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Não somos um feixe particular de emanações

“Não somos a realidade que percebemos agora,
nem nenhuma das suas sensações
(no sentido de “não estarmos limitados a”). 
Ela é apenas uma realidade aparente e temporária que depende da posição onde se encontra o ponto de encaixe.
Quando o ponto de encaixe muda, essa realidade e as sensações contidas nela mudam, mas nós continuamos.
São apenas algumas emanações sendo alinhadas para percepção e interpretadas.
Tampouco somos corpo, identidade, história, nome, metas, técnicas, conhecimentos… tudo são apenas feixes de emanações, e memórias contidas nessas emanações, sendo ocasionalmente (ou recorrentemente) percebidas.

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E não somos (no sentido de “estarmos limitadas por”) nenhuma das inúmeras realidades que podemos vir a perceber. Elas também são feixes de emanações sendo temporariamente acendidos. Quando não estão mais sendo acendidos, eles somem, mas “algo” continua presente: nós continuamos presentes. Não enquanto uma forma específica ou imagem, mas como “algo mais”, ou anterior a isso.

Quando estamos em sono profundo, tudo some, inclusive qualquer resquício de ideia sobre nós. O sono profundo é um estado em que nenhuma emanação particular está sendo acesa pelo brilho da consciência que emana do ponto de encaixe.

Temos a impressão de sermos o que percebemos agora. Mas o que percebemos muda, vem, e vai. Compreendendo isso, pra que então a necessidade de se agarrar ao que quer que seja?

Os antigos sonhavam poder manter o aglomerado do eu individual pra sempre. Conta-se que alguns viraram árvores, ou se enterraram vivos, só para não abrir mão da experiencia de se ver como um conjunto de emanações separado do resto.

Usamos um conjunto determinado de emanações para tomarmos consciência de nós mesmos, individualmente. Enredos vivos onde podemos nos dar conta de que somos algo, alguém, autoconscientes, dentro de um contexto maior. De que temos um lugar na existência. Mas não somos nenhuma dessas histórias e personagens que se apresentam diante da nossa vista. Queremos no entanto nos agarrar a algo, alguma história, para sentir segurança de que existimos e sabemos quem somos. E depois tememos pelo nosso fim ao constatar que somos passageiros nessa forma que acreditamos ter tomado, e nos assustamos ao perceber a fragilidade dessa identidade onde fomos buscar segurança.

Será que o desafio é buscar perpetuar a individualidade? Tentar aglutinar para sempre um punhado de emanações que chamaremos de eu, ou de “eus”, e lutar contra o fluxo da totalidade para manter essas memórias vivas pra sempre, sob uma forma ou outra, com medo do destino que uma força maior, a Águia, venha a nos devorar? 

Ou será que é olhar esse quadro todo por uma outra perspectiva, por uma outra profundidade, constatando com sobriedade o fato de que esse aglomerado encasulado, e a sensação de um ser separado de tudo o mais, que decorre dele, são um empréstimo e não uma propriedade?

O que quer a que nos agarremos não é o nosso eu mais íntimo (no sentido, novamente, de estarmos “limitados a”). Quaisquer feixes de emanações, dentro ou fora do casulo, pertencem à totalidade da Águia. As emanações fora e dentro do casulo pessoal são as mesmas.

O desafio então é perpetuar esse sentimento de separação? Perpetuar o centro e o casulo que revindicam a sua individualidade? Ou permitir que esse centro conscientemente desperte pra possibilidade de que já está, e sempre esteve, além do casulo? 

(Jeremy Christopher)

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