A Arrogância do Buscador

É comum quando alguém adentra com certo grau de persistência e intensidade no caminho, qualquer que seja o caminho, e após ter se modificado minimamente, de encontrar justificativas para se sentir superior aos seus semelhantes, ainda que isso não seja expressado abertamente em pensamentos. Os indícios são os julgamentos que a mente faz sobre os hábitos carentes de propósito das demais pessoas, ou as comparações com outros caminhos (e seus praticantes e mestres), que lhe parecem mais superficiais e longe da excelência do seu próprio caminho e seus mestres. No caso do nagualismo, não é incomum ver guerreiros criticando pessoas comuns, religiosas, ou “new-agers”, medindo seus níveis de autoimportância, e comparando negativamente mestres de outras tradições a dom Juan e seus companheiros/companheiras.

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Isso se apoia, por um lado, numa romantização e idealização dessas figuras, que se torna um obstáculo para que seu próprio ponto de encaixe se convença de que essas possibilidades estão realmente ao seu alcance. E por outro, na própria frustração de não ter atingido a transformação almejada, que se expressa como incredulidade ou escárnio quando alguém sugere ter alcançado tal possibilidade, e se apoia em contrapartida na valorização dos seus próprios esforços, seus anos de experiência, sua quantidade de livros lidos, ou de plantas de poder consumidas, mesmo sabendo que eles tenham sido infrutíferos, como um currículo que pode distingui-lo das pessoas comuns e justificar que seus esforços e caminhada até o momento não foram em vão: pelo menos não está mais no mesmo patamar das outras pessoas!

Precisamos acreditar que estamos evoluindo.

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Constatar que nossos esforços foram em vão seria talvez vergonhoso, então os colocamos numa estante como troféus, sem saber que todo esforço para alcançar o Intento é em vão, exceto pelo fato de levar um buscador à essa constatação tão fortemente e sobriamente que sua primeira atenção possa parar e percebê-lo.

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Lembro, após alguns anos de caminho, de ver videos de mestres ‘new-agers’ na internet, com certo desprezo por eles e aqueles que os seguiam por achar que estavam se enganando e que não tinham alcançado nada. E de anos depois perceber que boa parte destes mesmos mestres estiveram, com suas palavras, apontando de fato para o Intento: minha pessoa é quem era incapaz de percebê-lo.

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O universo ao nosso redor é um espelho, onde o que vemos quase sempre é apenas nossa própria posição do ponto de encaixe refletida, e não de fato a experiência dos outros. Reconectar-se ao Intento não é necessariamente uma questão de mérito, e de quantos anos de esforço se investiu nessa empreitada, muito menos de quanta informação se acumulou na cabeça, e não existe apenas um caminho que conduz à essa reconexão. Um índio simples como Eligio pode conseguí-lo em poucos anos, e um guerreiro erudito como Castañeda pode levar décadas.

— Jeremy Christopher

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Quando a reconexão ocorre, o vidente vê que o Conhecimento, o Intento, sempre esteve presente e escondido nas menores coisas, e que o caminho era apenas um subterfúgio para sair de sua cabeça e se reconectar com lucidez à vida acontecendo aquieagora.

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