, em que parecia estar resolvendo se devia ou não responder-me; levantou-se e foi para os fundos da casa. Acompanhei-o.

– Espere, espere, Dom Juan – falei. – Quero mesmo saber; você tem de me explicar o que quer dizer.

– Talvez não seja possível explicar – disse ele. – Certas coisas em sua vida lhe importam porque são importantes; seus atos certamente são importantes para você, mas, para mim, não há mais nenhuma coisa importante, nem os meus atos nem os de meus semelhantes. Mas continuo a viver porque tenho minha vontade. Porque temperei minha vontade em toda minha vida, até ela se tornar limpa e sadia, e agora não mais me importa o fato de nada importar. Minha vontade controla a loucura de minha vida.

Agachou-se e passou os dedos por umas ervas que tinha posto a secar ao Sol num pedaço de pano.

Eu estava confuso. Jamais poderia ter antecipado o rumo que minha pergunta tomaria. Depois de algum tempo, pensei num bom argumento. Disse-lhe que, em minha opinião, alguns dos atos de meus semelhantes tinham a maior importância. Observei que a guerra nuclear era positivamente o exemplo mais dramático de um desses atos. Disse que, para mim, a destruição da vida na face da terra era um ato de uma enormidade arrasante.

– Você crê nisso porque está pensando. Está pensando na vida – disse Dom Juan, com um brilho nos olhos. – Não está vendo.

– Eu sentiria outra coisa se estivesse vendo? – perguntei.

– Quando o homem aprender a ver, ele se encontra sozinho no mundo, apenas com a loucura – disse Dom Juan, misteriosamente. Parou um momento e olhou para mim como se quisesse avaliar o efeito de suas palavras. – Seus atos, bem como os atos de seus semelhantes em geral, parecem-lhe importantes porque você aprendeu a pensar que são importantes.

Ele usou a palavra “aprendeu” com uma entonação tão especial que me levou a perguntar o que ele queria dizer com aquilo. Parou de mexer nas plantas e olhou para mim.

– Aprendemos a pensar sobre tudo – disse ele – e depois exercitamos nossos olhos para olharem como pensamos a respeito das coisas que olhamos. Olhamos para nós mesmos já pensando que somos importantes. E, por isso, temos de sentir-nos importantes!

Mas quando o homem aprende a ver, entende que não pode mais pensar a respeito das coisas que ele olha, e se não pode mais pensar sobre as coisas que olha, tudo fica sem importância.”

(Uma Estranha Realidade, Carlos Castañeda)

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