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A parte final da Explicação dos Feiticeiros: o tonal indescritível

“- Fazer a razão sentir-se segura é sempre a tarefa do mestre – disse ele. – Ludibriei sua razão fazendo-a crer que o tonal era responsável e previsível. Genaro e eu nos temos esforçado para lhe dar a impressão de que somente o nagual estava além do âmbito da explicação; a prova de que tivemos êxito nisso é que neste momento lhe parece, a despeito de tudo por que você passou, que ainda existe um centro que você pode chamar de seu, a sua razão. Isso é uma miragem. Sua preciosa razão é apenas um centro de montagem, um espelho que reflete alguma coisa que está fora dela. Ontem à noite você presenciou não apenas o nagual indescritível, como ainda o tonal indescritível. O último capítulo da explicação dos feiticeiros diz que a razão apenas reflete uma ordem exterior, e que a razão nada sabe a respeito dessa ordem; não pode explicá-la, do mesmo modo como não pode explicar o nagual. A razão só pode presenciar os efeitos do tonal, mas nunca poderia compreendê-lo, nem desemaranhá-lo. O simples fato de estarmos pensando e falando mostra uma ordem que seguimos sem nunca saber como o fazemos, nem o que a ordem será.
Mencionei então a ideia das pesquisas do homem ocidental sobre o funcionamento do cérebro como uma possibilidade de explicar o que era essa ordem. Ele observou que tudo o que essa pesquisa fazia era atestar que algo estava acontecendo.
– Os feiticeiros fazem a mesma coisa com a vontade – disse ele. – Dizem que através da vontade podem presenciar os efeitos do nagual. Agora, posso acrescentar que, através da razão, não importa o que fizermos com ela, ou como o fizermos, estaremos simplesmente presenciando os efeitos do tonal. Em ambos os casos não há esperança jamais de entender ou explicar o que é que estamos presenciando. Ontem à noite foi a primeira vez que você voou nas asas de sua percepção. Você ainda era muito tímido. Aventurou-se apenas na faixa da percepção humana. Um feiticeiro pode usar essas asas para tocar outras sensibilidades, a de um corvo, por exemplo, a de um coiote, de um grilo, ou a ordem de outros mundos naquele espaço infinito.
(…)
– Chegamos à última parte da explicação dos feiticeiros – prosseguiu. – Ontem à noite Genaro e eu lhe mostramos os dois últimos pontos que perfazem a totalidade do homem, o nagual e o tonal. Um dia eu lhe disse que esses dois pontos ficavam fora de nós, e no entanto não ficavam. É este o paradoxo dos seres luminosos. O tonal de cada um de nós não é mais que o reflexo daquele vazio indescritível cheio de ordem; o nagual de cada um de nós não é mais que um reflexo daquele vazio indescritível que contém tudo. Agora você deve sentar-se no lugar predileto de Genaro até o crepúsculo; até lá você deve ter colocado no devido lugar a explicação dos feiticeiros. Sentado aqui, agora, você nada tem a não ser a força de sua vida que une aquele aglomerado de sentimentos.
Ele se levantou.
– A tarefa de amanhã é mergulhar no desconhecido sozinho, enquanto Genaro e eu o observamos, sem interferir – disse ele. – Sente-se aqui e desligue seu diálogo interior. Você pode conseguir o poder necessário para abrir as asas da sua percepção e voar para aquele infinito”

(Porta para o Infinito, Carlos Castañeda)

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