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O regulamento dos espreitadores

“Florinda disse que a raiva de Celestino também permitira à curandeira demonstrar ao seu corpo, e não à sua razão, os três primeiros princípios do regulamento dos espreitadores. Embora sua cabeça estivesse inteiramente concentrada em si própria já que nada existia para ela a não ser dor física e angústia de perder sua beleza, seu corpo tinha percebido o que acontecera e só precisara de uma pequena recordação mais tarde para pôr tudo nos devidos lugares.

— Os guerreiros não têm o mundo para os amortizar, portanto necessitam do regulamento — continuou. — No entanto, o regulamento dos espreitadores se aplica a todos.

“A arrogância de Celestino foi sua grande falha e o início da minha instrução e libertação. Sua auto-importância, como a minha. nos forçava a acreditar que estávamos praticamente acima de todos. A curandeira nos trouxe à realidade do que éramos — nada.

“O primeiro preceito do regulamento é que tudo que nos rodeia é de um mistério insondáveis

“O segundo preceito é que devemos tentar desvendar esses mistérios, mas sem esperar jamais conseguir isso.

“O terceiro, é que um guerreiro, ciente dos mistérios insondáveis que o cercam e ciente do seu dever de tentar desvendá-los, ocupa seu lugar certo entre os mistérios e vê a si mesmo como um deles. Conseqüentemente, para um guerreiro o mistério de ser não tem fim, seja ser uma pedra, uma formiga ou ele próprio. Essa é a humildade de um guerreiro. Uma pessoa é igual a tudo.”

Houve um silêncio longo e forçado. Florinda sorriu, brincando com a ponta de sua longa trança, e disse que era o bastante para mim.”

(O Presente da Águia, Carlos Castañeda)

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