“(Carlos Castañeda:) Conheçam a vocês mesmos, sejam conscientes de sua morte pessoal. Ela não é negociável, é o única coisa que vocês realmente têm. Tudo o demais poderá falhar, mas a morte não, a ela podem dar como certa. Aprendam a usá-la para produzir efeitos verdadeiros em suas vidas. Além do mais, deixem de acreditar em contos da carochinha, ninguém lhes quer lá fora! Nenhum de nós é tão importante para que hajam inventado algo tão fantástico como a imortalidade. Um bruxo que conta com sua humildade sabe que seu destino é o de qualquer outro ser vivo da terra. Assim que, ao invés de iludir-se com falsas esperanças, trabalha concreta e duramente para sair de sua condição humana e acolher a única saída que temos: o rompimento de nossa barreira perceptual.

Ao mesmo tempo em que escutam o conselho da morte, façam-se responsáveis por suas vidas, pela totalidade de suas ações. Explorem-se, reconheçam-se e vivam intensamente, como vivem os bruxos. A intensidade é a única coisa que pode nos salvar do aborrecimento.

Uma vez alinhados com sua morte, estarão em condições de dar o seguinte passo: reduzir ao mínimo a bagagem. Este é um mundo-prisão e devemos sair como fugitivos, sem levar nada. Os seres humanos são viajantes por natureza. Voar e conhecer outros horizontes são nosso destino. Por acaso vais de viagem com tua cama ou com a mesa que comes? Sintetiza tua vida! A humanidade de nossa época adquiriu um estranho costume que é sintomático do estado mental em que vive. Quando viajamos, compramos todo tipo de artefatos inúteis em outros países, coisas que, com certeza, não adquiriríamos em nossa própria terra. Uma vez que regressamos para casa, os acumulamos em um canto e terminamos nos esquecendo de sua existência, até que um dia os descobrimos, por casualidade, e os colocamos no lixo.

Assim ocorre com nossa viagem pela vida. Somos como asnos carregando um fardo de porcarias, não há nada valioso por ali. Tudo que fazemos só serve para que, no final, quando a velhice nos tome de assalto, repitamos incansavelmente alguma frase, como disco arranhado.

Um bruxo se pergunta: que sentido tem tudo isso? Por que investir meus recursos no que não me ajudam em nada? O encontro de um bruxo é com o desconhecido, não pode comprometer sua energia em nulidades. Em tua passagem pela terra, tire algo de verdadeiro valor, de outro modo não valeu a pena”.

O poder que nos rege nos deu escolhas. Ou passamos a vida vagando em torno de nossos hábitos, ou nos animamos a conhecer outros mundos. Somente a consciência da morte pode nos dar a sacudida necessária.

A pessoa comum passa sua existência inteira sem parar pra meditar, porque pensa que a morte está no final da vida; no final das contas, sempre teremos tempo para ela! Mas um guerreiro descobre que isto não é certo. A morte vive na espreita, a um braço de distância, permanentemente alerta, olhando-nos, disposta a saltar à menor provocação. O guerreiro converte seu medo animal da extinção em uma oportunidade de gozo, pois sabe que tudo o que tem é este momento. Pensem como guerreiros, todos vamos morrer!”.

(Armando Torres, Encontros para o Nagual)
(Compartilhado por Felipe Matus)

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