A energia sexual está polarizada com a energia da vida. Ela está presente em todas as formas de vida regulada numa troca de poder e fluxo entre dois sistemas de energia, masculino e feminino, mas é especialmente significante para o ser humano. Os humanos são seres essencialmente sexuais, visto que têm o sexo como parte proeminente de seu condicionamento psico-biológico. O problema sobre o sexo, portanto, não está relacionado ao sexo propriamente dito, porém aos ditames culturais que corrompem seu significado dentro das sociedades humanas.

Da subversão sociocultural ao qual o sexo é historicamente exposto a impregnação moralista que a sexualidade adquire dos dogmas religiosos, pouco se compreende acerca de suas funções e finalidades ocultas, visto que a sexualidade é mais do que a expressão física da alegria, satisfação carnal ou mesmo fruto do imperativo biológico orientado por algum comportamento social ou desejo de reprodução da espécie.

A sexualidade, segundo os xamas, é um Caminho. A pratica sexual está relacionada com a separação de energias vitais e a tremenda força de atração causada pelo desejo de “tornar a unir”. O ato sexual é a função da individualização inicial do ser e se caso não existisse, seria impossível existir a vida tal como a conhecemos neste planeta.

De uma maneira geral, o sexo nos religa a “Fonte da Vida”, pois relembra o ato que dá início ao processo de criação de uma vida. Portanto, podemos dizer, de um ponto de vista simbólico, que o ” Sexo é Sagrado “.

Para os videntes toltecas, a única energia real que possuímos é a energia sexual – a energia que confere vida. A energia sexual é algo de extrema importância que deve ser controlada e usada com grande cuidado, haja vista que sua má utilização, geralmente, redunda num grande desperdício de energia e vitalidade pessoais. A compreensão dessa força descomunal, advertem os feiticeiros, deve tornar-nos permanentemente conscientes de nossa responsabilidade para com a energia sexual.

Os videntes toltecas jamais trataram do controle e manejo da energia sexual em termos de moralidade, mas antes, em termos de economia e recanalização de energia. Essa sempre fora a chave-mestra utilizada pelos guerreiros do vale do México.

Os antigos feiticeiros compreenderam algo extremamente importante: descobriram que o sexo é fundamentalmente uma doação do brilho da consciência. Essa consciência tem origem no momento da concepção e se desenvolve ao longo de toda vida do ser humano, muito embora permaneça fixa ou congelada no casulo luminoso da grande maioria dos homens. Don Juan afirma que “a Águia ordena que a energia sexual seja usada para que haja vida. Através da energia sexual, a Águia confere a consciência. Assim, quando seres conscientes estão engajados em relações sexuais, as emanações dentro de seus casulos fazem o possível para conferir consciência ao novo ser que estão criando”.

Durante o ato sexual, as emanações contidas dentro do casulo dos dois parceiros passam por uma profunda agitação, cujo ponto culminante é uma junção, uma fusão de duas partes do brilho da consciência, uma de cada parceiro, que se separam de seus casulos. Neste sentido, a relação sexual é sempre uma doação de consciência, mesmo quando a doação não acabe sendo consolidada. Don Juan destaca que “as emanações do interior do casulo dos seres humanos não conhecem o sexo por prazer”.

Castaneda, certa feita, questionou a Don Juan o que poderia ser feito com a sensualidade natural do homem. Don Juan enfaticamente respondeu: Nada! O velho Nagual afirmava que não havia nada de errado com a sensualidade do homem, mas tão somente a ignorância humana e o desrespeito por sua natureza mágica que estavam errados. No mesmo tom, os guerreiros diziam que era um “engano desperdiçar à toa a força do sexo que confere vida e não ter filhos, mas também é um engano não saber que, tendo filhos, a pessoa compromete o brilho da consciência”.

Como os videntes estavam tão convictos que a reprodução humana comprometeria o brilho da consciência? Don Juan explica isso da seguinte forma:

“Eles veem que, ao terem um filho, o brilho da consciência dos pais diminui e o da criança aumenta. Em alguns pais supersensíveis e frágeis, o brilho da consciência quase desaparece. À medida que as crianças aumentam a consciência, uma grande mancha preta se desenvolve no casulo luminoso dos pais, no exato lugar do qual o brilho foi retirado. Isto ocorre geralmente na seção média do casulo. Às vezes, esses pontos podem mesmo ser vistos sobrepostos no próprio corpo”. Tanto é que, quando os videntes veem o corpo energético de alguém que já passou pela experiência da maternidade ou paternidade, a chamam de “pessoa vazia”. As marcas geradas pela ausência de luminosidade ficam ‘escritas’ no corpo luminoso. A falta de certos filamentos de energia pode ser visualizada pelos videntes como ‘buracos” que se estendem sobre o casulo luminoso na altura da linha do estômago.

Dona Soledad, poderosa feiticeira do antigo grupo de Castaneda, afirma que “numa pessoa vazia as fibras luminosas são amassadas nas bordas do buraco. Quando a pessoa teve dois filhos, as fibras não parecem mais fibras. Essas pessoas parecem dois pedaços de luminosidade, separadas por uma parte preta. É um espetáculo terrível”.

“Um homem vazio usa a mulher completa o tempo todo. Uma mulher completa é perigosa devido ao seu estado, mais do que o homem. Ela é imprevisível, temperamental, nervosa, mas também é capaz de grandes modificações. Mulheres assim sabem se refazer e ir a qualquer lugar. Uma vez lá, não farão nada, mas isso é porque não tinham nada, para começar. As pessoas vazias, por outro lado, não podem mais dar saltos assim, mas são mais previsíveis. O Nagual disse que as pessoas vazias são como vermes que olham em volta antes de se mexerem um pouco e depois recuam e se mexem mais um pouco. As pessoas completas sempre saltam, dão cambalhotas e quase sempre caem de cabeça, mas isso não importa, para elas”.

O velho Nagual dizia que para entrar no outro mundo a pessoa tem de ser completa. Para ser feiticeiro, tem de ter toda a sua luminosidade: nem buracos, nem remendos e todo o fio do espírito. Portanto, um feiticeiro que for vazio tem de tornar a ser completo.

O Nagual Julian, mestre de Don Juan, costumava afirmar que fazer sexo é uma questão de energia. O Nagual Julian nunca tinha quaisquer problemas em fazer sexo, porque possuía enormes quantidades de energia a seu dispor. Por outro lado, nem todos dispunham de tamanho “estoque de energia” como ele. Don Juan relata que, certa vez, o Nagual Julian olhou para Genaro e determinou imediatamente que seu pênis serviria apenas para mijar. Disse-lhe que seus pais estavam muito aborrecidos e muito cansados quando lhe fizeram; disse a Genaro que ele era o resultado de uma relação sexual muito aborrecida, em espanhol um “cojida aburrida”. Mais tarde, Don Juan falou o mesmo a Castaneda. Disse que Cataneda era fruto de uma relação sexual monótona e aborrecida, por isso, não poderia desperdiçar impunemente sua energia, embora, ao que parece, o baixinho não tenha dado muita importância ao que ouviu do mestre. O Nagual Julian recomendava que pessoas com pouca energia nunca fizessem sexo; dessa maneira, poder-se-ia acumular e economizar a pouca energia de que dispunham.

Um erro do homem é agir com total desrespeito pelo mistério da existência, dizia Don Juan, ao acreditar que um ato tão sublime quanto conferir vida e consciência é meramente um impulso físico que a pessoa pode manipular à vontade. Desta maneira, enfatizou:

“Se os guerreiros desejam ter energia suficiente para ver, devem tornar-se avaros com sua energia sexual. Essa foi a lição que o Nagual Julian nos deu. Empurrou-nos para o desconhecido e todos nós quase morremos. Como cada um de nós desejava ver, naturalmente nos abstivemos de desperdiçar nosso brilho da consciência”.

A pratica do celibato, de acordo com os videntes toltecas, é altamente recomendado para restaurar a energia perdida e também “para realizar a viagem junto a liberdade”, pois o principal objetivo e interesse dos feiticeiros está em “adquirir poder, concentrar energia e não em perde-la”. Acumulo de energia, poder pessoal e conquista da liberdade são indissociáveis.

O Nagual Elias, mestre do Nagual Julian, tinha grande respeito pela energia sexual, pois acreditava que a mesma foi nos concedida de modo que possamos usá-la para sonhar (despertar o duplo). Para ele, sonhar havia caído em desuso porque poderia desfazer o precário equilíbrio mental de pessoas suscetíveis.

Mas qual a relação ente equilíbrio mental e a atividade sexual?

O equilíbrio mental nada mais é que do que a fixação do ponto de aglutinação num lugar ao qual estamos acostumados. Os sonhos fazem esse ponto mover-se e sonhar é usado para controlar esse movimento natural. A energia sexual é necessária para sonhar, o resultado é às vezes desastroso quando a energia sexual é dissipada pelo sexo em vez do ato de sonhar. Neste sentido, os sonhadores podem mover seus pontos de aglutinação erraticamente e, literalmente, “perder o juízo”.

Don Juan advertia sobre a necessidade do cuidado com a energia sexual, pois se não tivermos cuidado com essa energia, ela pode muito bem se acostumar à ideia de movimentos erráticos em nosso ponto de aglutinação. O ponto de aglutinação move-se quase erraticamente quando a energia sexual não está equilibrada.

Cada espécie possui um imperativo biológico para perpetuar-se. Esse imperativo, na natureza, proporciona instrumentos para assegurar a fusão das energias masculina e feminina da maneira mais eficiente. Por outro lado, os seres humanos são inteligentes o bastante para exigir mais de si mesmo do que simplesmente cumprir este imperativo reprodutivo. Para tanto, evoluir constitui igualmente um imperativo, até mesmo mais importante do que a reprodução e, neste caso, a evolução também consiste no despertar de homens e mulheres para seu verdadeiro papel no intrincado esquema energético da reprodução.

Na esfera humana, conquanto a função primordial da relação sexual seja a procriação, ela também tem uma função secundaria, isto é, a construção do corpo energético do homem: o duplo.

De uma maneira feral, a energia sexual é o que governa o sonhar, ou melhor, a percepção e liberdade de nosso duplo, ou ainda, nosso “corpo energético”, “corpo sonhador” ou “corpo astral”. Don Juan ensinou a Castaneda que ou se faz amor com a energia sexual ou se sonha com ela. Não há outra maneira.

Neste campo, as mulheres possuem uma grande vantagem em relação aos homens: o útero. O segredo da força das mulheres é seu útero. As mulheres sonham com seus úteros, ou melhor, dos seus úteros, como cita Nelida, poderosa feiticeira sonhadora, parte do grupo do velho Nagual.

O fato das mulheres terem úteros as tornam sonhadoras perfeitas, pois o útero constitui o centro da energia criadora. As mulheres tendo a capacidade e os órgãos para reproduzir a vida, também tem a capacidade de sonhar com esses mesmos órgãos. Em função disso, as feiticeiras podem focalizar sua atenção com grande facilidade em algo fora de seus sonhos enquanto dormem. Esse objeto liga as mulheres ao intento. Mulheres, ao contrário dos homens, tem uma grande facilidade em manter permanentemente uma nova posição de seu ponto de aglutinação.

Nelida cita que “o buraco entre as pernas da mulher é a abertura energética do útero, um órgão que é ao mesmo tempo poderoso e rico”. A função primária do útero está relacionada a reprodução cuja finalidade gira em torno da perpetuação de nossa espécie. Mas o útero também possui funções secundarias, sutis e sofisticadas. A função secundaria de útero é servir de guia para o duplo. Enquanto homens precisam recorrer a uma mistura de raciocínio e intenção para conduzir seus duplos, as mulheres têm seu útero a disposição como uma poderosa fonte de energia, abundante em atributos e funções misteriosas, todos eles destinados a proteger e nutrir seu corpo sonhador.

O útero é a maneiras das fêmeas sentirem coisas e regularem seus corpos. Através dele as mulheres podem gerar e armazenar poder em seus duplos para construir ou destruir, ou para se tornarem unas com tudo que as cerca. Nelida também advoga uma outra maneira de se alcançar o duplo: através do movimento por meio dos passes de feitiçaria. O domínio do duplo, analogamente, também poder ser atingido através do som, ao se direcionar sistematicamente as palavras para nossa fonte de consciência.

Enquanto nos homens os sentimentos se origina no cérebro, nas mulheres, isso acontece no útero. As feiticeiras toltecas ensinavam que, para sonhar, bastava a mulher focalizar sua atenção no útero, pegar um objeto e esfregar na barriga ou sobre a genitália. E assim, depois que se adquire certa familiaridade com o objeto, ele permanecera sempre ali, para servir de ponte.

Os videntes toltecas observam que, em geral, durante o ato sexual entre um homem e uma mulher, a troca de energia não é uniforme e, comumente, a finalidade de tais relações se destinam a assegurar o fluxo de energia das mulheres para os homens.

Nelida explica que os homens deixam “linhas de energia especificas dentro do corpo das mulheres as semelhanças de tênias luminosas que se movimentam no interior do útero da mulher, sugando sua energia”. Teoricamente, este processo assegura que a mulher alimente seu homem energeticamente através dos filamentos deixados pelo homem dentro do corpo da mulher. Por outro lado, esse processo faz com que o homem se torne misteriosamente dependente da mulher em nível etéreo, evidentemente denunciado no comportamento de alguns homens que retornam repetidas vezes para a mesma mulher a fim de manter sua fonte de sustento. Deste modo, a natureza possibilita aos homens, além do impulso imediato de gratificação sexual, estabelecer vínculos mais permanentes com as mulheres.

Esses filamentos energéticos deixados no útero da mulher também se fundem com a composição energética do filho caso ocorra a concepção. Este processo, explicam as feiticeiras, pode ser o rudimento dos laços familiares dado que a energia do pai se funde com a energia do feto e permite ao homem “sentir que o filho é seu”. Clara, outra feiticeira do grupo do velho Nagual, cita que é possível se libertar das linhas energéticas deixadas no útero da mulher caso a mesma permaneça celibatária por um período mínimo de sete anos. Esse é o tempo para a ‘limpeza’ de acordo com as feiticeiras.

O fator sexual na vida do ser humano é tão importante e expressivo que, durante a pratica de recapitulação, sugere-se que o guerreiro comece recapitulando todas as relações sexuais que se teve durante a vida como se fosse a espinha dorsal da técnica. Isso serviria tanto para desprender a mente do passado quanto para restabelecer a energia do corpo sonhador no presente. A pratica da recapitulação liberta a consciência dessas amarras.

Existem dois canais de energia no corpo humano que estão associados ao sistema nervoso central e à medula espinhal (“Sunshumna”, em sânscrito). Esses canais, conhecidos na pratica médica tradicional como nervos, fazem parte de nosso sistema nervoso periférico. Nervos aferentes conduzem sinais sensoriais (da pele ou dos órgãos dos sentidos, por exemplo) para o sistema nervoso central, enquanto nervos eferentes conduzem sinais estimulatórios do sistema nervoso central para os órgãos efetores, como músculos e glândulas. No ocidente esses canais são conhecidos como Lunar e Solar ou Feminina e Masculina (receptiva/negativa e ativa/positiva), ou “ida” e “pingala” no oriente. Geralmente, entre os não-praticantes da Magia Sexual, apenas uma das correntes de energia está aberta e fluindo. Entre as mulheres, apenas a corrente lunar flui desimpedida. Entre os homens, apenas o canal solar está realmente livre. No caso dos homossexuais, essa situação está invertida. Em todas as situações, este fato causa um desequilíbrio e influencia negativamente várias esferas da vida humana. Para tanto, o correto trabalho e manejo da energia sexual liberta toda essa energia e ativa plenamente as glândulas do nosso corpo, gerando um estado de êxtase, transcendência ou plena sobriedade.

É interessante notar que, para algumas culturas, o Deus da morte é ao mesmo tempo o senhor do sexo. Alguns presidem, ao mesmo tempo, à morte e à geração. O Deus da morte, “Ghede”, na tradição vodu haitiana, é também o deus do sexo. O Deus egípcio Osíris era o juiz e o senhor dos mortos, mas também senhor da regeneração da vida.

Na índia, o mistério sexual, como em quase todo o mundo, também é um mistério sagrado, pois está ligado ao mistério da geração da vida. O ato de gerar uma criança é um ato cósmico e deve ser entendido como sagrado para os hindus. Por isso, o símbolo que mais claramente representa o mistério do despejar da energia da vida, no campo do tempo, é do “lingam” e a “yoni”, os poderes masculino e feminino, em conjunção criativa. O segundo centro psicológico é simbolizado, na ordem hindu do desenvolvimento espiritual, pelos órgãos sexuais, o que significa dizer a “urgência da procriação”.

Algumas vertentes do paganismo Celta e Druida, também retratam a sexualidade como um sacramento, uma expressão direta da força vital, sendo percebida como algo “numinoso”, isto é, influenciado e inspirado pelas qualidades transcendentais da divindade. É algo sagrado. Para os bruxos druidas, a sexualidade é sagrada por ser um ato de partilhar energia, pois “no orgasmo dividimos a força que move as estrelas”.

Todos os atos de amor e prazer são partes elementares dos rituais pagãos mais antigos, sendo o sexo concebido para além de um simples ato físico, mas um polarizado fluxo de poder entre duas pessoas. As culturas pagãs mais antigas retratam o sexo como a manifestação do impulso de energia da força vital do universo, atração do Deus e da Deusa, a harmonia orgástica e extática que canta dentro de cada ser. O Deus das bruxas também é sexual, mas não uma sexualidade obscena ou blasfema, mas sagrada. Em feitiçaria sexo é sacramento, sinal externo de uma graça interior. Essa graça representa a profunda ligação tal como o reconhecimento da totalidade de outra pessoa. Através da ligação com o outro, ligamo-nos com o todo. A sexualidade deve afirmar o EU em vez de nega-lo.

Referências:

A dança Cósmica das Feiticeiras: Guia de rituais a grande deusa – Starhawk.
A travessia das feitiçarias: a jornada inciática de uma mulher – Taisha Abelar.
O Fogo interior – Carlos Castaneda.
O poder do silêncio – Carlos Castaneda.
O segundo círculo de poder – Carlos Castaneda.
O poder do Mito – Joseph Campbell.
Sonhos lúcidos: uma iniciação ao mundo dos feiticeiros – Florinda Donner Grau.
Teoria Eletromagnética do Sexo – Marcelo Motta.

Compilação for Felipe Matus

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